JOSÉ TELES
Além de Claudionor Germano, um outro Claudionor
fez história no frevo. O potiguar Claudionor Batista de Oliveira,
mais conhecido como Dozinho, dos mais atuantes autores de
frevo-canção entre meados dos anos 50 e início dos 60.
No repertório
de sucessos compostos por Dozinho para o Carnaval pernambucano estão
Vão me levando, Doido também apanha, Fantasia de capim, Tempero de
pobre, Naquela base. O Carnaval deste ano em Natal é dedicado a
Dozinho e aos 100 anos do frevo. Uma homenagem que a prefeitura da
capital potiguar fez começar na virada do ano, quando todas as
orquestras contratadas para animar o Réveillon natalense tocaram
composições do seu compositor popular mais famoso.
Foi lançado
também o CD Carnaval que o povo gosta, com gravações antigas
remasterizadas e novas versões de suas músicas, entre as quais, uma
de Vão me levando, com Alceu Valença acompanhado por uma sinfônica.
Dozinho concedeu esta entrevista, no Recife, em Boa Viagem, onde
mantém um apartamento num flat, “para não se desligar dos amigos e
da cidade”.
JORNAL DO COMMERCIO – Dozinho, o que houve com o
frevo-canção?
DOZINHO – Ficou esquecido porque ficaram poucos daquela
turma que cantava, que fazia o frevo-canção. Além disso, todo ano, o
pessoal só pega disco que já foi gravado, aquele com músicas de
Capiba, é sempre a mesma coisa. O que acontece é que como disco novo
não toca, não é divulgado. Como não há divulgação o povo não
conhece, e não compra.
JC – A Rozenblit lançou um disco inteiro com músicas suas,
que nunca foi relançado, o LP Primeiro ensaio.
DOZINHO – É um disco com apresentação de Luís da Câmara
Cascudo, de 1962, mas com músicas já gravadas. Comecei a gravar em
1952, no Rio de Janeiro, sem ser Carnaval. A primeira foi Não há
sinceridade nisso, que foi um grande sucesso nacional, tocou muito
em Portugal, foi nome de peça de teatro no Rio. Foi o maior sucesso
que fiz em toda minha carreira. Eu era sargento da Força Aérea
Brasileira e o comandante me incentivou a ir, porque eu já fazia
algumas músicas. Fui para o Rio tentar gravar alguma coisa. E
consegui. Em dois meses, gravei com Os cariocas, com Heleninha Costa
e com Carminha Mascarenhas.
JC – Mas qual o segredo para chegar tão rápido junto desse
pessoal todo?
DOZINHO – Eu era representante da Sbacem (uma
associação de compositores), o presidente era Benedito Lacerda e o
assistente dele, Carvalhinho, compositor famoso de Quem sabe,
sabe, O periquito da madame. Disse a Benedito que era compositor e
ele mandou que o Carvalhinho me levasse na Radio Nacional, o celeiro
dos grandes nomes do rádio. Carvalhinho me apresentou a César de
Alencar, que gravou Não há sinceridade nisso, por achar engraçada, e
com um refrãozinho, que era respondido pelo auditório.
JC – Mas pouco tempo depois você estava no Recife, por que?
DOZINHO – Voltei para Natal. Fiz uma certa amizade com
o pessoal da Rádio Jornal do Commercio, e vim para o Recife. Quem me
gravou primeiro aqui foi Os Vocalistas Tupi. Depois gravei com
Claudionor Germano, Expedito Baracho, com quase todos cantores
daquela época.
JC - Vamos falar agora dos seus sucessos.
DOZINHO – Foram vários, Vou me levando, Fantasia de
capim. Muitos outros, Pimenta nela, Naquela base, uma seqüência de
músicas, na época, bastante tocadas no Carnaval de pernambuco. No
meio do sucesso fui para o Rio, entrei para o Senado Federal, onde
fiquei até me aposentar.
JC – Você faturou muito em direitos autorais, ou a coisa foi
sempre complicada como agora?
DOZINHO – Não. Quando você fazia um grande sucesso
ganhava dinheiro. Tem muita gente que reclama de direitos, mas
reclama sem razão. Se você coloca uma música na parada, está
vendendo e tocando muito, se não receber, tudo bem. Mas tem gente
que quer viver de direitos autorais sem fazer sucesso. Quando fiz
Não há sinceridade nisso, eu recebi, não podia me queixar. Já
Vão me levando, nunca me deu nada, porque gravei numa etiqueta
pequena a Harpa, de Genival Macedo, e tinha que dar parceria pra
ele. Tenho umas 150 músicas gravadas, e nenhuma de parceria. Não sei
fazer música com ninguém. Eu tenho um disco que tem na capa Dozinho
e J.Silveira. Quando comecei no Rio, em todas as músicas tive que
dar parceria. Dei parceria a Carvalhinho, a Manezinho Araújo, que
também tinha muita influência no meio artístico, era muito querido,
então dei a parceria.
JC – E jabá, havia naquela época?
DOZINHO – Antigamente você caitituava, tentava fazer
sua tocar no rádio. Tinha apresentador que até fazia questão que
você fosse lá para conhecer a música. Então se criou este negócio de
jabá. Pagar pra tocar. Pago por quem? As grandes editoras, grandes
gravadoras. Daí a dificuldade de fazer sucesso. Em Fortaleza tem
vários programas de forró na TV. Se você gravar um CD, a banda pode
ser boa como for, mas para se apresentar paga um cachê de 600 reais.
Você hoje paga pra cantar.
JC – Deste jeito, então, o frevo-canção nunca mais fará
sucesso?
DOZINHO – O último 78 rotações que a Rozenblit lançou,
em 1964, foi com com uma música minha, Quero mais, com Mêves
Gama. Aquela época boa sumiu, porém tenho certeza de que o
frevo-canção, a marchinha vão voltar. Talvez não com a mesma força
de antigamente, mas acho que voltarão.