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 Asa branca O clássico faz 60 anos

Luiz Gonzaga
 

O pernambucano Luiz Gonzaga e o cearense Humberto Teixeira fizeram a canção já na primeira parceria. Virou o maior clássico da música nordestina com mais de 500 regravações

Há 60 anos, Luiz Gonzaga entrava no estúdio da RCA para gravar uma toada chamada Asa Branca, a primeira parceria sua com o cearense Humberto Teixeira, o maior clássico da música nordestina em todos os tempos, com mais de 500 regravações no Brasil e mundo afora. Teixeira, que estava no estúdio na noite da gravação, relembrou aquela sessão histórica, anos mais tarde, em Fortaleza, ao pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez: “...No dia em que gravamos, com o conjunto de Canhoto, ele disse assim: ‘Mas puxa, vocês depois de um negócio desses, de sucessos, vêm cantar moda de igreja. Que troço horrível’! Aí então, eles com um pires na mão, saíam pedindo, brincando, uma esmola pro Luiz e pra mim, dentro do estúdio. Mal sabiam eles que nós estávamos gravando ali uma das páginas mais maravilhosas da música brasileira”.

Na terra de Luiz Gonzaga, os 60 anos de Asa branca, o hino não oficial do Nordeste, não terá comemorações. Em São Paulo, porém, hoje, às 10h, anuncia-se um “pelotão de choque cultural contra a mesmice e a burrice nacionais”, que invadirá a Praça da Sé, no Centro da cidade, para lembrar a efeméride, e cantar sucessos de Luiz Gonzaga. O evento foi idealizado pelo radialista e escritor paraibano Assis Ângelo, que arrebanhou repentistas, coquistas, emboladores e forrozeiros para prestar homenagem a Gonzagão e ao parceiro Humberto Teixeira. Entre os artistas que participam deste arrastão da Asa Branca estão os pernambucanos Caju & Castanha, Anastácia e João Silva, este último o parceiro com a maior quantidade de composições com o Rei do Baião.

Em 1945, Luiz Gonzaga foi levado pelo compositor Lauro Maia, ao escritório de advocacia de Humberto Teixeira, na avenida Calógeras, no Centro do Rio. Gonzagão andava há algum tempo à procura de um compositor com quem pudesse retrabalhar os ritmos do Nordeste, que conhecia tão bem dos forrobodós freqüentados com o pai Januário, sanfoneiro conceituado no sertão do Araripe. Sertanejo de Iguatu, Humberto Teixeira já era compositor de relativa fama e simpatizou com o pernambucano, que conhecia de músicas como Moda da mula preta e Vira e mexe. os dois se reuniram, das quatro da tarde à meia-noite, para formatar uma música nordestina, que tivesse apelo popular para tocar no rádio: “Nesse mesmo dia nós fizemos os primeiros versos, discutimos as primeiras idéias em torno de Asa branca, que só dois anos depois foi gravada”, contou Humberto Teixeira, esquecendo de acrescentar que Asa branca não foi uma composição inédita da dupla. “Asa branca é uma música do meu pai Januário, mas não tinha este nome, era chamada de Catingueira do Sertão (a catingueira é uma árvore comum no semi-árido). Quem gravou com a letra original foi meu irmão Zé Gonzaga”, lembra a cantora Chiquinha Gonzaga, 81, irmã de Luiz Gonzaga. Ela só consegue lembrar dos versos iniciais da música que o pai dela tocava: “catingueira do sertão/fulorou, botou no chão/catingueira miudinha... Não recordo mais, lembro de outras coisas que meu pai tocava. Quem sabia todas aquelas músicas era Antônio da Pata que cantava no conjunto do meu pai”, desculpa-se Chiquinha.

O velho Januário nunca escondeu de ninguém que Asa branca era uma música sua. Dominguinhos conta que um dia estava em Exu, na casa de Januário: “Enquanto seu Luiz tocava Asa branca na sanfona, Januário comentou comigo: ‘Esta música aí foi esse negro safado que roubou de mim’, claro que em tom de brincadeira. Januário também havia se apropriado da música, que fazia parte do repertório de dos sanfoneiros da região, como também dos cegos que tocavam nas feiras em troca de dinheiro. Além do mais Juazeiro, Meu pé de serra, Vira e mexe, sucessos inaugurais de Luiz Gonzaga também eram temas musicais correntes no Sertão, e foram levado por ele em seu matolão, quando deixou o povoado do Araripe, Exu, em 1930.

(© JC Online)


Suposta gravação dos Beatles tirou Gonzagão do ostracismo

A saga daquela “moda de cego” gravada em 3 de março de 1947 poderia ser contada em um livro. Inicialmente, não fez tanto sucesso, mas não demorou a estourar, até porque quando foi lançada Luiz Gonzaga já se tornara um dos maiores vendedores de discos do País. Na época não existia ainda lista dos mais vendidos, mas, em 78rpm, Asa branca vendeu por volta de um milhão de cópias.

Ao longo destas seis décadas, poucas canções brasileiras receberam tantas versões. No site do Jornal Musical (jornalmusical.com.br) há uma relação de 310 versões da canção. E ainda está muito longe do total. Algumas são bizarras, como a que fez o grego Demis Roussos, que a rebatizou de White wings. Coincidentemente A composição recebeu idêntico título em inglês, porém uma letra diferente, de Raul Seixas, que a fundiu com Blue moon of kentucky, rock-a-billy do repertório de Elvis Presley. Até o paraguaio Luiz Bordon colocou sua impagável harpa a serviço da música nordestina.

De 1947 para cá nenhuma geração musical brasileira passou incólume por Asa branca. Nos anos 50, Jorge Goulart, mais afeito às marchinhas, Trio Irakitan, especialistas em bolerões, gravaram a música. A Jovem Guarda um sucesso tão arrasador que levou Luiz Gonzaga a uma aposentadoria compulsória em 1967, rendeu-se à toada. Gravaram Asa branca o goiabão Eduardo Araújo, o romântico Agnaldo Rayol, os conjuntos Mugstones, Os Primitivos e Os Populares. Nos anos 70, Asa branca teve um número imenso de gravações. recebeu vestimenta soul, na voz do pesqueirense Paulo Diniz, virou canção do exílio na interpretação melancólica de Caetano Veloso (que a gravou em Londres). Participou de uma jam session, em Montreux, com Elis Regina e Hermeto Pascoal, vestiu roupa brega, com Fernando Mendes, e erudita, com a Orquestra Armorial, voltou a ser “moda de cego”, no disco rabecas & cantorias, do Cego Oliveira (do Ceará), e quase vira psicodélica com os Beatles.

Em 1968, espalhou-se a história na imprensa carioca, e conseqüentemente nos jornais, rádios e TVs do País. Os Beatles iriam gravar Asa branca. Mais uma vez o rock and roll se curvava ante o Brasil, pois uma brasileira, Lizzie Bravo, havia participado, no ano anterior, da gravação de Across the universe, com os Beatles. Luiz Gonzaga não teve mais sossego. Sua casa, na Ilha do Governador, no Rio, passou a ser visitada por jornalistas do Brasil inteiro, movidos por um boato inventado e disseminado pelo agitador cultural Carlos Imperial. Os Beatles haviam gravado Blackbird (literalmente “pássaro preto), para o disco The Beatles (conhecido como o Álbum branco). Quem lucrou com isso foi Luiz Gonzaga, que saiu do ostracismo, deixou a rede de aposentado, e caiu novamente na estrada, retomando a vida de viajante, sem nunca deixar Asa branca fora do repertório de shows. (JT)

(© JC Online)

VÍDEO:

Luiz Gonzaga -- Asa Branca 60 Anos

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