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Poesia que está no sangue passa de pai para filho

Juareiz Correya, Cida Pedrosa e José Terra
 

Juareiz Correya apresenta o herdeiro José Terra. Apesar de ambos serem poetas, um desconhecia a produção do outro

“Um médico. / Ótimo na família./ Um executivo./ Ótimo. / Um engenheiro / Um arquiteto / Um magistrado. / Ótimo. Um poeta. / Melhor na família dos outros”.

É com os irônicos versos de Classe média, do alagoano pernambucanizado Geraldino Brasil, que o poeta Juareiz Correya faz a apresentação do seu filho, José Terra, com o qual divide o livro Poesia do mesmo sangue.

Como o título dá uma pista, o livro reúne poesia de ambos – pai e filho – e vai ainda mais além no sentido de reforçar os laços sanguíneos: “Os textos selecionados contextualizam o projeto do livro: são ligados ao sangue, à questão da família, poemas para pais, mães, avós...”, explica Juareiz.

Isso está mais explícito nos 11 poemas de José Terra. Talvez pela idade – tem apenas 20 anos – o poeta é bastante auto-referente. Há poemas para o filho, para o avô, para a avó e para a mãe. E se, depois de Bandeira, todo poeta tem de ter sua Pasárgada, Terra tem a dele: Palmares, cidade onde nasceram ambos os autores.

Quanto a Juareiz, embora não se afaste por completo do objetivo proposto pelo livro, o fato é que ele “abre mais o leque”, como define. ”Reuni poemas de natureza mais diversa”, conta.

Tal opção resulta, para o leitor, em poemas mais maduros, o que, se levarmos em conta o tempo de estrada (publica desde os anos 70), é absolutamente natural e previsível. O próprio juareiz tem a consciência do fato: “O poeta já não está criado inteiro. Eu mesmo não me considero maduro ainda”, diz, ciente de que a poesia é um processo que se exercita ad infinitum. Nesse exercício, é verdade, dá para cometer muita coisa boa, como é o caso, aqui, de O mundo é pequeno e De universos, cidades e filhos, por exemplo.

No fim das contas, o melhor bordão para definir a relação entre os poetas Juareiz Correya e José Terra seja “tão perto, tão longe”. Apesar das óbvias intersecções (Juareiz é referência explícita para Terra, o que fica claro na apresentação do livro), ambos têm seus métodos diversos. “Aí não o caso de se dizer tal pai, tal filho. Mesmo que ele siga o mesmo caminho que eu sigo, que ele abraçe a poesia, não quer dizer que ele faz o que eu faço”, acredita Correya.

Aliás, durante muito tempo, um simplesmente desconhecia a produção de outro: “Me surpreendeu muito o fato de ele (José Terra) ser poeta. Os primeiros poemas dele me chegaram pelas mãos do irmão”, revela Juareiz, mostrando que, nesse caso, a poesia é mesmo um “laço de família”.

Poesia do mesmo sangue é o primeiro exemplar da coleção Casa da Poesia, da Panamérica Nordestal Editora, cuja direção é de Maria de Lourdes Hortas e do próprio Juareyz. A intenção é continuar publicando poetas pernambucanos e até de outros estados. “Eu já tenho nomes de São Paulo e do Ceará”, antecipa Correya.

Lançamento de Poesia do mesmo sangue, de José Terra e Juareiz Correya. Preço de capa: R$ 15.

(© JC Online)


“Poesia é a palavra mais humana da existência”

O que é Poesia?

Tudo existe para ser Poesia. Todos os poetas têm (ou devem ter) uma definição própria de Poesia. Logo, a Poesia, só no Recife, tem 1 milhão e 600 mil definições. Em Poesia, toda teoria deve ser contestada, como proclamava com a sua ocidental sabedoria o grande Maiakovski : Todo poema já é uma teoria! Eu penso que a Poesia é a palavra mais humana da existência.

Como poeta, considera-se um enviado, um escolhido, um marginal, um maldito?

Escrevo em alguns poemas inevitáveis reflexões sobre o ato de escrever poesia, o fato de ser poeta, tentando, é lógico, em primeiro lugar, responder a mim mesmo o que todos interrogam aos poetas. No poema “Ofício dos Ossos”, publicado no meu livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de 1982, e que é dedicado a Juareiz Correya, eu me esculhambo, começando o discurso assim : “O que tens, poeta, é bem pouco / ou muito ou nada ou o que seja serve / para tua mitologia, sem sentidos ...” e encerro deste modo : “pelos cacos da ruína que edificas / com essa nudez que surpreende os cães da platéia, / com essa nudez em que estrepas tesa / a confusão de ser.” E elogio o fazer poesia, o ser poeta, no mesmo livro, no poema “Dom Quixote de Cervantes” : “Diante do mundo, ferida tão aberta / me faço poeta e vou espaceando / aonde me esperam presidentes e Ônus sitiadas ...” Mais adiante : “Me faço poeta, astronauta / para jogar sobre os continentes meu sorriso de luta.” E estes são os últimos versos : “Mas eu sou poeta & poetando / enfrento as dores do mundo, os horrores de tudo / sobre nuvens de automóveis & guerreiros fumegantes / & máscaras absurdas & potentes estratégias de propaganda / & o último lançamento da indústria de consumo / na estrada em que eu cavalgo com a minha desesperança / & conduzo meu sonhestandarte.

Sobre essa romântica “marginalidade” que se conhece na arte, é preciso saber que toda Poesia é marginal mas nem todo poeta é. A Poesia é marginal sim : tem poucos leitores, nenhum valor comercial, industrial ou cultural... Em um país continental de mais de 150 milhões de habitantes, como é o Brasil, um poeta é editado nacionalmente com a tiragem de 3 mil exemplares do seu livro. Quem lê esse poeta ? Uma tiragem dessa não cabe nem na capital do Estado onde esse poeta vive ! Que papel cultural tem esse livro, esse poeta, essa poesia?

Hoje, com a democracia que estamos construindo e a liberalidade do nosso tempo - o Século 20 promoveu todas as conquistas e a emancipação da sociedade humana – não há mais lugar para escritor ou artista “maldito”.

Acredita que a Poesia tem uma finalidade, uma função? Ou parece-lhe uma atividade meramente lúdica?

Acredito na Poesia. E isto é tudo.

Um poema é aquilo que cada leitor lê ou aquilo que é?

Um poema é o poeta.

O que pensa da Poesia contemporânea pernambucana e brasileira?

Não concordo com uma boa parte dos poetas pernambucanos que afirma, com orgulho besta, que no Recife (ou Pernambuco) se escreve a melhor poesia do Brasil. Vejo nisso uma falta de informação, de respeito e de correspondência muito grande dos nossos poetas contemporâneos com a Poesia que se escreve hoje em outras cidades e Estados brasileiros. Na verdade, para sermos mais realistas, vivemos ainda ilhados em nossas cidades-guetos e Estados-feudos culturais. O Recife não conhece direito as cidades de Pernambuco e as cidades pernambucanas não conhecem o Recife... Se levarmos em conta que toda cidade é poética e tem poesia e tem poetas, todos nós ainda desconhecemos a Poesia Pernambucana e Nordestina e Brasileira. Lembro o sempre presente Hermilo : “Todos nós estamos escrevendo o conto, o romance, o teatro, a poesia do nosso tempo.” Como falar de uma Poesia Nordestina, no Recife, se desconhecemos o que se escreve hoje em João Pessoa e Maceió ? Como falar de uma Poesia Brasileira, se desconhecemos a obra poética de um Álvaro Alves de Faria, um Eduardo Alves da Costa, um Aristides Klafke, uma Renata Pallottini, uma Dalila Teles Veras de São Paulo?

Que futuro você vê para a Poesia numa sociedade cada vez mais informatizada e midiática?

Em um mundo cada vez mais imediatista e individualista, com pessoas que, egoisticamente, não acentuam ou melhoram, em nada, os valores humanos, toda arte se torna vital para a existência, e a Poesia, sempre bela e essencial em seu sentimento do mundo, se torna cada vez mais necessária. A Poesia, mesmo diante das tentativas estúpidas de se demonstrar a sua inutilidade, provocadas por números, automatismo, alienação, ciências exatas, explosões cibernéticas, emoções computadorizadas, parafernálias midiáticas, solidões humanas, desamor e desumanidade, a Poesia restaura e recoloca, nas mãos dos homens, de forma clara e luminosa, o sentido da sua própria humanidade. É do homem, pelo homem e para o homem que a Poesia existe. E o homem, que está construindo um novo século e o futuro milênio, ainda vive e viverá ! A Poesia escrita nos nossos dias é a prova disto.

(© Interpoética)


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