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 Cícero Dias, o eterno menino de engenho

Cícero Dias (de paletó) com Mário Carneiro
 

Em 1920, aos 13 anos, o artista pernambucano Cícero Dias arrumou as malas com destino à cidade que acolheria sua alma de modernista: o Rio de Janeiro. As lembranças pueris do Engenho Jundiá, em Escada, no entanto, foram junto na bagagem e nunca mais o abandonaram em seu ofício apaixonado de pintor. Na capital carioca, em Paris, em Lisboa ou em tantos lugares por onde passou. Nunca. Se estivesse vivo, completaria amanhã um século de vida e talvez sopraria as cem velas com aquele mesmo espírito do menino de engenho cosmopolita que foi até morrer, há quatro anos. Inspirados nessa vida tão rica de acontecimentos e de arte, nós, da equipe do Jornal do Commercio, prestamos homenagem a esse que foi um dos maiores artistas da história do País. Até quarta-feira, você, leitor, vai poder se deleitar com a série especial de reportagem feita pelos repórteres Bruna Cabral, Dario Brito, Olívia Mindêlo e Paulo Sérgio Scarpa.

PAULO SÉRGIO SCARPA

No município de Escada, a 53 km do Recife, na Mata Sul de Pernambuco, existia um engenho, um menino irrequieto e uma vontade imensa de desenhar o mundo. Estava tudo lá, no Engenho Jundiá: o verde do canavial, a terra avermelhada, o azul do céu, a lua cheia e a luz tropical. Estavam também as histórias mágicas que povoaram o imaginário do pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003). Um artista moderno, antes do tempo, e dono de uma produção artística marcada pelo pioneirismo, que se renovou sucessivamente ao longo de oito décadas.

Jundiá é nome indígena dado a peixe de água doce (yundi = espinha e á = cabeça). Cícero dos Santos Dias viveu no Engenho Jundiá até a década de 20, quando aos 13 anos de idade foi estudar no Colégio São Bento, no Rio de Janeiro. Lá, desenvolveu o hábito da leitura, marca de sua formação. Aos 18 anos, optou pela Escola de Arquitetura, três anos mais tarde trocada definitivamente pela pintura, mais do que uma vocação.

Cícero foi o sétimo filho de Pedro dos Santos Dias e Maria Gentil de Barros Dias. Eles tiveram dez filhos: Antônio, Manuel, José, Maria de Lourdes, Pedro, Feliciana, Cícero, João, Mário e Rômulo, todos netos do barão de Contendas (Antônio Epaminondas de Barros Correia, presidente da então Província de Pernambuco, entre 1891 e 1892), pelo lado materno.

Os hábitos e costumes da família de engenho Santos Dias inspirou o romance Usina (1936), de José Lins do Rego. Em 1929, o mesmo escritor registrou em crônica a presença de Cícero Dias entre os melhores artistas da época, como Di Cavalcanti, Manuel Bandeira, Graça Aranha, Murilo Mendes: “Era um menino de engenho com a loucura da arte. E deu-lhe uma febre, como a maleita, uma febre que fazia seu corpo tremer e sua alma pegar fogo. (...) Larvas desceram pelas várzeas do Jundiá e Cícero parecia um Vesúvio sobre Pompéia”.

O próprio pintor lembrou no livro Cícero Dias – anos 20 (um relato em forma de autobiografia) a importância que teve a infância em sua produção artística: “As vistas do Recife, a paisagem dos canaviais, são coisas que sempre estiveram comigo, sempre me acompanharam onde quer que eu estivesse. Não há nada mais belo do que o movimento marítimo dos canaviais soprados pela brisa do mar”. O mar e a lua, elementos constantes na pintura de Cícero Dias, acompanham as lembranças que guarda da tia Angelina e da velha avó, na casa-grande do engenho, onde vivia e estudava. Junta-se a essas recordações a babá Maria Bernarda da Silva, com seus doces e quitutes.

Os primeiros trabalhos feitos no Rio de Janeiro de forma profissional revelavam um mundo estranho aos intelectuais sulistas: o ambiente dos canaviais, as paixões misteriosas e os sentidos exaltados. A maior parte de sua obra, nesse período, é de desenhos e aquarelas, em que o artista extrai uma delicadeza de efeito superior à pintura a óleo. Não é à toa que a sua primeira obra de impacto, segundo a crítica foi Eu vi o mundo... Ele começava no Recife, criada entre 1926 e 1929, no Rio de Janeiro.

Outras experiências marcantes pautaram a infância do artista, como a aparição do Cometa Halley (1910), por certo uma visão fantasmagórica para quem, à noite, só via um montão de estrelas no céu. “Não havia luz elétrica nos engenhos e o cometa clareava as noites do canavial. Parecia iluminar o mundo”, descreveu. “Talvez me venham em sonhos as luzes desse cometa iluminando a noite do engenho, espraiado nas campinas, transformando em prata a paisagem dos canaviais”.

Esse mundo infantil aparece também no quase poema que Cícero Dias criou: “Havia então esse mundo fantástico: a casa-grande de Jundiá era uma casa-grande clássica, o assoalho era feito de tábuas de madeira-de-lei, a casa, uma casa absurda, cheia de histórias fantásticas. Caíram paredes, partiram-se telhados, a casa hoje está em ruínas, parede podre, carcomida pelos cupins, habitadas por fantasmas e lendas mágicas. Saudade de minha cama no Jundiá (...)”. O engenho, que pertence hoje à Usina União Indústria, com sede no município de Primavera, permanece desabitado e do mesmo jeito que narrou o pintor em suas memórias: a casa-grande está parcialmente em ruínas, a varanda já não existe mais e o mobiliário foi retirado pela família. A pequena capela do engenho foi parcialmente recuperada para a missa realizada ontem, em homenagem ao centenário do artista.

Em bem-humorada entrevista à jornalista Cristhiane Cordeiro, em 1997, publicada no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado, Cícero Dias lembrou novamente Jundiá: “Lá se recebiam muitas pessoas, muitos frades carmelitas, tinha muitos padres que freqüentavam. Mas Jundiá foi, também, um local de grandes tragédias. Como o caso da visita dos cangaceiros de Antônio Silvino. Pela primeira vez, os cangaceiros atingiram a Zona da Mata, porque a área que eles dominavam era o Sertão, por causa do algodão. (...) Jundiá era muito cercada por essas histórias nebulosas. Era o mundo mágico dos engenhos que por ali tinha muito isso. Quando as usinas desapareceram, toda essa mitologia dos engenhos acabou, porque industrializaram demais o campo. Verdadeiros mercenários”.

A mudança no campo provocou a imaginação de Cícero Dias, anos depois, ao pintar o quadro Condenação dos usineiros, acusado de ser subversivo e obra comunista que condenava a classe social a qual pertencia. Na mesma entrevista, o artista negou o caráter ideológico da obra: “Foi uma maneira de mostrar a indústria destruindo o campo. O modo como a usina tomava conta do campo, de uma maneira brutal, diferente da maneira dos engenhos de bangüês”. No quadro, o pintor retrata todos os usineiros da época. “Até meus tios estão lá representados”.

A memória do Engenho Jundiá provocou também a redação de um romance inacabado, intitulado Jundiá, do qual a revista portuguesa Atlântica chegou a publicar um trecho. Na mesma entrevista à Cristhiane Cordeiro, Cícero Dias explicou que encerrou o livro na parte em que as usinas começaram a surgir em Pernambuco. “Justamente quando acabou essa história, essas lendas todas que cercavam os engenhos, foi quando eu parei”.

O artista costumava dizer que o verde, sempre presente em sua obra, ele captou dos canaviais, onde aprendeu a diferenciar os matizes da cor. O azul esverdeado foi descoberto no mar de Boa Viagem, porque, quando criança, a família costumava passear em Boa Viagem, Piedade e Candeias. “Naquele tempo, o pessoal pegava o trem e descia na estação de Boa Viagem, depois pegava um bonde de burros e ia para a praia”.

As primeiras lembranças do pintor, porém, estão sempre associadas à pintura, já que toda a sua vida girou em torno das suas obras, como ele mesmo relata em Cícero Dias – anos 20: “Saí direto do engenho para o internato no Colégio São Bento, que pertencia aos monges beneditinos. Comia e dormia no colégio. Sentia falta do engenho, de tia Angelina e suas aulas de pintura. Naquele tempo, eu já pintava sem parar”.

Da época de internato, Cícero Dias guardou uma carta enviada pela mãe à direção do Colégio São Bento demonstrando sua preocupação com o fraco desempenho escolar do menino. “As informações que lhe chegavam davam conta de que eu não aprendia coisa nenhuma, só fazia desenhar”. Ainda bem.

(© JC Online)


Laços fraternos Cícero, Gilberto e Zé Lins

Unidos pela herança cultural da casa-grande, o trio foi cúmplice na obra e na vida

OLÍVIA MINDÊLO

O engenho está para Cícero Dias na pintura, assim como para José Lins do Rego, na prosa, e Gilberto Freyre, na sociologia. São todos filhos dele, da casa-grande, da cultura colonial que brotou na Zona da Mata e permeou o trabalho do trio. Não necessariamente pelo fato de terem nascido e crescido lá, como aconteceu com o artista plástico, mas, sobretudo, porque puderam produzir a partir dessas referências. Foi também o engenho, simbolicamente falando, que uniu afetivamente os três. Eles foram grandes amigos durante toda a vida.

“A temática dos seus primeiros desenhos e das suas primeiras pinturas (de Cícero Dias) está relacionada diretamente com o mesmo ambiente que motivou a obra de Gilberto Freyre, José Lins do Rego e Ascenso Ferreira. Em suma, ele plasmou em pintura o que os seus colegas regionalistas-modernistas realizaram na sociologia, no romance e na prosa”, reitera o escritor e biógrafo do pintor Mário Hélio Gomes, em seu texto Todos os motivos de Cícero Dias, escrito para o catálogo da exposição realizada em 2006, no Museu Niemeyer, de Curitiba.

Décadas antes, em 1948, o autor de Casa-grande & senzala haveria de registrar algo semelhante, no texto Presença de Cícero, escrito em Paris: “Há mais de 20 anos, Cícero Dias e eu nos aproximamos para nunca mais deixarmos de ser companheiros da mesma aventura: a de procurarmos chegar ao universal através do regional”. Gilberto Freyre estava certo. A referência local foi o ponto de partida, o levante de vôo em ambos os casos, capaz de provocar uma interface com outros Estados e países – na teoria, na prática. A obra-prima de Freyre ultrapassou as fronteiras e foi publicada em lugares como Argentina, Estados Unidos, França, Portugal, Alemanha, Itália, Venezuela, entre outros. Com suas telas impregnadas pelo imaginário pernambucano, Cícero Dias foi bem-recebido no Rio de Janeiro, ainda nos anos 20, e mais do que aclamado em Paris, durante os 66 anos em que residiu na cidade.

Não por acaso foi Cícero Dias quem ilustrou a primeira edição de Casa-grande & senzala, de 1933. A gravura do Engenho Noruega, impressa na publicação, é uma referência imediata à obra do sociólogo e encontra-se, em cópia original, exposta na Fundação Gilberto Freyre atualmente. Em 1977, outro fruto da cumplicidade entre eles veio à tona: o álbum Casas-grandes & senzalas, elaborado pela dupla – Freyre entrou com os textos e Dias, com cinco serigrafias. Esse trabalho, por sinal, vai ser relançado na próxima quarta-feira, em versão de fac-símile, pela Companhia Editora de Pernambuco (o primeiro foi da Ranulpho Editora de Arte), em comemoração ao centenário do artista.

A Fundação Gilberto Freyre guarda ainda mais de cem cartas enviadas por Cícero a Gilberto, nunca publicadas. A intenção é que as correspondências inéditas, atualmente nas mãos da viúva do pintor, Raymonde Dias, virem um livro juntamente com as cartas de Gilberto enviadas a Paris. A fundação espera acordo com Raymonde para lançar a publicação.

Embora mantenha mistério em relação aos escritos, o superintendente da fundação, Gilberto Freyre Neto, diz que quase sempre as cartas faziam referência à situação da Europa, principalmente durante a guerra, e à saudade entre ambos, mas foram muitos assuntos,em diferentes fases.

“Cícero Dias era mesmo que um irmão de papai. Quando nós íamos à França, ficávamos na casa dele e o mesmo acontecia quando eles vinham para o Recife, com a gente”, conta Sonia Freyre, filha do sociólogo e presidente da fundação. Ela recorda também que o artista e a esposa vieram da França, certa vez, especialmente para o seu aniversário de 15 anos. “Quando eu fui a Paris pela primeira vez, eu tinha uns 8 anos, e me lembro de ver papai, Cícero e Zé Lins (do Rego) na maior gargalhada. Eles viravam verdadeiras crianças quando se juntavam. E eu não tinha noção de quem eram aqueles amigos-irmãos do meu pai”, lembra.

Ela, aliás, possui um desenho em caneta esferográfica assinado pelo artista. A instituição que preside, nem se fala. Herdou vários quadros do acervo de Gilberto e sua esposa, Magdalena, que ganharam aquarelas raras e óleos sobre tela do artista. Não é à toa que a fundação está à frente das comemorações do centenário, há cerca de três anos. Um sinal de que os laços entre as famílias Freyre e Dias custarão a se desfazer.

(© JC Online)

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