CHICO SCIENCE & Nação Zumbi tocam
em palco cearense, em 1996
O Governo
pernambucano lança o portal Música de Pernambuco com o objetivo de
divulgar a diversidade musical dos artistas do estado para o mundo. No
próximo mês, Recife sediará a primeira Feira Música Brasil, evento
internacional que pretende colocar o Brasil na rota do mercado de música
independente mundial
Luciano Almeida Filho
da Redação
No final dos anos 40, o lançamento da potente Rádio
Jornal do Commercio trazia seu lema histórico: "Pernambuco falando para
o mundo". O fato colocava a capital do estado, Recife, na linha de
frente das transmissões radiofônicas, cujas ondas eram capazes de serem
captadas nos mais diversos pontos do planeta. Tal pioneirismo, agora no
século 21, pode até parecer obsoleto frente à rede mundial de
computadores (Internet), e outros avanços das comunicações e da
cibernética. Porém, o cerne do pioneirismo continua proliferando no
vizinho estado do Nordeste.
Hoje, nenhum estado brasileiro dá apoio oficial a sua produção cultural
no nível que Pernambuco tem dado, em especial à música, de olho
principalmente na projeção internacional. A prova é o recente lançamento
do projeto Música de Pernambuco (www.musicadepernambuco.pe.gov.br),
um portal na Internet mantido pelo Governo do Estado com objetivo
primordial de promover a diversidade musical presente em todo o
território pernambucano nas mais diferentes manifestações: das tradições
da cultura popular rural, passando pelos gêneros historicamente mais
fortes no estado (o forró, o frevo e a música de carnaval), pelo
erudito, o instrumental, até as produções contemporâneas e
multifacetadas da música urbana atual (eletrônico, hardcore, indie-rock,
hip-hop etc).
A idéia do portal é levar toda esta diversidade musical generosa para o
mundo. Dar oportunidade aos artistas do Estado levar seu trabalho para
qualquer canto do planeta. Como escreveu o jornalista e crítico de
música José Teles, autor do livro Do Frevo Ao Mangue-Beat (Editora 34)
no texto de apresentação do portal, "...Agora é Pernambuco cantando para
o mundo". Para divulgar do projeto, uma caixa com nove CDs foi lançada a
nível promocional. É um verdadeiro catálogo/ cartão de visitas da música
pernambucana em amplo espectro, reunindo 154 faixas em CDs distribuídos
por categorias: Música urbana, Frevo e música de carnaval e Forró
ganharam volumes duplos, e mais CDs individuais para MPB, Cultura
popular e Música instrumental e erudita, tudo em edição trilíngue
(português, inglês e francês). É bom destacar que todas as faixas
presentes nos discos podem ser ouvidas no portal Música de Pernambuco,
aliadas a breves currículos dos artistas, fotos e formas de contato.
O projeto reúne desde nomes veteranos como o eterno intérprete de
frevos Claudionor Germano, estrelas do porte de Alceu Valença e Geraldo
Azevedo, o consagrado percusssionista Naná Vasconcelos, praticamente
toda a geração do mangue-beat e suas ramificações posteriores, lendas
vivas da cultura popular como Lia de Itamaracá e Selma do Coco. Mas
também há ausências que devem ser corrigidas posteriormente, entre as
quais Lenine, Banda de Pífanos de Caruaru, Caju & Castanha, Heraldo do
Monte, Faces do Subúrbio, entre outros.
A coleção mescla desde gravações recentes e inéditas em discos
comercialmente disponíveis até o resgate de obras raríssimas que tiveram
importância histórica - este é o caso da faixa Alegro Piradíssimo, com
Lailson e Lula Côrtes, oriunda do LP Satwa, pioneiríssimo registro de
produção independente de 1973, que abre o volume Música instrumental e
erudita. Este álbum é hoje tido como fundamental para o que se chama de
'psicodelia nordestina', que vem sendo cultuada por colecionadores no
Brasil e no exterior.
O lançamento do Música de Pernambuco antecipa a realização da primeira
Feira Música Brasil, que acontecerá em Recife de 7 a 11 de fevereiro
próximo, cujo objetivo é colocar o Brasil na rota dos principais eventos
do mercado da música independente mundial. A feira acontecerá aliada à
terceira edição do Porto Musical, além de toda uma programação que
envolve as comemorações dos 100 Anos do Frevo, que culminará no
carnaval, e a lembrança dos 10 anos de morte de Chico Science, um dos
líderes do movimento mangue-beat.
É justamente o movimento mangue apontado hoje como o catalisador desta
revalorização da pluralidade musical pernambucana nos últimos 15 anos. O
pioneirismo de Chico Science, então à frente da Nação Zumbi, que
reconduziu a música brasileira da novíssima geração com as antenas
ligadas na globalização. Que viu ampliou os horizontes para além do
mercado brasileiro, então viciado em modismos passageiros atravancados
por uma indústria fonográfica decadente, aliada uma grande mídia
corrompida pelos esquemas de jabá (pagamento por execuções em rádio e
televisão).
Depois de tantos argumentos, o fato do Ministério da Cultura promover a
realização desta primeira Feira Música Brasil em Recife é apenas uma
forma de coroar o pioneirismo de Pernambuco, exemplo a ser seguido por
outros estados. Em especial, àqueles onde ainda vale o triste ditado
colonizado do 'santo de casa não obra milagre'.
SERVIÇO
Música de Pernambuco - Caixa coleção com nove CDs, distribuídos
tematicamente: Frevo e música de carnaval - vol. 1: 10 faixas e vol. 2:
9 faixas; Música urbana - vol. 1: 20 faixas e vol. 2: 20 faixas; Forró -
vol. 1: 17 faixas e vol. 2: 18 faixas; MPB: 20 faixas; Música
instrumental e erudita: 19 faixas; e Cultura popular: 21 faixas. Todas
as músicas poderão ser ouvidas na Internet no portal.