A entrevista que vão ler durou somente 17 minutos. Mas
isto não foi conseguido com facilidade, nem foi
construído em 17 minutos. O compositor, cantor, músico,
agitador cultural, Ministro Gilberto Gil, pelo cerco e
pelo assédio da imprensa, pela corte que lhe segue, pela
roda de pessoas excitadas com a sua presença, pela
quantidade de fotos e imagens que a todo minuto lhe
tiram, pelos interesses econômicos, financeiros,
culturais que o envolvem, que o desejam a todo instante,
o senhor Gilberto Gil é um pop star. Com a diferença, em
relação ao mundo pop, que o star é um homem que pensa,
que teoriza, é um pop culto, e que está no poder
político. Todos lhe sorriem. Todos lhe são simpáticos.
Todos querem tocá-lo na aura, se possível com volta de
algo mais concreto que a luz mística.
Essa entrevista ocorreu na noite do sábado 10.2.2007.
Era o último dia do Ministro da Cultura no Recife, onde
chegara para a Feira Música Brasil. Ainda que houvesse
acertado a entrevista dois dias antes, e só o deus Mu
Dança sabe que forças intestinas arranquei para isso,
por várias vezes pensei desistir. Não fosse a minha
mulher, eu teria desistido da entrevista. Fugido,
corrido. Aos meus desabafos, enquanto caminhava ao longo
de um préstito real, sufocado, quando dizia, "Eu vou
desistir", a senhora Francesca era mais prática, como
sói acontecer com todas as mulheres de indivíduos
desastrados: "Você fez o mais difícil. Não pode mais
desistir". E por isso eu segui, com o mesmo sentimento
dos que seguem a caminho da primeira viagem de avião.
Talvez na porta, um segundo antes do vôo, eu pudesse
desistir, pensava. E por isso eu seguia e fui.
Entendam a razão. Quando o Ministro e Compositor
desceu do palco onde respondera a perguntas de um
auditório, ao me acercar dele, recebi cotoveladas,
discretos empurrões, golpes elegantes no ventre,
passagens bloqueadas com ares de acaso. Todos cometidos
pela elite cultural e artística. As pessoas educadas,
finas, se agridem com etiqueta. Impossível não lembrar
de O Anjo Exterminador. Com a diferença que todos
podiam sair e não queriam isto. Desejavam todos estar em
torno, bem próximos, e o inimigo era quem pensava igual
e à sua maneira. Todos queriam estar perto, conversar,
receber um olhar, um incentivo, sair na foto com o
Ministro, que vem a ser a mesma pessoa do compositor
mundialmente famoso. Senti-me sob constrangimento por
ser um, mais um dos que lhe sorriem, que procuram ser
simpáticos, úteis, camaradas. Tão íntimos somos, não é?
Em resumo, o escritor que lhes fala era mais um dos que
o adulavam. O sorriso deles, o ar prestimoso,
obsequioso, era o meu. Eu os censurava e os repetia. Que
imagem, meus amigos. Isto não foi nem era o meu espelho
inesquecível.
"Eu vou desistir, eu vou...". A simpática assessora
Nanan Catalão me concedeu: "Você tem um máximo de 20
minutos". Certo. Mas onde? Iremos para algum lugar
sossegado, uma reserva de paz nessa agitação? - A
realidade tem a perversão de não ser conforme o nosso
desejo. Eu não sabia que o mundo pop está acostumado a
conversar sob luzes e câmeras e público ao redor. Para
reforço do eu vou desistir, o compositor sentou-se em um
banquinho, bem à vista de todos, à entrada do teatro. Um
círculo de circo se abriu em torno. Ficamos em uma
arena. "Aqui mesmo", Nanan apontou. Passei então a
sorrir. Tiravam fotos do ministro, e se não houver uma
segura edição, haverá um sujeito barbudo, perdido, a
pensar em uma delas, "Virei papagaio de pirata". Aquele
papagaio que aparece no ombro do pirata, bem sabem, no
rótulo do Ron Montilla. Pero fotos não revelam
pensamentos, podem apenas revelar caras assustadas, a
sorrir. Menos mal. Ao trabalho. Já que chegaste até
aqui...
Entre as minhas habilidades de repórter a pior delas
é trabalhar com o gravador. Bueno. Eu estava com uma só
fita cassete, cassete, isso mesmo, de uma entrevista com
clérigos sobre a crise da Igreja em Pernambuco. Não
havia outro remédio, eu deveria gravar por cima. Certo.
Mas o que fazer com um roteiro prévio, com uma pesquisa
feita durante todo o dia, em que alinhavei perguntas,
intervenções, ditos espirituosos, que seriam ditos em
sala fechada, eu e Gilberto Gil, quem sabe durante a
noite inteira? "A sua vez é agora", eu ouvi de Nanan.
Era agora ou nunca, e eu não conseguia mais ler as
perguntas anotadas em razão da miopia. Perguntas
inúteis, naquela hora e circunstância. Então vamos, eu
me disse, com uma resolução dos náufragos, se é que os
náufragos têm alguma resolução. Notei então que a fita
no gravador estava no fim - pelo menos à minha vista
pareceu. E procurei, enquanto o Senhor Ministro
esperava, achar o miserável e misterioso caminho por
onde a fita seria retirada. Olhei para a minha mulher, e
a sua cumplicidade me fez achar o caminho. Descobri,
cambiei o lado da fita. Muito bem, apertei a tecla
rubra. Gravando. Pergunto então ao compositor Gilberto
Gil como foi o seu exílio em Londres, quando expulso
pela ditadura. Ele me responde com um solo maravilhoso,
a cantar em inglês. Que momento, que privilégio, eu me
disse, e a fita parou de rolar, porque atingira o fim.
Perdi a música. Um amigo então, o DJ e músico Tales,
repôs a fita no lugar. E me avisou, gentil: "Está
gravando".
Não toquei mais no gravador, e por isso pude ver,
ouvir e prestar atenção à pessoa do artista. Gilberto
Gil, quando fala, compõe. Ele compõe enquanto fala, ele
é músico à procura da letra, e isso fica mais claro
quando reitera palavras, expressões, na busca. Refrão e
degrau para o movimento seguinte. Certo, dirão, isso é
comum a toda e qualquer pessoa. Sim, mas observem esse
trecho da entrevista: "Pedir pra fazer outro sucesso,
depois outro sucesso, depois outro sucesso, o mesmo
sucesso outra vez", para concluir, "eu não quero". Isso
escrito não permite ouvir as modulações e melodia que
ele imprime na voz. O ritmo, enfim. Quando ele se
referiu a Paulo Francis, houve um trecho em que deu uma
entonação ao adjetivo "inaceitáveis", que procurei dar
uma pálida idéia com um ponto de exclamação seguido de
reticências. Ainda assim, se torna inaudível, na
escrita. Direi então que o adjetivo "inaceitáveis" veio
como uma ênfase, um trecho de um coco cantado por
Jackson do Pandeiro. Percebem? Nele houve uma divisão
silábica, que além da interpretação já é música.
INACEI-táveis!... Diferente no entanto de Jackson, que
era "esse jogo não é um a um, se o meu time perder eu
mato um, é encarnado-preto-e-branco, é
encarnado-e-preto", para quem as coisas, os fenômenos se
definiam por oposição, o que é típico da formação de um
homem do povo, de modo diferente o compositor Gilberto
Gil compõe. Tem idas e vindas a sua fala, sem jamais
chegar a uma definição que não admita nuances. Para ele
não existe A ou B, para ele, sempre, as coisas são A e B
ao mesmo tempo. Por vezes pode chegar à metafísica, mas
é metafísica agradável, que guarda uma dialética, se nos
expressamos à sua maneira. Ele poderá dizer, por
exemplo, que as coisas não existentes existem, e
completar, para maior espanto, que o não existente é o
que existe. Formulação ina-cei-tável em Jackson do
Pandeiro.
Essa maneira, dizendo melhor, esse conteúdo de
expressão, porque nele a forma é sempre o conteúdo,
leva-o a evitar os substantivos mais simples, como se
estes fossem primitivos, toscos, poderia ser pensado.
Mas não. Isso é tático, quando não estratégico. Ou
ambos, para escrever à sua maneira. Vocês irão ver nesta
entrevista como ele se refere a uma parcela do público
brasileiro que admirava o Tropicalismo. Em nenhum
momento ele dirá que eram jovens militantes da luta
armada, do foco. Ou melhor, dirá isso de outra maneira,
por um método de aproximação. E no entanto, saibam, isso
não é descoberta desses dias. Eu mesmo conheci jovens
que aliavam sua prática de combate à ditadura a palavras
do tropicalismo. Contrários ao mundo dos olhos claros,
de Carolina e Januária na janela, do Chico Buarque
daqueles anos, naquele tempo. E eram típicos, digamos
assim, esses bravos militantes. Daí, também, que nessa
busca Gilberto Gil crie neologismos, em mais de uma
oportunidade. Ele está compondo, sempre. Como vocês
verão, agora.
Desta vez é à vera. Gravando
(Vozes, murmúrios, de outra entrevista, palavras ao
fim, de Gil: "Manda um beijão pra ele....".)
- Em 1969, você e Caetano foram expulsos do Brasil
pela ditadura militar. Como é que você vê hoje, quando
deu a volta por cima, primeiro com sua música, depois
politicamente, porque é um ministro do governo. Que
lembranças lhe dão o golpe de 64?
Gil - Das lembranças que a gente tem normais, do
passado. Com as boas e más lembranças do passado. Com a
recordação dos bons momentos e dos maus momentos, do que
os bons momentos fizeram de mal à minha vida, do que os
maus momentos fizeram de bem à minha vida ... (Risos)
Tudo isso.. (E faz um gesto amplo, circular, com os
braços.)
- Depois, quando saiu do Brasil, você compôs "Aquele
abraço".
Gil - Foi... Eu fiz já aqui no Brasil ainda, saindo.
Na semana que eu estava indo embora, eu gravei. Na
véspera de eu ir embora, eu gravei.
- "Alô, alô Realengo"... Paulo Francis, de quem a
gente nunca pode dizer que era um amor de pessoa, ele
chegou uma vez no Pasquim ...
Gil - Não, até que um amor de pessoa a gente pode
dizer. A gente pode dizer que talvez ele não fosse uma
pessoa do amor. (Risos) Que ele era amável, em tudo. Mas
renitente com esse exercício irrestrito da
amorabilidade. Ele tinha coisas das quais ele não queria
mesmo gostar e não queria que aquelas coisas fossem
aceitáveis, que eram pra ele inaceitáveis!...
- Ele chegou uma vez a te elogiar num artigo no
Pasquim, quando escreveu mais ou menos assim, "o Gil
poderia estar mais do que rico depois de 'Aquele
abraço', mas ele não é homem de repetir a fórmula que
deu sucesso".
Gil - Eu nunca fiz música pra, pra...
- Tocar no rádio?
Gil - Não, pra estabelecer uma linha de montagem, ou
estabelecer uma reprodução do mesmo modelo, pra explorar
os filões de mercado, coisa desse tipo nunca foi
preocupação minha. Eu gosto de fazer sucesso, eu gosto
de vender disco também, tudo, mas não, por exemplo, eu
gosto de fazer sucesso, mas não gosto de fazer os mesmos
sucessos duas vezes, por exemplo. (Risos) Eu não gosto
muito. (Risos.) Pedir pra fazer outro sucesso, depois
outro sucesso, depois outro sucesso, o mesmo sucesso
outra vez, eu não quero. (Risos)
- Você esteve aqui no Recife em 67, passou dois
meses, travou contato com o pessoal do Teatro Popular do
Nordeste...
Gil - Com Leda Alves, Hermilo Borba Filho...
- Como foi essa sua passagem pelo Recife?
Gil - Ah, um mês eu fiquei aqui, aí eu conheci Teca
Calazans, eu conheci Geraldinho Azevedo, eu conheci
Marcelo do Quinteto Violado, conheci Toinho do Quinteto
Violado, os meninos, conheci tanta gente, conheci Carlos
Fernando, conheci tanta gente...
- Visitou Caruaru?
Gil - Fui a Caruaru. Ainda hoje eu fui a Caruaru com
Fernando Lyra, que me recebeu em Caruaru, daquela vez,
há 40 anos, enfim. Naquela época Carlos Fernando me
levou pra Zona da Mata, me levou pra Nazaré da Mata, me
levou pra os lugares todos, eu andei por tudo isso aqui.
E ali o centro era o Teatro Popular do Nordeste, o TPN,
era, toda a noite eu me apresentava lá, durante pelo
menos duas semanas eu fiquei lá cantando, toda noite, e
ali iam os músicos, e ali apareceu o percussionista, o
nosso querido Naná Vasconcelos, que era baterista da
banda da Aeronáutica naquela época.
- E você gravou Pipoca Moderna, não foi isso?
Gil - Gravei... Eu na verdade eu não gravei. Pipoca
Moderna eu pus a gravação, abri meu disco Expresso 2222
com a gravação da Banda de Pífanos de Caruaru, que eu
tinha feito em um gravadorzinho como este seu (aponta
para o pré-histórico gravador da Sony que estava
comigo), com Carlos Fernando, na época em que nós fomos
a Caruaru. Há 40 anos. E eu pus essa música na abertura
do disco Expresso 2222. Mais tarde Caetano fez uma letra
para o Pipoca Moderna, e aí ele próprio gravou, e outros
artistas gravaram Pipoca Moderna, como canção, cantada.
Mas a primeira publicação dela foi feita através do
disco Expresso 2222 com uma gravação doméstica da Banda
de Pífanos de Caruaru.
- Você tem uma coisa interessante, que é como você
une o popular à vanguarda. Como é que é isso?
Gil - Em todo o mundo a gente faz isso. Cada um tem o
seu modo de fazer. O Chico faz isso, o Caetano faz isso,
os Beatles faziam isso na Inglaterra, Bob Dylan fez isso
nos Estados Unidos. Muita gente faz isso, é uma prática
que se tornou comum, os artistas não querem ficar
isolados, em um segmento só, confinados a um determinado
só único mundo musical, música é um trânsito permanente
entre... Todos nós tivemos música clássica em nossa
infância, ouvimos Bach, ouvimos Beethoven, ouvimos isso,
ouvimos aquilo, somos influenciados por esses contextos,
e ao mesmo tempo temos a música da rua, a música de
nossas cidades, a música de nossas feiras, de todos os
lugares. Enfim, queremos misturar tudo isso, queremos
fazer com que esses espaços dialoguem, uns com os
outros, não é? Então eu tenho o meu modo de fazer isso.
Às vezes, antigamente, por exemplo, naquela época aqui,
eu peguei duas cirandas, utilizei excertos dessas
cirandas, não é?, e complementei com canções que eu fiz.
É o caso do Pé da Roseira, é o caso da Barca Grande,
é... (Canta)
"O pé da roseira murchou
e as flores caíram no chão.
Quando ela chorava, eu dizia,
tá certo, Maria,
você tem razão".
Isso é uma ciranda. (Canta)
"Eu vim aqui pra te ver,
como te vi, vou-me embora.
Trabalho na barca grande,
só chego fora de hora"....
Também é uma ciranda. E no entanto essas cirandas
viraram trechos iniciais de canções mais longas que eu
fiz. Há muitas maneiras..
- Villa-Lobos fazia isso.
Gil - Fazia isso também. Bartók fazia isso, Bach, não
é?
- Você é um compositor que sem alarde, ou como se
dizia naquela época, "sem dar bandeira", você é um
compositor muito político. Pelo que eu lembro da
juventude da época, na ditadura militar, eu lembro que o
movimento tropicalista era relacionado a determinada
linha de combate clandestino. Você faz essa relação? Por
exemplo, tinha ala da esquerda que era do lado de Chico
Buarque, tinha ala da esquerda que era do Tropicalismo,
você vê isso?
Gil - Acho que sim. Acho que era. As pessoas
associavam sua política, seu compromisso... (Tosse) a
determinados campos, na própria política e no campo
estético também. Então o Tropicalismo estava ligado às
correntes mais ... mais audaciosas, mais, que predicavam
uma ruptura maior, que predicavam uma ruptura de um
convencionalismo estético, artístico, e etc., e também
político, não é? Nós gostávamos das correntes políticas
mais autônomas, mais abertas, menos subordinadas a
linhas programáticas clássicas.
- Quando você diz que pegava uma linha política mais
aberta, menos amarrada a programas tradicionais, eu
lembro que a sua trajetória de diálogo com a esquerda
nem sempre foi ausente de conflitos.
Gil - Foi tangencial sempre. (Riso) Eu nunca
mergulhei em nenhuma corporação, em nenhuma unidade da
política das esquerdas, porque eu sempre fui uma coisa
que o Partido Comunista naquela época costumava
classificar como "linha auxiliar". (Riso) Eu ajudava,
mas eu não era propriamente um ...
- Era um aliado?
Gil - Eu era um aliado. Eu tinha esse trabalho
tangencial, onde nos pontos onde havia tangenciamento
entre meu processo e o processo deles, a gente caminhava
junto. Nos outros, eu ia solto.
- Você sabe o que ocorreu com Geraldo Vandré?
Gil - Não tenho tido notícias recentes dele...
Notícias até tenho, não tenho tido contatos recentes com
ele. Os últimos contatos que eu tive com Vandré já vão
alguns anos atrás. Ele se envolveu num processo de mais
reclusão, de mais afastamento...
- Esquizofrenia, parece.
Gil: - É o que dizem dele. Ele teve o conjunto das
questões dele, teve esse aspecto também de uma
problematização psiquiátrica também. De formas que ele
descontinuou um pouco o trabalho, propriamente. Vandré
não deu continuidade ao trabalho dele.
- Você chegou a ser parceiro dele.
Gil - Muito, em algumas canções. Umas quatro ou cinco
fizemos.
- Como estão hoje as suas relações com Caetano
Veloso?
Gil - Isso é fácil. As mesmas de sempre. (Riso)
- As relações de amizade são ótimas.
Gil - São ótimas. As relações de convívio, nem
tanto... por causa dos descaminhos, os nossos caminhos
cruzam pouco hoje, porque eu estou com o Ministério, eu
viajo muito, estou muito fora... (Tosse) do Brasil, fora
do Rio, e tal. Então são muito poucas as oportunidades
de sentar, conversar, conviver. Outro dia, a última vez
em que nós estivemos juntos foi numa situação muito
auspiciosa, que era um show dele em Porto Alegre, eu
tinha ido a Porto Alegre para uma atividade ministerial,
e havia um show de Caetano naquela noite em Porto
Alegre. E eu fui, e depois do show, além de ter tido
esse momento extraordinário de poder assistir a um show
dele, ainda saímos juntos pra noite porto-alegrense
depois.
- Fumaram o cachimbo da paz.
Gil - Fumamos ... Não, não, o cachimbo da paz já
está. A paz nunca deixou de existir entre nós. Mas nós
pudemos conviver durante algumas horas numa forma como a
gente não vinha podendo conviver. - Agora, a pergunta
que eu venho guardando desde o começo: se você não fosse
um homem negro, que artista você seria?
Gil - Eu não faço a menor idéia. (Risos.) Eu não faço
a menor idéia. Eu não teria essa sestrosidade rítmica
que eu tenho, isso é uma coisa que eminentemente muita
gente tem, outras raças, outros contextos étnicos
propiciam, mas a vivência negra, da cultura negra... e
quando eu digo raça, digo nesse sentido, de mais no
sentido da cultura, de ser negro culturalmente negro me
dá uma relação com a música, com o ritmo, com o mundo
religioso, com tudo enfim que eu não teria não sendo
negro, e portanto não seria o artista que eu sou. Seria
outro. Outra pessoa. (Riso e sorriso.)
- E se você não fosse músico, o que você seria?
Gil - Arquiteto, talvez.
- Nada a ver com administração de empresas.
Gil - Não, porque eu me formei em administração de
empresas, mas na verdade o campo de aplicação do meu
talento mesmo, o campo de interesse da minha
expressividade interior, etc. , se não na música se
daria mais proximamente de uma coisa como Arquitetura.
- Seria ligado à arte de qualquer maneira.
Gil - É isso o que eu quero dizer. Mais do que
administração. Ainda que eu goste de administração,
tanto que eu fiz administração, e tanto que eu tentei
aproveitar o que aprendi na formação, no campo prático,
criei minha própria empresa, e coisas desse tipo. Me
interessei por esse lado do empresarial, eu fui sem
dúvida alguma muito estimulado pela formação da
universidade.
- Eu fui no seu site oficial, e pude ver que você
nasceu em Salvador, mas teve uma infância rural.
Gil - Nasci em Salvador circunstancialmente, em uma
família que já habitava, que já morava no sertão.
Ituaçu. Minha mãe veio pro parto em Salvador, porque era
de família de lá, meu pai também, minha mãe ainda viva,
está com 93 anos agora, meu pai já é falecido, mas eram
ambos de Salvador, tinham ido pro sertão e casaram e
foram pro sertão. Na hora em que nasceu o primeiro
filho, voltaram para Salvador, porque era lá que as
famílias deles estavam. Então era mais seguro, mais
aconchegante... (Faz um gesto a indicar que está na hora
de encerrar)
- Só uma última pergunta. Não existe um Gil. Existem
Gis. Há muitas imagens físicas, fases, variações na sua
vida...
Gil - Isso é comum a todos os seres humanos. Não
existem indivíduos. Existem divíduos, como diz Gilles
Deleuze. (Ri.) Ninguém é um. Todos nós somos muitos,
somos múltiplos.
- Muito obrigado, Ministro.