Ilustração do
xilogravurista J. Borges para o Jornal do Commercio
Sinônimo imediato de Nordeste, a Feira de Caruaru ganhou um motivo
oficial para ser visitada: o título de Patrimônio Imaterial do Brasil
BRUNO ALBERTIM
CARUARU – Se Ipanema tem sua garota, Caruaru tem sua feira. O
clássico de Vinícius e Tom, fundo musical de um Rio de Janeiro idílico
que não queimava ônibus com passageiros a caminho do mar, figura sempre
como um dos dez mais regravados do mundo. Mas a canção na voz de Luiz
Gonzaga que se cristalizou no imaginário coletivo, A feira de Caruaru
– pouca gente sabe –, é um dos temas brasileiros mais recorrentes no
exterior. Já recebeu mais de 30 versões internacionais. Como se
precisasse, a feira tem agora mais um motivo para visita. Oficializada
Patrimônio Imaterial do Brasil, segue como encruzilhada fundamental do
Nordeste. E com um detalhe: feiras no mundo, há muitas. Pouquíssimas se
dão ao luxo de ostentar trilha sonora oficial.
“Se eu fosse escrever a letra hoje, não mudaria nada, escreveria do
mesmo jeito”, diz o autor Onildo Almeida, parceiro de Gonzagão, ainda
hoje morador de Caruaru, feliz com o novo título para a cidade-musa e,
claro, cliente contumaz de sua feira. Há mais de 200 anos, ancorada no
comércio labiríntico e belamente caótico por onde gravita, o município
do Agreste pernambucano é ponto constante de migração. Pelos seus
estreitos corredores serpenteados por mais de 200 mil metros quadrados,
a população é enorme. Só de feirantes, há algo perto de 30 mil pessoas.
Uma população que começa a chegar cedo, antes das cinco da matina. É
a hora que a feira acorda. Mascates, matutos, sertanejos, comerciantes,
curiosos, artistas, poetas, músicos e, de umas décadas para cá, turistas
de câmera na mão e encantamento na cara. Ainda que o brega ocupe o lugar
do baião nas difusoras, a parabólica se espalhe pela caatinga, a sulanca
suplante o gibão e o moto-táxi deixe o jegue apenas na paisagem, a Feira
de Caruaru é sinônimo imediato de Nordeste. De um Nordeste cravado na
cabeça, quase clichê. Mas, neste caso, profundamente real. “Como
patrimônio cultural, a feira ganha mecanismos de preservação, para que
não deixe de ser o que é”, festeja Walmiré Dimeron, diretor do Museu do
Barro de Caruaru.
Caruaru, aliás, é filha de sua feira. No século 18, a então Fazenda
Cururu, assim batizada pelos sapos de seu poço onde mascates se
abasteciam, virou ponto de encontro. Era uma esquina obrigatória nos
caminhos entre o Recife, o Agreste e o Sertão. Com os boiadeiros, o
ponto deu origem a uma pequena feira de produtos ligados à lida com o
gado.
Pouco depois, em 1781, veio o marco definitivo. No lugar onde a feira
ganhava espaço no entorno do poço, surgiu uma capela dedicada à Nossa
Senhora da Conceição. “Muitos traziam seus produtos agrícolas, para
vender ou trocar por outras mercadorias. Além disso, poderiam aproveitar
a presença de um mascate, que era habitual por aqueles caminhos e,
nesses encontros, era oportuno apresentar as novidades do momento:
tecidos, linha, dedal, chapéus, apetrechos”, diz o professor José
Eusébio Queiroz.
Ávidos por cumprir suas atividades religiosas, o lugar atraiu cada
vez mais os moradores da região. A feira alimentava-se da fé e a cidade,
por sua vez, da feira. “Almoço feito na corda, pirão mexido que nem
angu, mobília de tamborete, feita de tronco de mulungu. Tem louça, tem
ferro-velho, sorvete de raspa de pai jaú, gelado, caldo-de-cana, fruta
de palma e mandacaru. Boneco de Vitalino, que são conhecidos, até no
Sul”, dizem os versos de A feira de Caruaru, mostrando o enredo
inevitável: “De tudo que há no mundo, tem na feira de Caruaru”, conclui
a letra.
Corriam os barrentos anos 40 no Agreste de Pernambuco quando um
pequeno grupo de homens, sob a influência de Vitalino Pereira dos
Santos, começou a transformar em brinquedos as sobras do barro das
muitas olarias locais. Jamais imaginariam o que o futuro reservava.
Com a escola da cerâmica figurativa de Caruaru, Vitalino agregaria
muitos valores a seu nome. Reconhecido como o maior representante da
arte popular brasileira, o artista tem seus emblemáticos bois até no
prestigioso Museu do Louvre de Paris. Hoje, o Alto do Moura, bairro
mais afastadado do centro de Caruaru, é considerado pela Unesco como
o maior centro de arte figurativa das Américas. Uma história e uma
estética que, contudo, começam na Feira de Caruaru. “A gente fazia
aqueles boizinhos e cavalinhos de barro, para os meninos brincarem.
Era tudo baratinho, nunca pensamos que ia virar arte. A gente vendia
na feira mesmo”, diz o mestre Manuel Eudócio, único artista vivo
remanescente da geração de Vitalino.
Não por acaso, a porção mais tradicional da Feira de Caruaru é a
dedicada ao artesenato. Aqui, pode começar nossa viagem. Os artistas
já não vendem suas peças diretamente nos tabuleiros. “Todos preferem
trabalhar e comercializar seus trabalhos em suas casas. Já são
conhecidos”, diz Eudócio, lembrando que os últimos artistas saíram
da feira nos anos 80. Mas nesta parte da feira, não faltam bonecos
de barro e outros gêneros de geniosa necessidade: sandálias de couro
e chapéu de couro, colher e utensílios de pau, redes, tapetes.
Vendidos por comerciantes que se abastecem com os artesãos locais.
Que tal um boné inteiramente revestido com pêlo de bode? Aqui
tem. Como tem também os boizinhos e cavalinhos de barro pintado,
vendidos ao preço módico de R$ 1, ainda como brinquedos, disputando
um pouco da atenção dos pequenos que, mesmo no interior, divertem-se
mais com os jogos eletrônicos das lan houses.
A Feira de Caruaru não é uma. São muitas. Treze, ao todo. Cruzada
por duas rodovias, porta do Agreste, epicentro urbano de cerca de 40
cidades ao redor, Caruaru alimenta todo mundo que chega com sua
imensa diversidade. A grande feira, mais de 200 mil metros
quadrados, divide-se em alas mais ou menos organizadas de acordo com
a oferta de produtos: troca-troca, flores, ervas, utensílios,
móveis, animais (vivos ou abatidos) e por aí vai.
Aos sábados, no troca-troca, dinheiro é praticamente dispensável.
Mercadorias são negociadas na velha prática do escambo. Sábado, por
um único, mas importantíssimo detalhe, é dia clássico da feira.
Entre as barracas do setor de artesanato, devidamente guarnecidos
com um naco de bode guisado e um gole de cerveja gelada, os
transeuntes podem assistir à Banda de Pífanos de Caruaru nas
galerias apinhadas de objetos.
Não se preocupe com guias. Perder-se faz parte inevitavelmente de
uma investida na feira. Quando estiver saindo do artesanato, procure
pelo Museu do Cordel, uma casa de taipa dedicada à poesia popular
nordestina e à xilogravura em pleno comércio. Cantadores usam o
lugar para fazerem suas disputar. Prensas antigas mostram como os
folhetos são tradicionalmente impressos. “O cordel não acaba nunca”,
diz o responsável pela casa, Olegário Fernandes Filho, 26, filho do
famoso poeta Olegário Fernandes, cujo memorial funciona no museu.
“Meu pai criou isso, em seu antigo armarinho, para preservar a
memória do cordel”, diz o rapaz que começou a escrever versos aos 21
anos. “Meu pai era como um jornalista, contava todos os fatos e
novidades no cordel. Eu gosto de fazer gracejos”, diz ele, que, de
pronto, logo começa a recitar para os visitantes interessados suas
rimas sobre os vários tipos de beijo que tem no mundo.
Ande mais um pouco e você estará logo diante de ervas, paus e
plantas secas abundantes como caleidoscópios. “Aqui tem remédio para
tudo”, diz dona Maria José da Silva, 74 anos, que pensa, pensa, mas
nem lembra mais há quanto tempo está vendendo suas fórmulas na
feira.”Ih, é tempo demais”, resume. “Desde que larguei a enxada na
roça”. A feira também confunde-se com a vida de Gercindo Ferreira de
Lima. Aos 61, ele faz artesanato com bambu desde os 12. “Muitos
hotéis do Sul encomendam minhas tochas”, orgulha-se.
Perto dali, beiju fresquinho, queijo manteiga, biscoitos e
bolachas hoje quase inexistentes nas cada vez mais padronizadas
padarias do Recife. É bom levar sacola porque as compras são
inevitáveis. De repente, uma imagem quase acrobática: com perícia
invejável, seu Edvaldo Carneiro de Lucena maneja uma urupema
(peneira, para os pouco íntimos) e limpa jogando para o alto, sem
perder um único grão, o feijão que vende na feira. “Nasci plantando
e hoje vivo vendendo feijão”, orgulha-se.
“O mais importante na feira é a diversidade. A gente vende feijão
e conhece gente de todos os estilos. Do pobre que compra pra comer
ao rico que vem porque gosta. A gente fica à vontade, faz o próprio
horário. Conversa com todo mundo. A feira é um trabalho
maravilhoso”, diz Ana Maria Lucena, 22, cunhada de seu Edvaldo.
“Entrei na feira quando entrei para a família. Estou adorando”,
entusiasma-se. (B.A.)
Feira
ganhou fama graças à música feita pelo caruaruense Onildo Almeida
CARUARU – Quando surgiu, seu autor jamais imaginou que ela teria
status de hino. “Nunca pensei que fosse fazer tanto sucesso
assim. De vez em quando, amigos que estão no exterior me ligam
dizendo que ouviram uma versão que não conheciam”, diz o pai da
feira, o comunicador e compositor Onildo Almeida, autor do baião
gravado por Luiz Gonzaga que cristalizou o mercado no imaginário
coletivo. Só um exemplo: A feira de Caruaru foi uma das
peças executadas num dos últimos concertos da Filarmônica de
Berlim.
Parceiro de Gonzagão em mais de 20 canções, algumas delas
clássicos de seu cancioneiro, Onildo mora até hoje na cidade
que, com sua música, ajudou a revelar. E, claro, freqüenta
constantemente seu ponto comercial mais antigo e tradicional.
“Há muitas feiras no mundo. Mas poucas têm a grandiosidade da
feira de Caruaru. Desde sempre, por exemplo, os matutos iam à
feira comprar as conhecidas calças de alvorada”, diz ele,
confirmado que o tempo passa ao largo do mercado popular, mas
não altera suas substâncias.
Ele lembra extamente quando e como nasceu a canção, uma
espécie de hino do Agreste e fundo musical subconsciente de
qualquer turista que entre pelos labirintos de barracas do
mercado. “Fiz a música e gravei um disquinho. Então, fui ao
Recife procurar um cantor para gravar. Achei que Jackson do
Pandeiro seria o ideal”, lembra. Apesar de cantor, Onildo nunca
quis gravá-la. “Eu era cantor romântico, estava mais para Dick
Farney, Lúcio Alves...”, diz ele. Jackson do Pandeiro, contudo,
não estava num momento de muita responsabilidade profissional e
a música acabou não chegando até ele. “Acabei gravando, com um
chorinho do outro lado do compacto”.
Até que um dia, em 1957, Luiz Gonzaga, já dono da coroa de
Rei do Baião, caminhava pelos arredores da feira. Parou diante
de uma loja de discos atraído pela melodia de uma vitrola.
Apaixonou-se pela canção e, ali mesmo, resolveu ir atrás do
homem que tinha musicado a feira de Caruaru.
Foi até a rádio onde Onildo trabalhava, com o disco na mão.
“Isso é seu, caboclo?”, perguntou. Diante da afirmativa,
emendou: “Isso aqui tem cheiro de povo, de fuá, de forró. Posso
gravar?”. O resultado é conhecido. Iniciava-se ali uma parceria
responsável por mais de 20 sucessos na voz de Gonzagão, como o
hino O regresso do rei.
Apenas de março a maio daquele ano, o disco que trazia A
Feira de Caruaru de um lado e Capital do Agreste do
outro vendeu mais de cem mil cópias. “Caruaru é um nome muito
doce para música”, diz Onildo, dedilhando a canção ao violão
numa rede comprada, claro, na feira. Feiras pelo mundo, há
muitas. Poucas são musas como a de Caruaru (B.A.).
Tombamento preserva as características atuais do
patrimônio, incluindo a variedade de itens oferecidos
Registrada como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, a Feira de
Caruaru ganha mecanismos e uma política favorável à sua preservação.
Ela não está tombada como ocorre com imóveis históricos. Pode,
portanto, receber reformas. Mas não aleatórias.
Embora mantida pelos hábitos e cultura da população caruaruense,
a feira poderia, por exemplo, ser completamente reconstruída, caso
um futuro administrador municipal assim desejasse. Com o registro do
título, não pode mais.
“Como a feira é um equipamento grande de comércio, dinâmica, ela
pode e até precisa de reformas, mas tudo isso só será feito com
discussões e projetos que mantenham suas características originais”,
diz Walmiré Dimeron, diretor de documentação e patrimônio cultural
da Fundação de Cultura de Caruaru.
Em primeiro lugar, diz Walmiré, o título é “uma honraria”.
“Trata-se do reconhecimento oficial da grandeza da feira. A feira
deixa de ser a feira apenas dos caruaruenses e passa a ser também a
feira de todos os brasileiros”, ressalta.
Mas, pragmaticamente falando, o registro do título também pode
pavimentar o caminho de verbas. “A feira, a partir de agora, conta
com o suporte de historiadores e antropólogos do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para monitorar
setores da feira que poderão correr risco”, diz ele.
Walmiré lembra que a parte da Feira de Caruaru dedicada à
perfumaria popular, com óleos, sabonetes, perfumes e produtos feitos
com ervas e plantas locais, é uma das que têm diminuído ano a ano.
“Tanto esse como os setores do troca-troca, miudezas, bolos,
comidas tradicionais e artesanato requerem um cuidado maior”,
ressalta, lembrando que o título permite à cidade concorrer a linhas
de financiamento para projetos de salvaguarda desses saberes.
“Com o Iphan, a Prefeitura de Caruaru, caso as barracas de ervas
medicinais desaparecem por exemplo, poderia investigar se há
descendentes de antigos comerciais interessados em participar de
cursos para assimilação desses saberes”, salienta o diretor de
patrimônio.
“Sou a favor de um reodernamento da feira. Nos dias de feira da
sulanca, por exemplo, temos invasão de mercadorias fabricadas dentro
do artesanato, muitas vezes importado. Cada mercadoria deve ser
comercializada no espaço adequado”, diz ele. Tão incorporados à
feira como os produtos artesanais, os produtos eletrônicos, vários
deles importados, ocupam uma ala inteira do lugar.
Aumentada em quase cinco vezes do tamanho original nos últimos 20
anos, os problemas sócio-culturais da Feira de Caruaru são alvo de
análise no texto oficial do Iphan que a registra como Patrimônio
Imaterial e Cultural do Brasil.
“Um ponto preocupante é a ocupação dos espaços de acesso à feira
e de vias públicas de Caruaru por feirantes denominados “invasores”,
que, na alta estação de vendas, chegam a somar 10 mil”, destaca o
documento.
A Prefeitura de Caruaru também estuda a melhor maneira de
sinalizar turisticamente a feira, sem comprometer seu patrimônio
estético. Caminhar por lá hoje sem se perder – e encontrar com certa
agilidade as alas de barracas – é um verdadeiro desafio. A feira é
realmente labiríntica. Como ferramenta de auxílio, os visitantes
contam com um posto de informações turísticas à entrada do setor de
artesanato da Feira de Caruaru. (B.A.)