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 O encanto dos velhos carnavais

JC Online

 

Exposição com abertura hoje, no Museu da Cidade do Recife, exalta o frevo através do virtuosismo de passistas anônimos dos anos 40 e 50

OLÍVIA MINDÊLO

Neste ano, mais do que em qualquer outro, há uma exposição sobre Carnaval em cada esquina. No Recife, em Olinda ou no interior, o centenário do frevo é exaltado por artistas, fotógrafos, livrarias, shoppings, museus, galerias, prefeituras, etc. Nessa enxurrada, interessante mesmo é ter contato com a perfomance de passistas anônimos, brincando no século passado. A exposição que entra em cartaz, hoje, no Museu da Cidade do Recife é um deleite para quem tem curiosidade no assunto.

São cerca de 40 fotografias pinçadas do acervo do museu, que possui em torno de três mil imagens do Carnaval pernambucano. A pesquisa iconográfica foi feita pela artista plástica e funcionária da casa Bárbara Collier. Ela selecionou fotos em preto-e-branco clicadas no Recife, entre o período de 1944 e 1958, numa época em que praticamente só o povão, com seus imensos guarda-chuvas pretos a tira colo, curtia a folia de rua – enquanto a classe média se enclausurava nos clubes. E o frevo não era para qualquer um.

Na mostra, o visitante vai poder conferir o trabalho dos fotógrafos pernambucanos Alexandre Berzin, Romildo Carvalho, Severino Cardoso, entre outros. “Eles eram funcionários da Prefeitura do Recife, pagos para fazerem imagens dos eventos públicos da cidade”, conta Bárbara. Nesse sentido, muitas das fotografias ficaram arquivadas na prefeitura e foram parar no Museu da Cidade, administrado pelo próprio poder público municipal até hoje.

As fotografias estão apresentadas na exposição em diferentes tamanhos: 30 cm x 30cm, 30 cm x 44 cm, e 40 cm x 50 cm. A mostra contempla ainda letras de frevos antigos, selecionadas a partir de pesquisa fonográfica feita por Felipe Cabral de Melo.

O frevo no acervo do Museu da Cidade do Recife, de hoje a 4/3, no Forte das Cinco Pontas, s/nº, Bairro de São José. Visitação: terça a sexta, das 9h às 17h, sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h. Fone: 3232-2812/2833 (ramal 24)

(© JC Online)


“O povo não conhece e não compra”

JOSÉ TELES

Além de Claudionor Germano, um outro Claudionor fez história no frevo. O potiguar Claudionor Batista de Oliveira, mais conhecido como Dozinho, dos mais atuantes autores de frevo-canção entre meados dos anos 50 e início dos 60.

No repertório de sucessos compostos por Dozinho para o Carnaval pernambucano estão Vão me levando, Doido também apanha, Fantasia de capim, Tempero de pobre, Naquela base. O Carnaval deste ano em Natal é dedicado a Dozinho e aos 100 anos do frevo. Uma homenagem que a prefeitura da capital potiguar fez começar na virada do ano, quando todas as orquestras contratadas para animar o Réveillon natalense tocaram composições do seu compositor popular mais famoso.

Foi lançado também o CD Carnaval que o povo gosta, com gravações antigas remasterizadas e novas versões de suas músicas, entre as quais, uma de Vão me levando, com Alceu Valença acompanhado por uma sinfônica. Dozinho concedeu esta entrevista, no Recife, em Boa Viagem, onde mantém um apartamento num flat, “para não se desligar dos amigos e da cidade”.

JORNAL DO COMMERCIO – Dozinho, o que houve com o frevo-canção?

DOZINHO – Ficou esquecido porque ficaram poucos daquela turma que cantava, que fazia o frevo-canção. Além disso, todo ano, o pessoal só pega disco que já foi gravado, aquele com músicas de Capiba, é sempre a mesma coisa. O que acontece é que como disco novo não toca, não é divulgado. Como não há divulgação o povo não conhece, e não compra.

JC – A Rozenblit lançou um disco inteiro com músicas suas, que nunca foi relançado, o LP Primeiro ensaio.

DOZINHO – É um disco com apresentação de Luís da Câmara Cascudo, de 1962, mas com músicas já gravadas. Comecei a gravar em 1952, no Rio de Janeiro, sem ser Carnaval. A primeira foi Não há sinceridade nisso, que foi um grande sucesso nacional, tocou muito em Portugal, foi nome de peça de teatro no Rio. Foi o maior sucesso que fiz em toda minha carreira. Eu era sargento da Força Aérea Brasileira e o comandante me incentivou a ir, porque eu já fazia algumas músicas. Fui para o Rio tentar gravar alguma coisa. E consegui. Em dois meses, gravei com Os cariocas, com Heleninha Costa e com Carminha Mascarenhas.

JC – Mas qual o segredo para chegar tão rápido junto desse pessoal todo?

DOZINHO – Eu era representante da Sbacem (uma associação de compositores), o presidente era Benedito Lacerda e o assistente dele, Carvalhinho, compositor famoso de Quem sabe, sabe, O periquito da madame. Disse a Benedito que era compositor e ele mandou que o Carvalhinho me levasse na Radio Nacional, o celeiro dos grandes nomes do rádio. Carvalhinho me apresentou a César de Alencar, que gravou Não há sinceridade nisso, por achar engraçada, e com um refrãozinho, que era respondido pelo auditório.

JC – Mas pouco tempo depois você estava no Recife, por que?

DOZINHO – Voltei para Natal. Fiz uma certa amizade com o pessoal da Rádio Jornal do Commercio, e vim para o Recife. Quem me gravou primeiro aqui foi Os Vocalistas Tupi. Depois gravei com Claudionor Germano, Expedito Baracho, com quase todos cantores daquela época.

JC - Vamos falar agora dos seus sucessos.

DOZINHO – Foram vários, Vou me levando, Fantasia de capim. Muitos outros, Pimenta nela, Naquela base, uma seqüência de músicas, na época, bastante tocadas no Carnaval de pernambuco. No meio do sucesso fui para o Rio, entrei para o Senado Federal, onde fiquei até me aposentar.

JC – Você faturou muito em direitos autorais, ou a coisa foi sempre complicada como agora?

DOZINHO – Não. Quando você fazia um grande sucesso ganhava dinheiro. Tem muita gente que reclama de direitos, mas reclama sem razão. Se você coloca uma música na parada, está vendendo e tocando muito, se não receber, tudo bem. Mas tem gente que quer viver de direitos autorais sem fazer sucesso. Quando fiz Não há sinceridade nisso, eu recebi, não podia me queixar. Já Vão me levando, nunca me deu nada, porque gravei numa etiqueta pequena a Harpa, de Genival Macedo, e tinha que dar parceria pra ele. Tenho umas 150 músicas gravadas, e nenhuma de parceria. Não sei fazer música com ninguém. Eu tenho um disco que tem na capa Dozinho e J.Silveira. Quando comecei no Rio, em todas as músicas tive que dar parceria. Dei parceria a Carvalhinho, a Manezinho Araújo, que também tinha muita influência no meio artístico, era muito querido, então dei a parceria.

JC – E jabá, havia naquela época?

DOZINHO – Antigamente você caitituava, tentava fazer sua tocar no rádio. Tinha apresentador que até fazia questão que você fosse lá para conhecer a música. Então se criou este negócio de jabá. Pagar pra tocar. Pago por quem? As grandes editoras, grandes gravadoras. Daí a dificuldade de fazer sucesso. Em Fortaleza tem vários programas de forró na TV. Se você gravar um CD, a banda pode ser boa como for, mas para se apresentar paga um cachê de 600 reais. Você hoje paga pra cantar.

JC – Deste jeito, então, o frevo-canção nunca mais fará sucesso?

DOZINHO – O último 78 rotações que a Rozenblit lançou, em 1964, foi com com uma música minha, Quero mais, com Mêves Gama. Aquela época boa sumiu, porém tenho certeza de que o frevo-canção, a marchinha vão voltar. Talvez não com a mesma força de antigamente, mas acho que voltarão.

(© JC Online)

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