|
Marcos Toledo
Se você viu algum dos anúncios "lambe-lambe"
espalhados pelo Recife anunciando o show de uma tal Mula Manca & A
Fabulosa Figura, não
tenha dúvida: trata-se da mesma banda, que mudou apenas o Triste pelo
Fabulosa. E, junto com o adjetivo, transformou toda a sonoridade, que
pode ser conferida agora no CD Amor & pastel – o segundo do grupo
– cujo lançamento também ocorreu nesta quinta-feira.
Quem só lembra da Mula Manca, digamos, da fase
anterior, certamente irá se surpreender com este trabalho. Um disco de
música pop – que os integrantes da banda chamam de MPB – bem curtido com
sonoridades livres, sem amarras de discurso ou estilo, porém, coerente.
Não é de se surpreender, contudo, as mudanças e
evolução do grupo. Quando formado em 2002, Tibério Azul (voz e violão),
Castor Luiz (piano e voz), Dom Ângelo (guitarra, violão e voz) e Bruno
Cupim (bateria e percussão) tinham entre 19 e 22 anos de idade. Eles
mesmos reconhecem que, desde então inseridos na cena musical da cidade,
trocando idéias com músicos mais experientes – como Fábio Trummer
(Eddie), que produziu o primeiro álbum –, obtiveram ganja suficiente
para remodelar o som para o formato atual, mais próximo do que realmente
desejavam. "Muita pouca coisa do primeiro CD foi de autonomia nossa.
Neste, já podemos colocar mais coisas daquilo que imaginávamos", conta
Luiz.
Nesse ínterim, entre o primeiro e o segundo
disco, houve ainda a formação de um projeto paralelo, o Seu Chico, no
qual os membros da Mula Manca interpretam apenas canções de Chico
Buarque. Um outro experimento que, no momento, é dúvida entre os
artistas se vai haver continuidade. Enquanto Luiz acha "repetitivo",
Ângelo, por exemplo, considera "um privilégio estar tocando um artista
como Chico Buarque". A maioria acredita que dá para continuar o projeto
que, até o momento, ajudou na sobrevivência do quarteto, que hoje em dia
se dedica exclusivamente à música.
NOME – A
diferença no nome da Mula Manca é apenas uma das mudanças no rumo do
quarteto, no qual a unanimidade está mesmo longe de ser uma das
características. "Eu queria mudar mais. Por mim, era um nome diferente a
cada vez (disco)", afirma Luiz, que alega ainda motivos de fé na
alteração. Tibério explica ainda que o nome estava diretamente ligado a
referências que estão ficando cada vez mais no passado, como Don Quixote
de la Mancha, por exemplo. "A banda hoje tem outra identidade", conta.
E essa nova identidade é muito mais importante
do que qualquer mudança de nome. O grupo poderia até adotar algum
símbolo esquisito, como o cantor Prince, contudo, o que chama mesmo a
atenção é a sonoridade encontrada. Música que os integrantes chamam de
MPB por ser este o ritmo que todos têm afinidade em comum. "Mas acho o
som da gente universal", classifica Luiz, desconsiderando qualquer
rótulo regional.
A princípio, parece que a opção da Mula Manca
foi pelo óbvio, aquele sambinha que virou marca registrada em qualquer
trabalho que visa demonstrar modernidade. Logo, entretanto, ao mapear as
15 faixas do disco, você encontra referências que passam ainda pela MPB
clássica, como os próprios integrantes denominam, além de jovem guarda
(notadamente em Dinheiro), música de baile (a ótima Fórmula 1,
hit pronto para as FM, se elas ainda existissem), até o pop-rock
pernambucano dos anos 70, de Quadrafônico – primeiro álbum de
Alceu Valença e Geraldo Azevedo, de 1972 – e Ave Sangria (vide Animal).
De acordo com o quarteto, tudo surgido espontaneamente.
Vozes e instrumental também casam em harmonia.
Dos timbres de instrumentos harmônicos, como violão e guitarra, aos
rítmicos, como a percussão. A fórmula? "Privilegiar a canção, fazer o
que a canção pede", ensina Tibério.
Os demais elementos entram como participações
especiais – todos os contrabaixos foram interpretados por Júnior Areia
(Mundo Livre S.A.) e os sopros por Gérson da Gaita. Há ainda a
participação da cantora paraibana radicada no Rio de Janeiro Eleonora
Falcone (que já foi atração do Rec-Beat de Carnaval), do
guitarrista Diogo Andrade (Parafusa), dos percussionistas Urêa (Eddie),
Lucas (Parafusa) e Tom Rocha, do sanfoneiro Rico, do bandolinista
Publius Lentulus (Azabumba), e dos pianistas Juliano (Parafusa) e
Fernando (Suvaca di Prata).
Gravado no estúdio Mr. Mouse, Amor & pastel
teve produção da dupla Leo D. & William P. "Foi exatamente o que a gente
quis", fala Luiz. "O que a gente não domina, eles puderam trabalhar com
a gente. A parte de composição, harmônica, a gente já estava muito
seguro do que queria." Com patrocínio da Chesf, a banda se deu ao
direito de uma semana de pré-produção para que o resultado saísse
exatamente como queria. E saiu bem.
SERVIÇO:
Lançamento do CD Amor & pastel, da
banda Mula Manca & a Fabulosa Figura
Quinta (18), às 21h, no Teatro da UFPE
Avenida dos Reitores, Cidade Universitária
Ingresso: R$ 10, CD: R$ 10
(©
JC Online)
Alcymar dá contribuição para a renovação do frevo
Mais conhecido como forrozeiro, cantor lança o quarto álbum
dedicado ao frevo em um semestre
MARCOS TOLEDO
Quando Alcymar Monteiro começou a carreira gravando um
compacto duplo pela gravadora Rozenblit, o frevo tinha apenas 65
anos de idade. Um bebê, na temporalidade da música. A exemplo do
forró, carro-chefe de sua carreira, o cantor e compositor, viu o
ritmo pernambucano amargar época de desprestígio, sobretudo nos anos
80, apogeu da axé music. Porém, foi naquele período, especificamente
em 1985, que o artista gravou seus primeiros frevos. Agora, no
centenário, não poderia ser diferente. Na próxima semana chega às
lojas seu Frevação vol. 3 (Ingazeira Discos, R$ 10).
O álbum reúne 14 faixas, dez do próprio Alcymar (uma delas, Ó
tem som de ú, em parceria com o caruaruense Gilvan Neves, outro
autor de forró e frevo). Completam o trabalho músicas de João Bosco
& Aldir Blanc (Plataforma, para o intérprete, um
“fressamba”), Capiba (Madeira que cupim não rói), Nelson
Ferreira & Aldemar Paiva (Frevo da saudade), Antônio Maria (Frevo
nº 3 de Recife) e Getúlio Cavalcanti (Atrás do farol). A
proposta, segundo o cantor, é “resgatar as músicas que estão no
inconsciente e transformá-las”, porém, sem perder a essência.
Nesse momento em que se tenta aproveitar a ocasião do centenário
para reoxigenar e dar nova vida ao frevo, Alcymar afirma que sua
contribuição para a chamada “modernidade” do ritmo está nos
arranjos. Ele menciona que no frevo tradicional a voz disputa
acirradamente o espaço sonoro com outros instrumentos, sobretudo
metais. O compositor resolveu, então, arranjar seus frevos tais
quais outros ritmos nos quais, quando entra a voz, os demais
instrumentos reduzem o volume.
“Não é todo o dia que um gênero completa cem anos. Tenho certeza
que as novas e futuras gerações gerações compreenderão a necessidade
de renovação. Se a gente não mexer com o frevo, ele não se mexe.
Talvez o frevo tenha pecado por excesso de zelo, por ficar numa
redoma de vidro vendo o tempo passar e não se renovar”, diz o
artista, que tem ainda em sua discografia de 42 discos outros três
dedicados a esse ritmo. “Agora, jamais vou poder deixar de gravar um
disco de frevo por ano”, promete.
Frevação vol. 3, que tem uma dinâmica semelhante aos
trabalhos de forró do artista, ainda flerta com ritmos como
caboclinho (em Guerreiros do Sol: Fulni-ô), maracatu (Quem
canta seus males espanta) e ciranda (o pout-pourri Balancê do
balanço/ Ciranda da vida, com participação de Lia de Itamaracá).
O álbum sai com tiragem inicial de dez mil cópias, pelo próprio
selo de Alcymar (Ingazeira, nome de sua cidade natal, no Ceará), no
mesmo estilo independente que o artista cultiva há mais de uma
década. “Quando saí da Warner (1993) para gravar um CD
independente, fui chamado de louco. Muitos que ficaram lá sumiram”,
recorda. Uma das vantagens, sobretudo para seu público, é que de
forma independente ele também garante um preço mais acessível para o
CD.
Aos 47 anos de idade, o cantor afirma que tem pressa para tornar
reais seus projetos. “Muita coisa boa que podia ter acontecido na
cultura e não aconteceu porque as pessoas foram deixando para
depois”, acredita. Só neste início de 2007, quando completa 35 anos
de carreira, o artista lança ainda o DVD Cultura brasileira,
que homenageia sua trajetória, o CD em espanhol Forró brasileño,
e a coletânea Festrilhas vol. 1.
O lançamento oficial de Frevação vol. 3 ocorre próximo dia
9, em evento na Livraria Cultura (Paço Alfândega, Bairro do Recife).
(©
JC Online)
|