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Manuel Bandeira por ele mesmo

10/06/2008

O poeta Manuel Bandeira


MARCELO COELHO

É como se a própria agressividade da dicção tornasse mais nua a intuição íntima do autor

TEM O ar de uma pequena edição de luxo, com a capa dura e o título de cada poema impresso em tinta vermelha, a antologia de Manuel Bandeira que a Cosacnaify acaba de lançar. Trata-se da reedição de um volume lançado em 1955 pelo Ministério da Educação e Cultura, "50 poemas de Manuel Bandeira escolhidos pelo autor".

Só que agora vem junto um CD, com a voz do próprio poeta interpretando clássicos como "Vou-me Embora pra Pasárgada" e "Evocação do Recife". O público tem acesso, desse modo, ao conteúdo integral dos discos que Manuel Bandeira gravou para o antigo selo "Festa", de Irineu Garcia, que produziu uma série de registros de poetas brasileiros declamando seus próprios versos.

O CD que vem encartado neste livro não se sobrepõe a "O Poeta em Botafogo", outro registro de Manuel Bandeira lendo seus poemas, feito pelo amigo Lauro Moreira em 1967.

É um choque ouvir a voz de Manuel Bandeira pela primeira vez. Ele próprio confessava numa crônica, citada no posfácio da edição: "Pessoalmente, sinto-me horrorizado de minha própria voz gravada: acho-a dura, malacostrácea, antipática. Será possível que eu fale assim?"

"Malacostrácea" se refere à classe dos caranguejos, camarões e lagostas, e, pensando bem, não apenas a voz, mas também o perfil de Manuel Bandeira, com os dentes salientes, o nariz em curva, os grandes óculos, tem algo de agressivo e de preênsil.

A exemplo do "cacto" daquele seu poema famoso, o timbre de Manuel Bandeira é sem dúvida "áspero, intratável", como observam Augusto Massi e Carlito Azevedo no posfácio da antologia.

Mas, conforme vamos ouvindo, a "feiúra" da voz se harmoniza com o conteúdo dos poemas e participa do mesmo efeito de estranhamento e simplicidade que está presente em tantas páginas de Manuel Bandeira. Penso, por exemplo, em "Namorados": "O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:/ -Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.// A moça olhou de lado e esperou.// -Você não sabe quando a gente é criança e vê de repente uma lagarta listada?// A moça se lembrava:/ -A gente fica olhando...// A meninice brincou de novo nos olhos dela.// O rapaz prosseguiu com muita doçura:/ -Antônia, você parece uma lagarta listada.//A moça arregalou os olhos, fez exclamações.// O rapaz concluiu:/ -Antônia, você é engraçada! Você parece louca".

Em outros poemas, Bandeira dizia que o porquinho-da-índia que ganhara de presente aos seis anos de idade tinha sido sua primeira namorada; ou que, vendo uma pequena aranha no teto, quis beijá-la.

Tudo poderia passar, à primeira vista, por um simples gesto de libertação poética frente às convenções românticas e parnasianas. Mas o que fica dessas comparações surpreendentes é sobretudo um movimento de ternura enorme, e que a voz do poeta justamente vem livrar de toda concessão sentimental.

É como se a própria agressividade da dicção tornasse mais frágil, mais nua a intuição íntima do autor. É aquilo, aquilo mesmo: Antônia de fato despertava no rapaz a impressão de ser uma lagarta listada, e se ele diz que ainda não se acostumou "com o seu corpo, com a sua cara", alguma coisa de muito secreto e de muito real foi expresso ali.

Não o mero embevecimento diante da beleza da namorada, mas a incredulidade de estar amando, de ter, digamos, um outro bicho diante de si. E quando se ouve Bandeira declamar a "Evocação do Recife", a pontuação, as pausas que o autor impõe aos próprios versos têm também esse efeito de surpresa súbita diante das coisas que aparecem sem motivo, se incendeiam e se vão.

Sem contar que, ao ouvir os poemas, sente-se com mais vivacidade a importância que tinham, para Bandeira, as vozes, os pregões, as falas do passado. É uma poesia feita de memória auditiva e impressões visuais: "De repente/ nos longes da noite/ um sino/ Uma pessoa grande dizia:/ Fogo em Santo Antônio!/ Outra contrariava: São José!"

Essa vida de infância, "com uma porção de coisas que eu não entendia bem", era feita de alaridos, rumores e conversas. Tudo seria menos real, menos vivo, se a voz de Manuel Bandeira tivesse um timbre melodioso e cultivado.

Nas dissonâncias e tons metálicos da gravação, o passado do poeta volta com tudo o que tinha de estranho e de maravilhoso da perspectiva de uma criança; e, ao mesmo tempo, com a consciência do que há de irrecuperável, de perdido para quem escreve ou escuta agora.

(© Folha de S. Paulo)


VÍDEO

Veja uma interpretação do poema O Bicho, de Manuel Bandeira, numa montagem digital


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