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 O baú do Glauber

Paula Gaitan/Acervo Tempo Glauber

O cineasta Glauber Rocha, em foto do final dos anos 70
 

Cem mil documentos do acervo do cineasta baiano começam a ser recuperados e digitalizados em março

Material inclui roteiros inéditos como "Jango" e "A Conqysta do Parayzo", críticas, poemas e desenhos; projeto levará um ano

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

Uma sala de 24m2, com goteiras e sem refrigeração, guarda tudo o que Glauber Rocha escreveu. Persistente desde a criação do projeto Tempo Glauber, em 1983, a insalubridade tem data para acabar: em março de 2008, os 100 mil documentos deverão estar inventariados, recuperados e digitalizados -um terço poderá estar disponível em agosto.

Com uma equipe de oito pessoas coordenada pelo arquivista Paulo Amar, o trabalho começa no próximo mês no casarão de Botafogo (zona sul do Rio) que abriga o acervo. Contará com R$ 846 mil da Petrobras e poderá proteger para sempre a volumosa obra do mais importante cineasta brasileiro.

Embora tenha morrido com apenas 42 anos, em 1981, e feito 20 filmes -entre documentários, registros caseiros, curtas e longas-, Glauber ainda deixou um material vastíssimo inédito ou pouco conhecido.

"Ele escrevia em duas máquinas ao mesmo tempo. Se estava fazendo algo numa delas e surgia uma idéia sobre um assunto diferente, batia em outra. A não ser quando estava filmando, a vida dele era ler e escrever", diz dona Lúcia Rocha, 88, mãe do cineasta e grande responsável pela reunião de seu acervo.

Alguns dos roteiros estão concluídos e têm até storyboards (desenhos que indicam como as cenas serão filmadas) feitos por Glauber. Mas não se deve imaginar que eles estão prontos para ser rodados.

Antes de tudo, porque só Glauber filmava Glauber, dada a profusão de idéias muito peculiares que reunia num projeto. Por exemplo: "A Conquista do Eldorado", da segunda metade dos anos 70, começa mostrando os índios antes da chegada dos europeus, passa pelo México do século 19 e termina com um Simón Bolívar (não necessariamente o real) como presidente de Eldorado.

E Glauber aproveitava idéias, cenas e personagens em diferentes trabalhos. Em "A Conqysta do Parayzo" (1979) e "O Destino da Humanidade" (1981, o último projeto, que deixou ainda sem diálogos), há nomes e trechos que remetem a "Jango" (1976), filme em que ele sonhava ter Jane Fonda e Robert Mitchum.

O fascínio do cineasta pela história do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964, o levou a escrever também uma peça (encenada no Rio em 1996) e um romance -sem falar que o roteiro tem dois grossos volumes.

Na visão de Glauber, Jango é um personagem trágico, pois teria tido a chance de comandar uma revolução socialista

e recuado. "Este país ainda é muito criança para enfrentar uma revolução sangrenta", diz o ex-presidente no roteiro.

O filme acabaria com Jango devorado pelo povo, numa cena de explícita antropofagia.

"Chamamos o [crítico de cinema] Ruy Gardnier para nos ajudar, porque é preciso uma curadoria para organizar esse material", diz Paloma Rocha, filha do diretor. "Aurora" e "América Nuestra" (embrião de "Terra em Transe") também são roteiros não-filmados.

Outro crítico, Ismail Xavier, está desempenhando essa função na coleção Glauberiana, da Cosacnaify. No segundo semestre, será publicado pela primeira vez o diário que Glauber manteve em Nova York em 1971. E, em 2008, o romance "Adamastor".

Crítico feroz

As gavetas do Tempo Glauber ainda guardam a sua produção jornalística. Ela começou em 1951, aos 12, quando uma carta sua dirigida ao Homem da Hora da Criança (personagem vivido por um ator de nome Adroaldo) foi publicada no jornal "A Tarde", de Salvador.

Glauber chegou a ser repórter policial, mas foi, principalmente, crítico de cinema a partir de 1956. Alguns títulos dão uma idéia de seu estilo: "Neo-realismo - Inspiração falida"; "Elia Kazan - Falso cineasta"; "Decadência de Fritz Lang".

Na sala desumanamente quente, ainda estão cadernos de poemas, 400 desenhos de Glauber -inclusive a cenografia para uma adaptação da ópera "O Guarani" que seria feita no Teatro Municipal do Rio com os índios nus de fato- e 3.000 fotografias.

Depois de uma reforma de seis meses -que restringirá as consultas ao Tempo Glauber-, a sala ganhará espaço para abrigar também as cópias dos filmes do cineasta e DVDs. Em agosto, mais um volta à cena recuperado: "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro".

(© Folha de S. Paulo)


"Glauber não morreu", diz mãe do cineasta baiano

DA SUCURSAL DO RIO

Depois da morte de seu filho, dona Lúcia Rocha ia aos festivais em que ele era homenageado e quebrava o protocolo das cerimônias: pedia às pessoas que lhe enviassem tudo o que tivessem sobre Glauber. Essas e outras remessas, junto do que guardou ao longo da vida e a um trabalho contínuo de coleta de material, resultaram nos 100 mil documentos do Tempo Glauber. A recuperação e digitalização do acervo coroa mais de 20 anos de luta.  

FOLHA - A senhora está realizando um sonho?

LÚCIA ROCHA - Acho que sim. Deixei tudo na vida depois que ele morreu para fazer isso [o Tempo Glauber]. Sentia uma dor muito grande. Eu tinha perdido uma filha de 13 anos com leucemia. Mais seis anos e perdi [a atriz] Anecy [Rocha], que caiu no poço de um elevador. E, um ano após a morte de meu marido, recebo meu filho em coma. Dois dias depois, ele morreu. Perdi o sentido de viver. Resolvi falar com Deus: "Olha, moço. Na Bíblia diz que meu nome está escrito na palma da sua mão. Por que tanta tristeza, então?". Quando levantei, já era outra pessoa. Tinha lido que o artista não morre. Então, Glauber não morreu.

FOLHA - Nesses 24 anos de Tempo, a senhora pensou em desistir?

ROCHA - Várias vezes, mas o sonho é a única coisa que não podem tirar de um ser humano. Não se deve desistir de algo que se começou, porque, quando se está perto de desistir, é que vem o êxito. Aconteceu isso aqui.

FOLHA - Por que a senhora sempre guardou tanta coisa dele?

ROCHA - Até hoje não sei. A última foi o prato e a colher com que ele tomou sopa, ao meu lado, antes da última viagem para a Europa. E ainda tenho um pedacinho do umbigo dele guardado. Agora, corro atrás de uma mesa dele que eu sei que existe.

FOLHA - A senhora se arrepende de algo?

ROCHA - Eu era rica e fiquei pobre. Vendi tudo para que Glauber fizesse "Barravento" [1961]. Vendi a casa da rua das Palmeiras [em Botafogo] e vivo de aluguel até hoje. Não tenho nenhum arrependimento.

(© Folha de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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