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Grande
show gratuito no Marco Zero celebra hoje o centenário do frevo. Gil,
Lenine, Maria Rita, Alceu, Spok e outros artistas animam a festa
JOSÉ
TELES
Hoje, data em que comemora o seu primeiro centenário, o frevo
terá um dia cheio. O ponto alto da programação do aniversário acontece
no Marco Zero, a partir de 20h, com o show de lançamento de 100 anos
de frevo É de tirar os sapatos, um álbum duplo, fruto da parceria da
Prefeitura do Recife com a gravadora carioca Biscoito Fino. Antes, no
Pátio de São Pedro, Antônio Nóbrega arregimenta músicos, os grandes
maestros, e foliões para um arrastão do frevo, que previsto para sair do
pátio às 17h, e sair no compasso do ritmo centenário, formando uma
“ondia” (como se dizia em 1907) até o Marco Zero.
Será uma festa de deixar muita gente sem sapatos mesmo, e fazer
tremer o velho Bairro do Recife, testemunha dos primeiros passos do
frevo. Para começar, a cidade jamais presenciou tamanha quantidade de
talentos da MPB juntos em só lugar. Da mais de duas dezenas de grandes
nomes que participam do álbum dedicado ao frevo, deixarão de comparecer
apenas (por motivo de agenda) Edu Lobo e Maria Bethânia (que estará na
abertura do Carnaval ao lado de Naná Vasconcelos e nações de maracatu,
na próxima sexta-feira). Claudionor Germano, Lenine, Alceu Valença,
Geraldo Azevedo, Silvério Pessoa, Antônio Nóbrega, Geraldo Maia, Nena
Queiroga, Rosana Simpson, Lígia Miranda, Vanessa Oliveira e a Spokfrevo
Orquestra são os pernambucanos que reverenciam o frevo. O ministro
Gilberto Gil, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Maria Rita, Vanessa da Mata,
Luiz Melodia, os que vêm de outros Estados para celebrar esta música que
nenhuma terra tem.
“O trabalho ficou lindo, mas fizemos o disco para ser tocado, vender.
Este projeto pode resultar numa coisa que não foi feita nestes cem anos,
levar o frevo para todo o Brasil”, diz o compositor caruaruense Carlos
Fernando, que assina a direção artística do álbum, com concepção
semelhante ao Asas da América, projeto inovador, idealizado por
ele nos anos 80. A diferença básica é que desta vez entra o
frevo-de-rua. Um dos CDs é formado por frevos-canção e de bloco, e o
outro por frevo instrumental, a cargo da Spokfrevo Orquestra. Este seria
o segundo disco da SpookFrevo, não fosse pelo fato de que as
orquestrações e arranjos serem divididos entre Spok e por outros
maestros – Duda, Edson Rodrigues e Clóvis Pereira. Este último é
responsável pela roupagem sinfônica no hino do Carnaval pernambucano, a
Marcha nº1 do Clube Vassourinhas, de Mathias da Rocha e Joana
Baptista.
O repertório dos discos passeia pelos clássicos do gênero. No frevo
instrumental estão nele peças obrigatórias – Último dia (Levino
Ferreira), Três da tarde (Lídio Macacão), Mordido (Alcides
leão), Cabelo de fogo (Nunes), e Duda no frevo (Senô).
O frevo cantado mescla marchas-de-bloco e frevo-canção, indo da
indefectível Madeira que cupim não rói (Capiba) à Energia
(Lula Queiroga), sem discriminar os frevos que vem de fora: Frevo
rasgado (Gilberto Gil e Bruno Ferreira), e Atrás do trio elétrico
(Caetano Veloso).
André Brasileiro, da comissão da prefeitura que organiza o Carnaval,
ressalta que a parceria com a Biscoito Fino, uma das mais requintadas
grifes da MPB, garante para o álbum 100 anos do frevo o que
outros projetos semelhantes não tiveram: distribuição nacional, das dez
mil cópias fabricadas.
FESTA – O frevo terá uma festa com tudo que tem direito. Às
20h um show pirotécnico anuncia o início da comemoração do aniversário,
seguido pelos tradicionais clarins de Momo, com a Spokfrevo Orquestra,
que, logo depois, bota o folião a fazer o passo com o frevo-de-rua
Três da tarde. O primeiro cantor da noite será o ministro Gilberto
Gil, que pretende contagiar todo mundo com Micróbio do frevo
(Genival Macedo).
Daí em diante, a pisada será esta: frevo-de-rua, canção e de bloco,
até fechar o repertório do álbum duplo. Mas a festa não pára. A
orquestra do maestro Spok continuará aquecendo o público para a entrada
do grupo A Troça, formado por 22 integrantes, da nova cena musical
pernambucana. Aí a frevança vai até quando os foliões tiverem fôlego e
energia para fazer o passo. E isto será só o começo de um ano inteiro
dedicado ao fogoso aniversariante, o frevo, em seu primeiro centenário.
(©
JC Online)
Frevo, centenário folião
Uma das
maiores expressões do povo pernambucano, o frevo comemora hoje seu
centenário, com o fôlego renovado
O frevo completa hoje 100 anos, contados a partir da publicação, pelo
Jornal Pequeno, da palavra “frevo”, no dia 9 de fevereiro de 1907
(constatação do historiador Evandro Rabello, em 1990). No princípio eram
as bandas militares e os capoeiras (maltas de desordeiros e desocupados
que acompanhavam ruidosamente os desfiles das bandas): os músicos destas
bandas criariam o frevo, os capoeiras formatariam o passo. Frevo é um
corruptela de ferver, ou “frever”, na pronúncia do povão. “Óia o frevo!”
O alerta era dado quando se aproximava algum clube pedestre, ao som de
uma marcha frenética. A turba atrás, exercitando as canelas na
dobradiça, no chã de barriguinha, no passo do urubu malandro.
“O frevo é uma instituição cultural porque abriga várias
manifestações, como uma dança, uma música instrumental e dois gêneros
cantados, que são o frevo-de-bloco e o frevo-canção”, resume Antônio
Carlos Nóbrega, que deu, no ano passado, o pontapé inicial nas
comemorações deste centenário, com os dois CDs, 9 de frevereiro.
Ele estará à frente do arrastão de frevo que sai hoje, às 17 horas, do
Pátio de São Pedro para o Marco Zero, com a presença dos grandes
maestros, músicos, artistas e do povo, claro. Ali acontecerá a abertura
oficial das festividades, com o lançamento do álbum duplo 100 anos de
frevo – É de perder o sapato e apresentações de quase todos os
intérpretes que participaram do disco. A prefeitura garante que o frevo
será festejado durante o ano de 2007, e bem que ele estava precisando de
festas.
O frevo chega aos 100 anos com sérios problemas. Foi um século de
altos e baixos, de vitórias e derrotas. O ritmo dominante no Carnaval de
rua, trocou a rua pelos clubes e está novamente nas ruas. Seu reinado
foi ameaçado várias vezes. Nos anos 60 preconizou-se que o pernambucano
trocaria o frevo pelo samba. Nos anos 80, foi a vez de se temer que a
música baiana predominasse no Carnaval de Pernambuco. Mais fortes foram
os poderes do frevo! Quase nada resta do fausto das escolas de samba dos
anos 60. Depois de uns poucos anos arrebanhando multidões para o
Carnaval de Boa Viagem, a axé-music perdeu o encanto e voltou para a
Bahia.
O frevo, no entanto, mesmo livrando-se dos rivais, não conseguiu
driblar outro obstáculo: o descaso que sofreu em sua própria terra. As
emissoras de rádio o varreram de suas programações. Só o tocam no
período carnavalesco, e mesmo assim os antigos sucessos da Rozenblit,
sem atentar para os novos valores que, apesar dos pesares, foram
surgindo. Pior, o descaso alcançou a memória de autores como Nelson
Ferreira, Irmãos Valença e Capiba. Nenhuma instituição oficial
preocupou-se em preservar os preciosos arquivos destes (e de outros)
compositores clássicos.
Conseguiram furar o cerco o caruaruense Carlos Fernando, com o
renovador projeto Asas da América, e o recifense J. Michiles. Os
dois fizeram frevos com melodias e temas modernos e chegaram ao Brasil
inteiro nas vozes de intérpretes como Elba Ramalho e Alceu Valença,
cantores que pertenciam a grandes gravadoras, e com acesso a rádio e TV.
Nos últimos quatro anos, graças, principalmente, ao trabalho
desenvolvido por Antônio Nóbrega, Silvério Pessoa, Spokfrevo Orquestra,
e a Orquestra Popular da Bomba do Heméterio (do maestro Forró), o frevo
voltou a despertar a atenção dos conterrâneos, cruzou divisas e
fronteiras. Chegou a outros Estados da Federação, a países da Europa e
Ásia. Neste ano em que completa um século, está voltando a ser visto não
apenas como uma manifestação cultural do povo pernambucano, mas também
como um produto comercial de grande potencial, insumo para incrementar o
turismo do Estado. Agora é torcer para que o frevo não volte a ser
esquecido depois da festa.
(©
JC Online)
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