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 Sertão acolhe o amor de verdade

Alexandre Belém/JC Imagem

O diretor Guel Arraes no set de filmagem de Romance
 

Diretor pernambucano Guel Arraes roda no município de Cabaceiras, na Paraíba, fase final de seu novo longa-metragem, Romance

MARCOS TOLEDO
Enviado Especial

CABACEIRAS (PB) – Isolda em pleno Sertão nordestino apanhando um flor de um veio d’água vertido da mangueira de um caminhão pipa. Este é o bastidor de uma das cenas que estão sendo filmadas até hoje neste município, onde já foram rodados filmes como O auto da Compadecida e Cinema, aspirinas e urubus, entre vários outros. Dessa vez, o diretor Guel Arraes (Compadecida, Caramuru, Lisbela e o prisioneiro) prepara seu novo longa-metragem, Romance. A reportagem do Jornal do Commercio foi lá conferir.

O novo longa de Guel Arraes é uma livre adaptação da obra clássica Tristão & Isolda para os dias atuais. Mas é também um filme dentro do filme, que faz o uso do recurso da metalinguagem. “Com esse projeto, a gente ganhou credibilidade pelo conteúdo intelectual”, garante a produtora Paula Lavigne, que já conta com nove obras do gênero realizadas por sua empresa, a Natasha Filmes.

No roteiro, escrito a quatro mãos por Guel Arraes e pelo também cineasta Jorge Furtado, Pedro (personagem do ator Wagner Moura) propõe para a TV uma adaptação de Tristão & Isolda ambientada no Sertão do Nordeste do Brasil. A protagonista acaba sendo Ana (Letícia Sabatella), estrela de cinema com quem Pedro encenou o mesmo texto no teatro, em passado remoto, quando eram apenas dois jovens aspirantes a atores, e por quem ele ainda é apaixonado.

Tristão & Isolda é a história de amor arquetípica até o romantismo”, explica Guel Arraes. “É a base das histórias de amor pós-século 19. As novelas... a gente deve muito a Tristão & Isolda”, completa o diretor cuja obra cinematográfica convive com uma convergência de mídias e linguagens – embora, neste caso, ele esteja rodando em película de 35 mm e para o cinema. “Todos os meus filmes têm um pouco essas metalinguagens. É uma constante. Fala um pouco dos dois trabalhos (cinema e TV)”, reconhece.

Wagner Moura, ator de nove entre dez filmes do cinema nacional junto com Lázaro Ramos (exagero, mas é mais ou menos por aí) estrela Romance enquanto aguarda o lançamento de outros trabalhos dos quais faz parte – os longas Ó paí, ó, de Monique Gardenberg, que deve estrear em 30 de março, Saneamento básico, de Jorge Furtado, previsto para julho, e Tropas de elite, de José Padilha, também para este ano, além da nova novela das oito da TV Globo, Paraíso tropical. Ele conta que foi convidado por Guel em junho de 2006, quando fez a primeira leitura do texto, mas que, em função de sua agenda, o projeto foi adiado.

O que, no roteiro, atraiu Wagner, a princípio, foi o foco da discussão. “É sobre o amor romântico, fadado à tragédia, que significa sofrer. Mas, no filme, descobre-se que esse amor pode ser mais calmo, mais plácido”, conta.

O ator tem uma ligação afetiva com o Sertão nordestino, onde se passa cerca de 20% da trama. Nascido em Salvador, seus pais são de Rodelas, no Sertão baiano. Ele mesmo (o público idem) já perdeu as contas dos filmes que fez na região (Deus é brasileiro, O caminho das nuvens, As três Marias e Abril despedaçado foram alguns). “Para mim, tem um significado maior no meu imaginário. Minhas raízes estão aqui”, fala.

Apenas nascido em Diamantina (MG), mas igualmente criado na capital da Bahia, Vladimir Brichta encabeça, ao lado da atriz Andréa Beltrão, outro segmento da trama, que faz o contraponto bem-humorado ao drama de Ana e Pedro.

Andréa vive a produtora Fernanda, que quer o papel de Tristão para seu namorado, Orlando (Vladimir). Este finge ser o nordestino José e é aprovado para o personagem. Ana acaba se apaixonando pelo falso José, que pretende alimentar a farsa (a paixão junto) até o fim das filmagens.

Para Vladimir, seu personagem mistura sinceridade com ambição. “Para alimentá-la (a farsa), por vezes mente, por vezes fala a verdade. E convence”, diz o ator, que cortou o cabelo bem curto após terminadas as filmagens no Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo) para poder caracterizar o Orlando/José.

(© JC Online)


Filmagens na cidade paraibana foi um pedido do diretor

A última segunda-feira no set de Romance tinha tudo para ser só mais um dia tranqüilo de muito trabalho puxado (em cinema, a cada segundo você ouve o tilintar das moedas de centavos de dólar). No fim da tarde, porém, o set foi invadido por uma comitiva do governador Cássio Cunha Lima (PSDB) e por um batalhão de repórteres da Paraíba. O político foi conferir de perto o resultado do apoio que seu Estado tem concedido ao projeto.

Rigoroso, Guel Arraes, que não costuma falar com pessoas estranhas ao set, interrompeu as filmagens no Lajedo do Pai Mateus, impressionante formação natural de pedras da região, para conceder entrevista coletiva acompanhado do governador e do elenco.

O diretor explicou que se trata de uma história romântica entre um ator e uma atriz. Este ator, segundo ele, resolve filmar uma adaptação de Tristão & Isolda no Nordeste, sobretudo por defender a tese (citação ao escritor Ariano Suassuna) da relação do Sertão com a Idade Média européia. “É um pouco a retomada de O auto da Compadecida”, confessa o cineasta, que acredita que, por meio dos trabalhos mais recentes na região (O auto, Lisbela e o prisioneiro) ele se “renordestinou”. Para justificar, o início da carreira, marcado por telenovelas, séries como Armação ilimitada e humorísticos como TV pirata.

Até este domingo, quando acabam as filmagens após 11 dias em Cabaceiras, Romance terá custado R$ 5,7 milhões. Levará cinco meses para ficar pronto e a distribuição está a cargo da Buena Vista. É uma boa estrutura para garantir um produto de boa qualidade.

Ao todo, a produção emprega cerca de 70 pessoas diretamente no local, sendo 40 vindas do Rio de Janeiro e de São Paulo, e 30 da região. Até o figurino e parte do cenário foram desenvolvidos com matéria-prima local.

Guel brinca dizendo que vai acabar sendo “expatriado” de Pernambuco por estar rodando tantos filmes na Paraíba. Na verdade, trata-se do modo como os produtores são recebidos na Paraíba, independentemente da comparação com outro lugar, e de como a região desenvolve a cada dia sua vocação para locação cinematográfica natural (confira matéria à direita).

“Foi uma encomenda de Guel”, afirma Paula Lavigne. “E é um lugar de fácil acesso”, continua a produtora, descrevendo a facilidade como chegou ao local. “Tem pessoal e tem estrutura para trabalhar com a gente”, elogia.

“A equipe daqui é um arraso”, completa Guel. “As pessoas achavam algo distante, que Sertão era coisa triste. Aqui é o maior ‘comedião’ (sic). É um Sertão com esperança, alegre, vigoroso”, avalia o diretor dando uma pista, sem falsa modéstia, de que filmes como os que ele e outros cineastas têm feito têm ajudado a mudar o conceito da região para o resto do País de uma forma positiva.

Romance tem produção musical de Betão Aguiar e Caetano Veloso. Uma das canções é de Arnaldo Antunes e a música local ainda está sendo pesquisada. O elenco conta ainda com a participação de Marco Nanini, Bruno Garcia e Edmilson de Barros. Agora, que o longa-metragem está prestes a entrar em fase de finalização, a Natasha Filmes já se prepara para, novamente em conjunto com Guel Arraes, fazer a adaptação de O bem-amado para o cinema. (M.T.)

(© JC Online)


Cabaceiras vai se autodenominar a “Roliúde Nordestina”

Depois de tantos filmes rodados na região, Cabaceiras se prepara para se autodenominar a “Roliúde Nordestina”. Localizado a cerca de 250 quilômetros do Recife, o município paraibano (onde praticamente não há sinal de telefonia móvel e ainda possui vários trechos sem energia elétrica) vai ganhar, em maio, um letreiro – iluminado, com letras em tamanho de 3 m x 5 m – num morro na entrada da cidade, bem ao estilo da meca do cinema californiano.

O projeto, do crítico de cinema e professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Wills Leal, no entanto, não se resume à alusão estrangeira. Orçado em R$ 400 mil, o plano já conta com R$ 70 mil, que permitirá ainda (na verdade, trata-se do principal) a criação de um centro cultural com memorial das obras filmadas na cidade em um casarão do século 19 que está sendo restaurado. O objetivo é fazer do centro um lugar de estudo, preservação, exibição e fomento de realizações audiovisuais.

No município já foram rodados filmes como Cinema, aspirinas e urubus, Viva São João!, Madame Satã, São Jerônimo e O auto da Compadecida, entre muitos outros. (M.T.)

(© JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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