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Graciliano Ramos
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O jornalista Audálio Dantas e o
fotógrafo Tiago Santana resgatam em livro o sertão
retratado pelo escritor em sua obra
Adriana Del Ré
No mesmo
chão em que o escritor Graciliano Ramos pisou, entre os
sertões de Pernambuco e Alagoas, o tempo parece ter
parado. Mais de 100 anos depois, tomando como ponto de
partida seu nascimento, os sertanejos continuam a levar
a mesma vida, com todas as dificuldades que lhes são
impostas e corroboradas pela ausência plena do poder
público. Tal e qual o escritor descreveu, minuciosamente
e com uma riqueza concisa, ao longo de sua obra.
“A essência não mudou muito”, confirma o jornalista
Audálio Dantas, que, junto com o fotógrafo Tiago
Santana, pisou naquele chão em 2002, a princípio para
desenvolver um projeto pontual em homenagem aos 110 anos
de nascimento de Graciliano e aos 70 anos de seu
primeiro livro, Caetés. A parceria abasteceu a exposição
fotográfica O Chão de Graciliano, em 2003.
A mostra, elogiada, desdobrou-se em livro, lançado
agora, sob o mesmo título O Chão de Graciliano (Editora
Tempo d’ Imagem, 200 págs., R$ 65) e com recursos
captados via lei de incentivo. Dentre as 70 imagens
selecionadas para este trabalho, há material inédito,
que Santana produziu em incursões posteriores por terras
gracilianas.
“Nessas viagens, foi fácil observar isso: as condições
do homem, principalmente do homem rural, permanecem as
mesmas. Às vezes, encontrávamos casas com antena
parabólica, os automóveis passando ao largo da cidade”,
explica Audálio Dantas. Algumas relações de trabalho
foram rearranjadas, assim como a mobilidade do migrante
nordestino rumo a uma melhor sorte no sul. Se antes ele
partia sem esperança de retorno, hoje, pode ir e vir,
graças às estradas asfaltadas e à quantidade de veículos
que por elas circulam. Talvez, um dos poucos aspectos
que diferenciam o personagem Fabiano de Vidas Secas dos
Fabianos da atualidade. De resto, o panorama geral
permanece semelhante.
Na parte que lhe cabe no livro - que ele prefere chamar
de arte-reportagem -, o jornalista faz outra
constatação, observada também em suas andanças por
Quebrangulo (cidade natal de Graciliano), Palmeira dos
Índios, Viçosa, Caetés e tantas outras partes: a falta
de memória de quem vive hoje sob os mesmos chãos que
outrora foram pisados pelo ilustre escritor.
Na vila de Quebrangulo, a escola, cujo nome antes
homenageava seu filho mais ilustre, foi renomeada de
Escola Mirta Correia da Costa, tributo a uma professora
local. Enquanto parentes de Graciliano se revoltaram com
a mudança, os mais novos demonstraram não ter a mais
vaga idéia de quem seja o escritor. Dantas escreveu:
“Num grupo de meninos - uns dez que atravessam a praça a
caminho da escola - também nada se sabe, mesmo que a
escola em que estudam tenha se chamado Graciliano Ramos
até uns poucos anos atrás (...). O maior dos garotos,
José Francisco, 13 anos, está na 5ª série. Ouve o nome
de Graciliano, pára, pensa, responde com uma pergunta:
‘É um homem grande, não é? É presidente?’” A falta de
conhecimento se estende para os adultos também, até
daquele que ocupa hoje a casa que já foi moradia do
escritor.
Não necessariamente documental, por pouco, o livro não
vira um projeto fotográfico permeado apenas por trechos
retirados de livros do escritor alagoano. Era a idéia
inicial de Dantas, que acabou sendo repensada no meio do
caminho. A obra ganhou com essa reformulação. Conhecido
por assinar grandes reportagens, Dantas não conseguiria
dar tratamento diferente a um de seus projetos mais
afetivos. E o encarou como outra de suas reportagens,
conduzida em tom literário. “É um livro de arte, mas
também de reportagem. Observo o espaço e o tempo de
Graciliano com esse distanciamento de 100 anos”, diz.
Além de apreciador da obra de Graciliano, Dantas
encontra outros pontos de identificação com o escritor:
ambos são nordestinos (Dantas nasceu em Tanque d’Arca, a
poucos quilômetros de Quebrangulo, em Alagoas) e
parentes. Descoberta feita pelo jornalista, assim, sem
querer, ao ver seu próprio avô, Napoleão Ferro, citado
em uma das cartas publicadas do escritor. Mas este é um
assunto para o qual não quer chamar tanta atenção. Ele
prefere ater-se à importância do estilo Graciliano de
captar a paisagem ao seu redor e inserir o homem nela,
de uma maneira simples, sem floreios.
Para o fotógrafo Tiago Santana, essa concisão é um ponto
em comum com seu próprio trabalho, uma vez que se
norteia pela premissa de que poucas imagens objetivas
podem dizer mais que muitas fotos bombardeadas de
informação. Assim, mantém-se paciente à espera do
momento certo, para fazer a imagem certa. Pode ficar
horas conversando com um personagem, sem sequer tocar em
sua câmera mantida por perto.
Segundo ele, essa fase de aproximação com as pessoas é a
mais importante. Não foi diferente nos períodos em que
visitou as cidades de Graciliano. “Todos os personagens
me sensibilizaram, eles têm uma maneira de falar
simples, mas uma forma de pensar erudita”, conta o
fotógrafo. Em seu trabalho como um todo, a figura humana
comporta-se como um elemento fundamental. No ensaio de O
Chão de Graciliano, ele dá interpretação muito
particular ao universo de Graciliano, em imagens
registradas propositalmente em P&B, para lhes conferir
mais força. Nelas, cenário e homem se fundem de maneira
complementar - a mesma sintonia que Graciliano sempre
procurou imprimir em palavras.
(©
Agência Estado) |
Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)
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