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Pernambucano cantando para o mundo

10/06/2008

FOTO CAU BORGES/ ARQUIVO PESSOAL

CHICO SCIENCE & Nação Zumbi tocam em palco cearense, em 1996


O Governo pernambucano lança o portal Música de Pernambuco com o objetivo de divulgar a diversidade musical dos artistas do estado para o mundo. No próximo mês, Recife sediará a primeira Feira Música Brasil, evento internacional que pretende colocar o Brasil na rota do mercado de música independente mundial

Luciano Almeida Filho
da Redação

No final dos anos 40, o lançamento da potente Rádio Jornal do Commercio trazia seu lema histórico: "Pernambuco falando para o mundo". O fato colocava a capital do estado, Recife, na linha de frente das transmissões radiofônicas, cujas ondas eram capazes de serem captadas nos mais diversos pontos do planeta. Tal pioneirismo, agora no século 21, pode até parecer obsoleto frente à rede mundial de computadores (Internet), e outros avanços das comunicações e da cibernética. Porém, o cerne do pioneirismo continua proliferando no vizinho estado do Nordeste.

Hoje, nenhum estado brasileiro dá apoio oficial a sua produção cultural no nível que Pernambuco tem dado, em especial à música, de olho principalmente na projeção internacional. A prova é o recente lançamento do projeto Música de Pernambuco (www.musicadepernambuco.­pe.­gov­.br), um portal na Internet mantido pelo Governo do Estado com objetivo primordial de promover a diversidade musical presente em todo o território pernambucano nas mais diferentes manifestações: das tradições da cultura popular rural, passando pelos gêneros historicamente mais fortes no estado (o forró, o frevo e a música de carnaval), pelo erudito, o instrumental, até as produções contemporâneas e multifacetadas da música urbana atual (eletrônico, hardcore, indie-rock, hip-hop etc).

A idéia do portal é levar toda esta diversidade musical generosa para o mundo. Dar oportunidade aos artistas do Estado levar seu trabalho para qualquer canto do planeta. Como escreveu o jornalista e crítico de música José Teles, autor do livro Do Frevo Ao Mangue-Beat (Editora 34) no texto de apresentação do portal, "...Agora é Pernambuco cantando para o mundo". Para divulgar do projeto, uma caixa com nove CDs foi lançada a nível promocional. É um verdadeiro catálogo/ cartão de visitas da música pernambucana em amplo espectro, reunindo 154 faixas em CDs distribuídos por categorias: Música urbana, Frevo e música de carnaval e Forró ganharam volumes duplos, e mais CDs individuais para MPB, Cultura popular e Música instrumental e erudita, tudo em edição trilíngue (português, inglês e francês). É bom destacar que todas as faixas presentes nos discos podem ser ouvidas no portal Música de Pernambuco, aliadas a breves currículos dos artistas, fotos e formas de contato.

O projeto reúne desde nomes veteranos como o eterno intérprete de frevos Claudionor Germano, estrelas do porte de Alceu Valença e Geraldo Azevedo, o consagrado percusssionista Naná Vasconcelos, praticamente toda a geração do mangue-beat e suas ramificações posteriores, lendas vivas da cultura popular como Lia de Itamaracá e Selma do Coco. Mas também há ausências que devem ser corrigidas posteriormente, entre as quais Lenine, Banda de Pífanos de Caruaru, Caju & Castanha, Heraldo do Monte, Faces do Subúrbio, entre outros.

A coleção mescla desde gravações recentes e inéditas em discos comercialmente disponíveis até o resgate de obras raríssimas que tiveram importância histórica - este é o caso da faixa Alegro Piradíssimo, com Lailson e Lula Côrtes, oriunda do LP Satwa, pioneiríssimo registro de produção independente de 1973, que abre o volume Música instrumental e erudita. Este álbum é hoje tido como fundamental para o que se chama de 'psicodelia nordestina', que vem sendo cultuada por colecionadores no Brasil e no exterior.

O lançamento do Música de Pernambuco antecipa a realização da primeira Feira Música Brasil, que acontecerá em Recife de 7 a 11 de fevereiro próximo, cujo objetivo é colocar o Brasil na rota dos principais eventos do mercado da música independente mundial. A feira acontecerá aliada à terceira edição do Porto Musical, além de toda uma programação que envolve as comemorações dos 100 Anos do Frevo, que culminará no carnaval, e a lembrança dos 10 anos de morte de Chico Science, um dos líderes do movimento mangue-beat.

É justamente o movimento mangue apontado hoje como o catalisador desta revalorização da pluralidade musical pernambucana nos últimos 15 anos. O pioneirismo de Chico Science, então à frente da Nação Zumbi, que reconduziu a música brasileira da novíssima geração com as antenas ligadas na globalização. Que viu ampliou os horizontes para além do mercado brasileiro, então viciado em modismos passageiros atravancados por uma indústria fonográfica decadente, aliada uma grande mídia corrompida pelos esquemas de jabá (pagamento por execuções em rádio e televisão).

Depois de tantos argumentos, o fato do Ministério da Cultura promover a realização desta primeira Feira Música Brasil em Recife é apenas uma forma de coroar o pioneirismo de Pernambuco, exemplo a ser seguido por outros estados. Em especial, àqueles onde ainda vale o triste ditado colonizado do 'santo de casa não obra milagre'.

SERVIÇO
Música de Pernambuco - Caixa coleção com nove CDs, distribuídos tematicamente: Frevo e música de carnaval - vol. 1: 10 faixas e vol. 2: 9 faixas; Música urbana - vol. 1: 20 faixas e vol. 2: 20 faixas; Forró - vol. 1: 17 faixas e vol. 2: 18 faixas; MPB: 20 faixas; Música instrumental e erudita: 19 faixas; e Cultura popular: 21 faixas. Todas as músicas poderão ser ouvidas na Internet no portal.

Clique aqui para acessar o site Música de Pernambuco

(© O Povo)


VÍDEO:

Veja Chico Science - com o Nação Zumbi - e Gilberto Gil cantando ao vivo, no Abril Pro-Rock (Recife), a música Macô


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