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 Versos feitos de silêncio

FOTO CLÁUDIO LIMA-5/10/2004

Francisco Carvalho
 

Aos 79 anos, o poeta cearense Francisco Carvalho é homenageado pelo dramaturgo Ricardo Guilherme, que faz leituras dramatizadas dos poemas do autor. Em entrevista ao O POVO, Carvalho fala de poesia, timidez, infância e finitude

Camila Vieira
da Redação

Em busca da palavra essencial, o poeta recolhe-se à solidão. "Um bom poema é silêncio", dizia o filósofo e escritor francês Paul Valéry. No encontro com o verso tácito, o poeta cearense Francisco Carvalho, 79, acredita que escrever poesia é estar disposto a conviver com o silêncio e reverberá-lo na escrita. Testemunho das limitações humanas e "forma de compromisso com todas as seduções da vida", o poema deve absorver o intangível. "Todo poema é estrada de incerteza / caminho que se alonga ou se bifurca", verseja no livro Memórias do Espantalho (2004). Antologia dos melhores poemas de Francisco Carvalho, a obra é o mote da leitura dramática proposta pelo ator e dramaturgo Ricardo Guilherme, que celebra o poeta cearense, no programa Ouvir Dizer, do Centro Cultural Banco do Nordeste.

A homenagem induziu uma entrevista com Francisco Carvalho, que já contabiliza 50 anos de poesia. Inquilino da timidez, o poeta preferiu ser sabatinado à distância. As perguntas deveriam ser enviadas por escrito, sem a possibilidade da tradicional entrevista feita frente a frente. Nem tanto por causa do acanhamento, mas principalmente pelo rigor e compromisso com o discurso, que precisa ser podado dos excessos para encontrar as palavras exatas. Se "o poema não deve dizer demais", a prosa tampouco precisa tagarelar.

Com a ajuda da esposa do poeta, Dora Carvalho, 75, as 10 perguntas prévias foram entregues nas mãos de Francisco Carvalho, na tarde chuvosa da última sexta-feira. Os olhos curiosos e o leve sorriso no rosto do poeta resultaram na disposição para responder o questionário. No dia seguinte, um novo breve encontro. Em envelope lacrado, as respostas chegaram datilografadas em papel azul piscina. Sobre as letras impressas pela máquina de escrever, as últimas correções feitas com caneta. No rodapé de cada página, a rubrica do poeta.

Ao finalizar a entrevista, Francisco Carvalho formula para si a 11ª pergunta: "Quais as suas expectativas para o futuro?" E responde de prontidão: "Estou numa faixa etária em que as pessoas costumam morrer. Não se trata de uma questão de pessimismo. Velho otimista não passa de uma fraude. Aos 80 anos, não existem razões biológicas nem ontológicas para uma pessoa posar de otimista. Nessa idade estamos à mercê do imponderável. Um minúsculo trombo nas artérias erosadas, e tudo desmorona. E um velho não tem o direito de ignorar quando o bonde chega ao fim da linha".

O POVO - Em vários poemas seus, há vestígios de sua infância em Russas e das impressões causadas pela cidade ao menino Francisco Carvalho. Que recordações desse período foram importantes para o seu fazer poético?
Francisco Carvalho - Parte de minha infância vivi na cidade de Russas, em casa de parentes meus. É natural que algumas recordações desse período tenham influenciado alguns dos meus primeiros poemas, infelizmente de má qualidade. São reminiscências banais de um menino de imaginação precária, numa cidade pobre de acontecimentos e expectativas econômicas e culturais. Era um tempo em que as beatas acreditavam piamente que o papa Pio XII conversava diretamente com Deus.

OP - Como começou seu interesse por poesia? Quando o senhor descobriu-se poeta?
Carvalho - Comecei a me interessar por poesia quando fazia o curso primário no Ateneu São Bernardo, de Russas. Um dos meus livros de leitura era uma antologia de escritores brasileiros e portugueses, constituída de textos em prosa e de poemas. Minha predileção pelos poetas, com o passar do tempo, veio a se transformar numa opção definitiva.

OP - Quando passou a morar em Fortaleza, como se deu o encontro com a geração de poetas e prosadores que aqui residiam? Que lembranças o senhor nutre dessa época?
Carvalho - Em 1946, aos 19 anos, passei a residir definitivamente em Fortaleza. Era então uma cidade de costumes nitidamente provincianos e de limitados atrativos arquitetônicos. Durante algum tempo, desprovido de base intelectual, acompanhei de longe os eventos literários da capital, protagonizados por poetas e prosadores ligados ao Grupo Clã. A esse tempo trabalhava no comércio, de modo que os assuntos literários me chegavam através dos jornais da época. Minhas lembranças desse tempo são inconsistentes, até porque só mais tarde vim a dialogar com alguns intelectuais integrantes do Grupo.

OP - Em entrevista ao O POVO, o senhor afirmou que "sempre foi inquilino da timidez". É difícil conviver nessa morada ou o senhor já se acostumou?
Carvalho - A timidez me acompanhou desde menino. Algo semelhante a uma verruga que já nascemos com ela. Talvez pelo fato de, com a morte de meu pai, ter vivido algum tempo em casa de parentes, inclusive em Fortaleza. A timidez não leva a lugar nenhum, mas tudo indica que isso está escrito no DNA de cada pessoa. É um estigma para o resto da vida.

OP - De que maneira sua postura reservada e taciturna de "ser um poeta obscuro por conta própria" influencia no seu ofício de poeta?
Carvalho - Não sou daqueles que vão à praça pública declamar os seus poemas. Nenhuma censura de minha parte aos que procedem desse modo, muito pelo contrário. As galinhas também cantam para anunciar a postura de seus ovos. Parece que tudo se reduz a uma questão de temperamento. Não acredito que esse modo de ser venha a prejudicar o desempenho dos poetas. Carlos Drummond de Andrade, conhecido por sua timidez e ojeriza à publicidade, não causou dano algum à sua grandeza por causa disso.

OP - Com mais de cinqüenta anos dedicados ao fazer poético e 30 livros publicados, sua obra é pouco conhecida tanto aqui como fora do Ceará, embora o senhor já tenha conquistado o Prêmio Nestlé de Literatura e o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A que o senhor atribui o fato de não ter conquistado ainda o devido reconhecimento?
Carvalho - Penso que essa falta de reconhecimento, antes de ser um fato de ordem geográfica, é um fenômeno que atinge a maioria dos poetas alojados nas cavernas (também chamadas de apartamentos) da periferia nacional. Todo mundo sabe os nomes da reduzida elite de poetas cortejados pelos grandes jornais do Rio, São Paulo e adjacências. Jamais deram oportunidade a poetas e escritores nordestinos. Preferem abrir as portas aos escritores estrangeiros, numa demonstração explícita de rebeldia à identidade nacional, segundo avaliação de Fábio Lucas, para quem testemunhamos "alguns exemplos de colonialismo na área das Letras, nesta era de degeneração da cultura e de anarquia de valores" (Expressões da Identidade Brasileira. São Paulo, 2002). Para não me alongar, diria que a falta de reconhecimento a prosadores e poetas do Nordeste deve-se a fatores de ordem geográfica e à mentalidade subdesenvolvida dos latinos, que se deslumbram facilmente com a retórica colonizadora dos alienígenas.

OP - Segundo o senhor, "o poema não deve dizer demais, é preferível que diga de menos". Para chegar ao poema ideal, como o senhor lida com esse confronto constante com as palavras?
Carvalho - Para chegar ao ponto ideal, o poeta precisa ler muitos livros, inclusive de teoria política. Mas as teorias não bastam, uma vez que mudam aos caprichos das bússolas do vento. Precisa ser fiel a si mesmo e às suas raízes, às suas convicções, ao seu destino. Conhecer razoavelmente a língua em que fala e escreve, reciclar seus projetos poéticos com a convicção de que não existe palavra insubstituível no contexto do poema. O episódio citado por Manuel Bandeira (Itinerário de Pasárgada) sobre Castro Alves, é emblemático. O poeta dos escravos escreveu este verso num soneto de amor: "No seio da morena há tanta amora". Posteriormente alterou o verso para: "No seio da morena há tanta amora". Bandeira elogiou a mudança por entender que o poeta chegara à conclusão de que só havia duas amoras no seio da morena.

OP - O senhor não costuma dar entrevistas pessoalmente. É uma conseqüência de sua preocupação com as dubiedades do discurso?
Carvalho - Entrevistas pessoais são desaconselháveis para tímidos ou ansiosos. A preocupação pela busca da palavra exata e com a coordenação das idéias me deixa estressado. Quando isso acontece, acabo por dizer o que não devia. É uma situação vexatória, pois o entrevistador fica responsável pelo sentido e a lógica do texto. De modo geral, ambos acabam sendo prejudicados.

OP - O senhor chegou a afirmar que "é preciso reconhecer que a poesia é hoje um teatro sem platéia". O que falta à poesia atual para que ela possa novamente atrair o público leitor?
Carvalho - Confirmo o que disse em outra oportunidade: "É preciso reconhecer que a poesia atualmente é um teatro sem platéia". O que falta para a poesia atrair o público? A resposta é simples. Falta desenvolvimento econômico para gerar novos empregos e acabar de uma vez com a fome no mundo. Como fazer isso? Talvez os bancos, que cobram taxas até pela respiração dos clientes e enriquecem ostensivamente a cada trimestre, tenham a receita certa para solucionar o problema. Mas os bancos são as esfinges dos tempos modernos. Deveriam ostentar nas fachadas, o famoso enigma lendário: "Ou tu me decifras ou eu te devoro".

OP - Na próxima terça, o dramaturgo Ricardo Guilherme fará leituras dramáticas de seus poemas publicados em Memórias do Espantalho, no auditório do Centro Cultural Banco do Nordeste. É possível que boa parte do público tenha o primeiro contato com sua obra a partir dessa iniciativa. Como o senhor se sente ao saber disso?
Carvalho - Essa dramatização de poemas meus pelo grande ator Ricardo Guilherme é a realização de um sonho por mim acalentado há muito tempo. Acredito que esse espetáculo despertará a atenção do público para o meu trabalho e, obviamente, para o desempenho do Ricardo Guilherme, possuidor de inegáveis recursos cênicos. Sinto-me naturalmente feliz por esta oportunidade que me é proporcionada pelo Banco do Nordeste. Com tantos livros publicados, me considero um autor praticamente inédito. A grande maioria dos livros que ofereço a intelectuais do Ceará e de outros Estados, fica sem resposta. Alguns o fazem em bilhetes absolutamente ilegíveis, até mesmo aos olhos das lupas. É nesse planeta em que vivem os poetas do Nordeste sem esgotos e água potável, no qual ainda se morre de fome, apesar da metafórica cesta básica.


SERVIÇO
Ouvir Dizer - O ator e dramaturgo Ricardo Guilherme faz leitura dramatizada de poemas do livro Memórias do Espantalho, do poeta cearense Francisco Carvalho. Hoje, às 16h, no cine-teatro do Centro Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro). Grátis. Info.: 3464.3108.


PERFIL
Com mais de 50 anos dedicados ao fazer poético, o cearense Francisco Carvalho nasceu em Russas, no dia 11 de junho de 1927. Entre seus principais livros de poesia, estão Centauros Urbanos (2003), Memórias do Espantalho - Poemas Escolhidos (2004) e Corvos de Alumínio (2007). Venceu a 1ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira com o livro Quadrante Solar (1982) e obteve o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, com Girassóis de Barro (1997). Há 49 anos, é casado com Dora Carvalho, 75, e tem três filhos, oito netos e um bisneto.


TRECHOS

Deus Sombrio
A solidão, meu Deus, é uma cadela
que me persegue com furor maligno.
Esta tarde é uma outra face. Não aquela
tarde de aldeia em que nem sol nem sino
celebram meu sonho. Hora e estrela
são achas que se acendem no menino.
Quando o arcanjo alça vôo, uma janela
se abre para as terras do divino.
Esta tarde é outra tarde. E em mim se deita
seu perfil de afogado, a gotejar.
De vento e espuma e eternidade é feita.
Esta é uma ponte. Eu sou o rio
que carrega espantalhos para o mar
e adoça espigas para um deus sombrio.


Vida
A vida, esse réptil
de espinhaço veloz
que arrasta o céu
a vértebra indomada.
A vida, essa potranca
de estirpe grega
que anda a galope
nos prados da treva.
Essa loba parida
que amamenta as crias
com o leito ácido
de suas orgias.
(...)
Essa vertente obscura
que jorra do corpo
e o leva de volta
para junto dos mortos.

(© O Povo, 26.02.2007)


Palavras poéticas

DÉLIO ROCHA
Repórter

Poesias de Francisco Carvalho recebem leitura dramatizada do ator Ricardo Guilherme

A dramatização reúne poesias publicadas no livro “Memórias do Espantalho - Poemas Escolhidos”, antologia do poeta cearense Francisco Carvalho. A obra reúne poemas retirados de 19 dos seus 29 livros publicados -seleta das 19 obras que o autor publicou de 1971 para cá. “Memórias do Espantalho” (2004), publicado pela Universidade Federal do Ceará, tem mais 500 páginas com o melhor da poesia de Francisco Carvalho. Infelizmente, não é tarefa fácil ter esta obra na estante de casa. Como a tiragem foi pequena, o livro já está esgotado, fazendo com que o evento de hoje ganhe maior importância.

É uma boa oportunidade para se ouvir Ricardo Guilherme dando expressão à palavra de Francisco Carvalho, um dos grandes poetas brasileiros da atualidade. “Eu escolhi as poesias mais telúricas, as que contém uma história, as que têm mais dramaturgia na palavra. São poesias ligadas à terra, ao sertão, que são mais fáceis de ser compreendidas, de ser vocacionadas”, explica Ricardo Guilherme.

Segundo o ator cearense, os poemas de Francisco Carvalho são permeados de escalas, de fala e fatos humanos. “As poesias dele têm uma vocação muito palatável para a fala. Algumas são mais difíceis, sofisticadas, com muitas citações. Mas preferi escolher as que são de mais fácil entendimento para quem está ouvindo”.

Na hora de fazer a seleção, o ator Ricardo Guilherme também evitou as poesias maiores. “No livro, elas podem ser relidas, existe esta possibilidade. Mas aqui é diferente: quem estiver ouvindo, precisa compreender logo, da primeira vez. Não existe outra oportunidade. Por isso fiz a opção por poesias que se encaixam melhor na fala. Aliás, esta é a norma para qualquer poeta que participa deste projeto”, informa o autor.

A leitura que Ricardo Guilherme faz está inserida no programa “Ouvir Dizer”, do Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza, que resgata, por meio de leituras dramatizadas mensais, textos de autores da literatura brasileira - com ênfase para os poetas, cronistas, contistas e ensaístas nordestinos. Posteriormente, estas leituras compõem um acervo sonoro, no formato CD, a ser disponibilizado gratuitamente ao público pela biblioteca “Inspiração Nordestina”, do CCBNB.

A expressão ‘ouvir dizer’, conforme Ricardo Guilherme, aciona no íntimo de nossa memória mais ancestral a figura de um narrador (contador de histórias, menestrel, declamador) que, nas aldeias, nos terreiros ou nas calçadas, reúne em sua volta ouvintes atentos à singular experiência de imaginar personas, situações e cenários, compartilhando, assim, da fabulação de alguém que dramatiza e comenta ações, seja por meio do improviso ou da leitura em voz alta”.

Na avaliação do ator cearense, o programa incentiva o aprofundamento de possíveis e posteriores leituras, já que propicia aos ouvintes-espectadores a espetacularidade polissêmica que a expressão verbal enseja. “Subjaz, portanto, não apenas uma vocação didático-pedagógica de estímulo à interação das pessoas com os livros, mas também um intuito de, pela expressividade da palavra falada, deflagrar na platéia processos de reflexão e fruição estética, levando-se em conta a diversidade cultural, o pluralismo ideológico e o espectro de tendências que caracterizam a produção literária, notadamente aquela cuja abordagem prioriza o imaginário do homem nordestino”, comenta.

O poeta

Francisco Carvalho, cearense de Russas, nascido em 1927, é mais um daqueles talentos literários que florescem totalmente recolhidos ao silêncio. Embora tenha publicado quase 30 livros de poesia (estreou em 1955, com “Cristal da Memória”), poucos conhecem a sua obra. Nem mesmo sua escolha como vencedor do Prêmio Nestlê de Literatura, em 1982, com o livro “Quadrante Solar”, foi capaz de tirar da obscuridade o excelente trabalho do poeta. Membro da Academia Cearense de Letras, Francisco Carvalho também conquistou o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, com o livro “Girassóis de Barro”, em 1997.

O maior destaque recente na mídia cultural talvez tenha sido dado em 2004, quando o cantor e compositor Raimundo Fagner, conterrâneo de Francisco Carvalho, musicou cinco poemas dele (“O Bicho Homem”, “Esse Touro Vale Ouro”, “Cesta Básica”, “Reino” e “Minueto da Porta”) e incluiu as canções, algumas inclusive em ritmo de samba e rap, no CD “Donos do Brasil”. E o destaque aumentou com o lançamento, no mesmo ano, do livro “Memórias do Espantalho - Poemas Escolhidos”, antologia da obra do poeta cearense.

BUROCRACIA
(Francisco Carvalho)

Eles te advertem
que a aurora foi abolida
por tempo indeterminado.
Eles te comunicam que o
trigo e o vento
vão ser exportados para
o arco-íris.
Eles te aconselham a esquecer
o corpo ensangüentado dos acontecimentos.
Eles te ensinam que
o orvalho não cai
sobre aqueles que semeiam
dúvidas.
Eles te mandam esvaziar
as palavras
de toda a possível
reminiscência.
Eles te fiscalizam do
alto dos edifícios
escanchados nalgum
dragão lunar.
Eles te dão um ataúde azul
e te ordenam que é
tempo de morrer.

(© Diário do Nordeste, 27.02.2007)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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