EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL
"Menininha foi a primeira mãe-de-santo pop." O vaticínio do
ministro/cantor/compositor Gilberto Gil, em depoimento à jornalista
Regina Echeverria, sintetiza a principal imagem que resta após a leitura
de "Mãe Menininha do Gantois", recém-lançada biografia da ialorixá,
assinada por Echeverria e a pesquisadora Cida Nóbrega.
O livro, no entanto, vai além da imagem pública e midiática da
ilustre filha de Oxum, sempre rodeada de políticos do naipe do hoje
senador Antonio Carlos Magalhães, ou medalhões da MPB como Gil, Caetano
Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa. E ainda os compositores Vinicius de
Moraes e Dorival Caymmi, que a imortalizaram nas canções "Tatamirô" e
"Oração para Mãe Menininha".
A biografia recupera as origens históricas e pessoais, retomando os
caminhos que transformaram a mulher Maria Escolástica da Conceição
Nazareth (1894-1986) num mito.
Echeverria ressalta que o livro revela como Mãe Menininha ganhava sua
vida antes do sacerdócio, costurando ou vendendo doces e vísceras em
tabuleiros. Explica por que o terreiro se chamava Gantois, sobrenome de
um belga, traficante de escravos e antigo proprietário da área onde fica
o barracão da mãe-de-santo. E sugere como a resistência pacífica dos
negros, e, em especial, a capacidade de fazer alianças da ialorixá
biografada, durante os anos de perseguição policial ao candomblé,
inspiraram e se incorporaram à política nacional.
"O candomblé segurou a barra do negro no Brasil, ajudando-o a manter
sua cultura, por meio do culto aos seus ancestrais. E ele até hoje
deixou marcas, como a aliança, o conchavo e a negociação, na política
brasileira", observa a jornalista
Chamamento
Mais de 60 depoimentos, fora reproduções de entrevistas de periódicos
diversos, servem à reconstrução da trajetória de Mãe Menininha,
descendente de escravos, que nasceu em 1894, em Salvador, já fadada,
contam suas biógrafas, a se tornar ialorixá do Gantois.
Depois que sua tia-avó, a ialorixá Pulquéria, morreu, Maria
Escolástica tentou escapar do destino. Casou-se, teve duas filhas, morou
longe do terreiro, mas lá voltou, aos 28 anos, por chamamento dos
próprios orixás: "Primeiro foi Oxóssi, depois Xangô, Oxu, Obaluaê. Eles
que me deram este cargo de felicidade, que estou ocupando até o dia que
Deus quiser, e Oxalá", conta ela em entrevista reproduzida no livro.
A biografia também traz passagens bem-humoradas, como a exceção que a
mãe-de-santo abria para Vinicius fumar e beber no terreiro. Ou o
depoimento do jornalista e produtor Nelson Motta que, "apavorado, meio
paranóico", foi a Salvador pedir proteção à ialorixá. No caminho do
aeroporto para a cidade, "num fusca dirigido insanamente pelo
motorista", escapou de um acidente.
"À tarde, fui visitar Mãe Menininha e contei-lhe, dramaticamente, a
história. Ela riu muito e me disse: "Que felicidade, não é meu filho?
Aconteceu tudo e não aconteceu nada!" E continuou a rir."
Echeverria também traz à tona uma insólita e divertida faceta da
mãe-de-santo: seu fascínio pela televisão. Fã de Chacrinha, a quem ela
atribuía um "erê" -estado posterior ao transe do orixá, caracterizado
por humor alegre e infantil, como explica o glossário-, Mãe Menininha
deixava o aparelho sempre ligado.
"Ela via coisas na TV que associava ao jogo de búzios, às consultas.
Uma vez chegou a dizer que o Mogli [personagem do desenho infantil da
Disney] era Oxóssi", conta a biógrafa.
Por fim, o livro relembra os anos de doença e revela um personagem
que teria ficado "à sombra" na trajetória da ialorixá. A filha-de-santo
Alabá, criada desde os quatro anos de idade no terreiro do Gantois. "Ela
era o anjo da guarda que fazia tudo para Menininha, que faleceu poucos
dias após a morte dela, pois não via motivo para continuar vivendo.
Havia perdido seu grande apoio."
MÃE MENININHA DO GANTOIS, UMA BIOGRAFIA
Autoras: Regina Echeverria e Cida Nóbrega
Editora: Corrupio e Ediouro
Quanto: R$ 59 (320 págs.)