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 A poesia que nunca descansa

Jaci Bezerra e a capa do seu novo livro, Linha D'Água
 

Jaci Bezerra publica Linha d’água, livro que reafirma a postura do autor em lidar com poemas que começam e não têm ponto final

SCHNEIDER CARPEGGIANI

Em meados da década de 90, Jaci Bezerra começou a escrever o que seria o livro Comarca da memória. Exigente, passou quatro anos debruçado no trabalho. Escrevia e refazia cada palavra sem pudor – pudor que lhe falta mesmo diante da obra pronta. Para ele não há ponto final... Encerrado o exercício, sua primeira atitude foi enviar exemplares para amigos e “pessoas que eu queria que lessem”, explica. Com os títulos que sobraram, no lugar de procurar um espaço nas livrarias, preferiu ir direto à “base” da cadeia alimentar literária: levou os livros para um sebo.

Seu prazer final com Comarca da memória não foi vê-lo distribuído em grandes livrarias ou estampado em jornais. “Quando escrevo, muitas vezes faço ‘grafites’ dos meus amigos, de familiares. Quero que essas pessoas vejam o que escrevi”, aponta o poeta.

A atitude acima descrita diz muito sobre a maneira como Jaci lida hoje com a divulgação da sua poesia. Expoente da Geração 65 e ex-editor das lendárias Edições Pirata (coletivo que na década de 80 editou a poesia underground recifense), o poeta foge do circuitão literário e evita noites de autógrafos. “Já fiz muito isso, cansei”, afirma Jaci, que acaba de lançar Linha d’água. “Eu gosto de conversar com as pessoas, de conhecer o trabalho dos novos poetas, mas não me interessa o circuito literário”.

Linha d’água reúne o inédito Termo de posse e traz novas versões de obras antigas de Jaci. Uma reunião, mas nunca uma “antologia”, como ele mesmo gosta de deixar claro. Estão lá Comarca da memória, Livro das incandescências, Livro de Olinda, Inventário do fundo do poço, A onda construída e Lavradouro. Os textos antigos voltam, muitas vezes, refeitos pelo autor. “Um poema nunca acaba”, entrega. Ou mesmo não “dencansa”, como já escreveu Paulo Mendes Campos. “Tem textos que se fazem na hora, é como se o poema escrevesse a si mesmo. Outros sempre tenho de mexer, refazer”.

O novo livro traz ainda uma breve fortuna crítica. Na verdade, a reunião de cartas e opiniões de amigos e críticos que Jaci colheu ao longo da carreira – as tais pessoas que o poeta queria que lessem sua obra. Entre os artigos, um texto publicado em 1966, no Diario de Pernambuco, em que César Leal (o criador do termo Geração 65) aponta sua surpresa diante de dois, então, novos autores: Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo.

“Poderia dizer que Jaci é o poeta ‘possesso’, o criador de imagens, o poeta tipicamente moderno pela tendência que tem em criar uma mitologia e simbologia próprias. Para ele, a linguagem funciona como funcionam as cores para um pintor na pintura ‘não objetiva’. Eis porque nele as palavras conseguem criar formas sensíveis, ainda que não reais, oferecendo ao leitor uma série contínua de imagens de uma visibilidade quase pura”, escreveu César Leal.

Se Jaci procurou encontrar novas formas de “redizer” suas palavras já publicadas, no propriamente novo Termo de posse, o poeta se mostra em excelente forma – o que talvez explique sua obsessiva busca pela perfeição. “A poesia abarca tudo”, diz o poeta no texto de abertura, Lapiseira com paisagem - “Tua vida cabe no teu lápis cartucho/ de lembranças que se negam a morrer (...)/ Teu lápis é a tua casa, os teus medos,/ o teu silêncio e os teus remorsos/ o rumor dos vivos e dos mortos/ que diariamente invade teus cadernos.”

Estão ainda no livro seus poemas-instantâneos, “grafites” de amigos ou da mulher, Elisabeth – “O amor que ama e possui anda com ele,/ uma completa edição de sentimentos:/ pode às vezes sonhar, corte na pele,/ mas sem deixar cicatriz o seu ferimento”. Há ainda versos em que discute e se divide entre Alagoas (estado onde nasceu) e Pernambuco (estado que escolheu) – “Alagoano quis Deus ou o destino/ que fosse assim, um recifense torto:/ e nessa condição, desde menino,/ um homem que a um só tempo é mar e porto”.

Linha d’água é como uma viagem no tempo de Jaci Bezerra. E todo retorno ao passado não deixa de ser uma “viagem ao avesso”, afinal, os cartões postais retratam apenas o ponto de partida.

(© JC Online)


ENTREVISTA/ PAULO FERNANDO CRAVEIRO

“Estamos à vontade para fazer a ficção diária de nossas vidas”

Paulo Fernando Craveiro trouxe do seu trabalho como repórter o desejo de fazer a realidade invadir a ficção – ou seria o contrário? Não importa, realidade e ficção são terrenos muito movediços para que uma fronteira bem definida seja erguida entre elas. Foi o que o autor promoveu com sua estréia literária, o romance Os olhos azuis da sombra, em quem um (e não “o”) Hitler decide habitar o litoral nordestino. No seu novo livro, Pássaro feito de pó, o autor promove uma série de narrativas curtas que lidam com territórios – aparentemente – tão díspares quanto invenção e memória. Confira os melhores momentos da entrevista do autor ao JC.

JORNAL DO COMMERCIO – Você já escreveu dois romances, que foram bem recebidos pela crítica e pelo público. Após essas duas experiências, você já se sente à vontade na hora de fazer ficção?

PAULO FERNANDO CRAVEIRO – O limite entre a realidade e a ficção é apenas uma suspeita. Estamos todos à vontade para fazer a ficção diária de nossas vidas, monitorados por uma força que seria o deus (no qual jamais acreditei) espectral de Jorge Luis Borges. Quando você ilude, transcrevendo uma cena, não está se auto-iludindo, mas apenas mergulhando na indiscrição de sua própria realidade. A ficção, ou seja, a subversão da realidade, deixa-me livre para enfrentar a escassez apenas aparente da realidade. Não é a suposta estreiteza da realidade que me seduz. Fascina-me a ficção ancha dentro da qual inserimos nossos pensamentos. Mas, às vezes, a realidade não é mais larga do que a ficção? Enfim, realidade e ficção integram um mesmo labirinto, um mesmo jogo de xadrez, o mesmo terreno de areia movediça onde estamos plantados para viver nosso delírio cotidiano de medo e gozo. Os atos terroristas de 11 de setembro de 2001 – praticados contra as vidas que fluíam dentro das torres gêmeas do World Trade Center – foram um fato que corrompeu o nosso sentido da realidade. Nada mais imaginário do que a cena dos aviões penetrando naqueles edifícios, como se fossem dedos perfurando arcabouços de papel de seda. De repente eu estava lá, embora longe, vivendo uma ficção. Me sinto tão à vontade, escrevendo romances, que já escrevi até um terceiro livro, chamado Boa terra de ódios, e escrevo no momento um quarto em que meu interlocutor é um boneco de ventríloquo.

JC – O que lhe fez migrar do romance para arriscar uma literatura mais curta, no entanto não imediata?

PFC – Na verdade, não chego a me arriscar. Passei metade da minha vida profissional escrevendo textos curtos. Se a realidade não perfazia o sentido das coisas que eu pretendia dizer, logo incorporava detalhes de ficção às páginas. Daí porque Gilberto Freyre tenha me elogiado ao dizer que eu era um “mestre brasileiro da crônica jornalística tocada de graça literária”. Assim, não migrei para o texto curto. O texto curto sempre existiu em mim.

JC – Você já frisou que Pássaro feito de pó seria um híbrido entre o conto e a crônica, por que essa decisão de colocar a sua literatura nesse meio do caminho?

PFC – Há um momento em que você não consegue impor limites ou estabelecer um território geográfico literário. A própria editora pergunta como classificar o livro. Deixo com ela a síntese da interrogação. Nem mesmo o agrimensor mais atento será capaz de estabelecer os limites nessa terra fértil.

JC – O seu livro é cheio de referências à literatura, à pintura e ao cinema. Você acha que o leitor precisa ter referências prévias para apreender o seu texto?

PFC – Nossa vida é composta de referências. Como não tê-las? As pessoas têm medo de morrer não porque vão perder o futuro e sim porque perderão o passado. As referências são o passado. Os leitores têm passados referenciais distintos. A mim, não por preconceito, mas porque tenho um passado de referências das quais não me liberto, nem quero me libertar.

JC – Em muitos dos textos de Pássaro feito de pó, a impressão é que você/o personagem procura entender o que está acontecendo na trama ao mesmo tempo em que o leitor. Sendo assin, você escreve para entender melhor as coisas?

PFC – Procuro uma comunhão, às vezes impossível, com o leitor. Não raro eu o insiro nos escritos como se ele, mais do que um simples espectador, fizesse parte dessa estranha liturgia que é o entendimento humano. Todavia é uma relação formal, digamos, metalingüística. Se lutar com palavras é a luta mais vã de todas, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade, imagine o que é lutar pelo entendimento de si próprio e das coisas. Não, não escrevo para me entender melhor. Desisti de me entender e de entender os outros e as coisas.

(© JC Online)

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