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Rodrigo Paiva/Folha Imagem
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Luiz
Felipe Pondé, professor da PUC e da
Faap, vai lançar "Do Pensamento no
Deserto"
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Luiz Felipe Pondé defende em novo livro a "dúvida conservadora" e
contesta a idéia de que os problemas humanos são políticos e sociais
RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL
Uma briga antiga vai ganhar um novo "round" com o lançamento em breve do
livro "Do Pensamento no Deserto" (Edusp), reunião de ensaios do filósofo
Luiz Felipe Pondé, 47.
Trata-se da peleja entre o pensamento conservador e a modernidade,
entendida como a crença na promessa de que a razão humana, de que a
ciência, daria conta da realidade e seria capaz de reformar a vida e a
sociedade, visando à melhoria do homem.
Contra essa certeza iluminista (que determina a vida no Ocidente desde
pelo menos o fim do século 18), levantou-se desde logo o que o professor
do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da
Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) chama de "dúvida conservadora".
Embora o pensamento conservador tenha tido representantes nobres no
Brasil -Pondé cita, entre outros, o crítico Otto Maria Carpeaux e o
escritor Nelson Rodrigues-, os problemas que ele coloca raramente são
tratados com rigor acadêmico no Brasil.
É o que esse professor de filosofia procura fazer nos dez ensaios de seu
novo livro, que tratam de temas como a ciência e a bioética, as
literaturas de Fiódor Dostoiévski e Franz Kafka e os entraves do mundo
universitário. "Do Pensamento no Deserto" ainda não tem data para ser
lançado, mas deve sair neste semestre, diz Pondé.
Na entrevista a seguir ele explica o que é a dúvida conservadora e ajuda
a entender declarações como o elogio à Idade Média ("foi tão boa"), o
desprezo à busca da felicidade ("existem coisas muito mais
importantes"), a crítica à modernidade ("uma adolescente, uma menina de
14 anos, que chega a um lugar e começa a organizar") e a afirmação da
existência do mal ("é óbvio que o mal existe; o que talvez a gente possa
pôr em dúvida é se existe o bem").
FOLHA - O problema do conservadorismo é a modernidade?
LUIZ FELIPE PONDÉ - Conservadorismo significa, sem dúvida
nenhuma, uma desconfiança enorme em relação à modernidade, compreendida
como a crença na razão como instrumento suficiente para o conhecimento.
"Conservador" é um termo que não é claro. Mas é razoavelmente correto
você pensar que o termo indica desconfiança e mal-estar com relação à
suficiência da razão, desconfiança com a idéia de que você possa jogar
fora a tradição religiosa, contrariedade à idéia de ruptura -de que o
ser humano possa inventar tudo a partir de hoje-, e está também na idéia
de que a natureza humana é alguma coisa da qual você deve se aproximar
com cuidado e que sempre subentende um certo mistério.
FOLHA - Há também uma desconfiança em relação à idéia de
autonomia moral e de possibilidade de melhoria coletiva do ser humano?
PONDÉ - Esse é um ponto central. Aquilo que os ingleses chamam
de "melhoristas". Uma desconfiança com a capacidade de o ser humano se
auto-inventar e se auto-aperfeiçoar. Isso porque o ser humano é um
animal essencialmente orgulhoso. É isso que o define. Outra
característica é uma desconfiança em relação à idéia de que os problemas
humanos são políticos e sociais. O problema humano é sempre moral.
(©
Folha de S. Paulo)
"A modernidade quis organizar a agonia"
Para filósofo, ruiu a utopia da solução científica da existência:
"O ser humano é agonia, não é alguma coisa que tenha solução"
Pondé diz que promessa de felicidade ligada ao iluminismo falhou e que
há um "afrouxamento da certeza moderna"
DA REPORTAGEM LOCAL
A seguir, Luiz Felipe Pondé diz que o momento é propício à dúvida
conservadora porque há hoje um "afrouxamento da certeza moderna".
(RAFAEL CARIELLO)
FOLHA - Para os modernos, o problema está sempre fora do homem?
LUIZ FELIPE PONDÉ - A tentativa de transformar o problema humano
em político-social é já fruto da busca de você afastar o mal que o
caracteriza e dizer que o problema é o grupo social, que poderia ser
modificado. O problema é sempre o contexto, a família, a classe
social...
O pensamento conservador tem uma urticária enorme dessa idéia de
progresso, sabe?
Que nós vamos construir muitas estradas, vamos crescer economicamente,
as pessoas vão ficar com muitas TVs em casa, e aí a vida vai melhorar.
FOLHA - É isso que o separa ao mesmo tempo de esquerdistas
revolucionários e de liberais reformistas?
PONDÉ - É aí que eles se encontram. A idéia de que você pode
construir uma engenharia social para melhorar o homem, a idéia de que
você pode identificar a natureza humana e mexer nela. É o que os
ingleses chamam de teorias de gabinete.
Faço aqui uma teoria sobre como melhorar o homem. Apago toda a Idade
Média, toda a história da humanidade, e acho que nos últimos 200 anos é
que a gente entendeu o ser humano. Isso é típico do que causa risadas
numa mente conservadora. A idéia de que um cara que escreveu um livro há
150 anos evidentemente sabe mais do que Aristóteles.
Como dizia [Edmund] Burke [1729-1797, filósofo crítico da Revolução
Francesa], "a sociedade é um contrato entre os mortos, os vivos e os que
não nasceram ainda". Isso implica que não devemos romper com o passado
como se a adolescência fosse o paradigma da vida.
Com relação aos "que não nasceram ainda", isso aponta para as fronteiras
da crítica conservadora: usaremos embriões para fabricar cremes de
beleza. Não temos recursos morais no comportamento humano que indiquem
qualquer capacidade de não fazer isso, se isso nos for "útil" -o direito
não preserva nada por mais de 40 anos. Somos utilitaristas ferozes e
hipócritas. Nossa atenção deve se concentrar nos sucessos da ciência.
Isso não significa negar a pesquisa científica, mas não idolatrá-la. A
dúvida conservadora deve chamar atenção para os delírios de um Estado
sempre autoritário, mesmo que se diga democrático, para a necessidade de
rompermos com esse integralismo da felicidade -existem coisas muito mais
importantes do que a felicidade-, enfim, que ensinemos aos mais jovens
como a vida é um risco eterno, como o ser humano é uma espécie precária,
violenta e atormentada pela falta de sentido e como fracassamos na
utopia idealista do progresso.
FOLHA - O que o pensamento conservador crê que possa estar
sendo perdido com a modernidade?
PONDÉ - Faz parte da dúvida conservadora a idéia de que a única
forma de fazer frente ao poder são várias formas de poder -brigando
entre elas. Por isso que a Idade Média foi tão boa, no sentido de que
nela você não tinha nenhuma instância de poder absoluto.
A modernidade é uma adolescente, uma menina de 14 anos, que chega a um
lugar e começa a organizar. Essa é a imagem. Imagine essa menina, que
entra na empresa e começa a administrá-la. Joga fora o que foi feito até
hoje, começa a inventar todos os procedimentos.
É a modernidade. Perde-se o quê nesse processo? Perde-se o que uma
adolescente de 14 anos perderia administrando uma empresa. Quase tudo.
FOLHA - A literatura, a arte, são lugares privilegiados de
aparecimento da reflexão conservadora?
PONDÉ - A arte não totalmente, na medida em que ela é tomada por
essa febre da vanguarda. A ruptura da ruptura da ruptura.
Isso é quase uma piada. Mas a literatura tem um espaço resguardado
porque, como não tem de apresentar resultados, nem progride, ela não se
submete de todo à lógica moderna. Sim, você pode pegar um Kafka, um
Dostoiévski, uma série de autores onde esse mal-estar com a modernidade
aparece. Neles, o que me importa é em que medida o que escreveram serve
para eu compreender o mundo, por que a vida é quase sempre uma porcaria,
por que, apesar de quase todas as provas em contrário, a maioria das
pessoas insiste em viver.
FOLHA - No seu artigo sobre Dostoiévski, o sr. trata do
problema do mal. O mal é o grande recalcado da modernidade?
PONDÉ - Acho que sim. Talvez sim. No entanto o ser humano é
capaz de sobreviver a esse totalitarismo de "o homem é bom", e "o mal é
contextual". Apesar de Rousseau, o ser humano ainda é capaz de perceber
que, na realidade, o mal está nele. Se dissolvo o mal num sistema
social, então não sou mal. O mal é concreto em toda parte, embora às
vezes tenhamos dificuldade de defini-lo. A questão é em que medida o
recalque do mal na realidade não se presta ao ser humano construir uma
neurose narcísica. É óbvio que o mal existe. O que talvez a gente possa
pôr em dúvida é se existe o bem. Esse sim é mais difícil de compreender.
FOLHA - O conservadorismo parece ganhar força hoje -e isso, no
Brasil, é claro. A que se deve isso?
PONDÉ - Antes de tudo a dúvida conservadora é caracterizada pela
idéia de que a gente toma sempre de dez a zero da vida. O momento pode
ser propício justamente pelo afrouxamento da certeza moderna.
FOLHA - A promessa parece ter falhado.
PONDÉ - Sim, nesse sentido da utopia: a reformulação científica
do humano, a administração da vida, a solução científica da existência.
O que caracteriza a modernidade é a utopia de que a gente vai organizar
a agonia. Não resolvem. O ser humano é agonia. O ser humano não é alguma
coisa que tenha solução.
(©
Folha de S. Paulo)
Pondé estudou com jesuítas e morou em kibutz
DA REPORTAGEM LOCAL
"Paulo
Francis, que estudou no Santo Inácio, dizia que quando você estuda em
colégio jesuíta, você pode até se tornar ateu, mas você nunca vai
conseguir se libertar da idéia de que tem uma alma."
Luiz Felipe Pondé, o autor da frase, também estudou em colégio jesuíta,
só que em Salvador, na Bahia -e não no colégio da mesma ordem católica
no Rio de Janeiro, citado pelo jornalista Paulo Francis.
Foi seu pai, militar e católico, que o matriculou lá. Com mãe judia,
Pondé, que nasceu em Pernambuco, se aproximou mais do judaísmo no final
da adolescência.
"Tive uma aproximação muito maior com a "coisa israelense" do que com a
"coisa judaica". Quando fiquei adolescente, entrei no movimento jovem
sionista. Morei num kibutz, onde conheci minha mulher. O fato de ter
casado com uma judia é que acabou determinando um certo cotidiano
judaico. Mas não por conta de família."
Ambas as origens contribuíram, de toda forma, para a formação do hoje
professor de filosofia e teologia e para seu respeito pelo saber
religioso.
Durante uma conversa informal, é capaz de dizer que Jesus foi um "cabra
macho", ao mesmo tempo em que afirma: "Minha questão pessoal religiosa,
no entanto, sempre passou muito mais pela figura de Deus mesmo".
(RC)
(©
Folha de S. Paulo)
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