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 Cícero Dias rumo a Paris

Ó pintor Cícero Dias, cujos 100 anos se comemora agora
 

OLÍVIA MINDÊLO

Nas primeiras décadas do século 20, qual cidade reunia a maior quantidade de grandes artistas por metro quadrado? Não é difícil responder: Paris, claro. Pintores, poetas, cineastas, músicos. Estavam todos lá. Muitos deles, inclusive, deixaram seus países rumo à capital francesa, um centro irradiador de arte. O pintor Cícero Dias (1907-2003) foi um deles. Seus conterrâneos Vicente do Rêgo Monteiro e, mais tarde, Lula Cardoso Ayres, também.

Com um espírito de esquerdista revolucionário, o artista modernista não suportava conviver com a ditadura de Getúlio Vargas e viu como tentadora a proposta do amigo Di Cavalcanti, pintor que, através de cartas, ajudou a convencer o artista a arrumar as malas pela segunda vez. Foi então que deixou o Rio de Janeiro, onde havia sido mandado para estudar, aos 13 anos, obrigando-o, em 1920, a partir de sua cidade natal – Escada, na Zona da Mata Sul de Pernambuco.

O ano era 1937. Depois disso, Cícero Dias nunca mais voltou a morar no Brasil. Viveu na França por mais de 60 anos. As cores e as paisagens tupiniquins, como sabemos, jamais o abandonaram. E foi justamente essa herança brasileira um dos passaportes de entrada para o métier dos vanguardistas parisienses. E não foi difícil. Cícero expôs pela primeira vez na Cidade Luz em 1938, na galeria de Jean Castelle, ou seja, um ano após sua chegada. Suas aquarelas e seus óleos sobre tela causaram um certo rebuliço e foram apresentadas pelo escritor Andre Salmon, por exemplo, como “uma riposte ao surrealismo”. De fato, em sua fase mais original, Cícero rompeu barreiras e foi pioneiro em seu ímpeto moderno, fazendo criaturas tão delicadas sonharem, voarem e ainda manterem os pés na terra, na sua terra de plantas, engenhos, rios e mulheres tão brasileiras.

Abrir portas foi uma conseqüência do seu talento e da sua capacidade de interagir com gente que compartilhava de ideologia semelhante: antibélica e antinazista. Pablo Picasso estava nesse meio. Fez logo amizade com o cubista, que o definiu como “um grande pintor e um grande poeta”. Não era de estranhar que Cícero Dias fosse influenciado pelo amigo. Muitas das telas da chamada “fase vegetal” (repletas de frutas) são uma referência direta ao movimento preconizado pelo pintor espanhol. Mas, ao contrário de muitos artistas, Cícero a encarou apenas como uma transição. A pintura do pernambucano foi além disso e, apesar das inúmeras citações e coincidências alheias, tinha uma mão original.

A ligação afetiva com Picasso, portanto, ultrapassou a artística, a ponto de o autor de Guernica ter se tornado padrinho da única filha de Cícero, Sylvia Dias. Segundo a sua viúva Raymonde Dias, o filho de Picasso, Claude, herdou do pai uma obra assinada por Cícero. Chama-se Distante, um óleo sobre tela da década de 40, cedida por ele em 2006 para que participasse da exposição Cícero Dias: oito décadas de pintura, no Museu Niemeyer, de Curitiba.

Com o poeta Paul Éluard o pernambucano também travou uma relação amistosa. Foi Cícero quem intermediou, carregando no bolso, a chegada do poema Liberté a Londres, de onde foi levado, em milhares de cópias, para serem atirados por avião sobre o território francês, em plena ocupação alemã da Segunda Guerra Mundial.

A guerra também mudou o destino de Cícero, que chegou a ficar exilado em Lisboa, de onde retornaria em fase abstrata, essa que os brasileiros nunca aturaram muito bem, mas é mais do que compreendida pelos europeus que viveram o durante e o pós-guerra.

(© JC Online)


Acervo está espalhado pelo mundo

BRUNA CABRAL

Foi fora de Pernambuco que Cícero Dias conseguiu sua consagração. E é longe do Estado que permanece boa parte do enorme acervo deixado pelo incansável pintor. No Brasil, há quadros de Cícero espalhados por todo canto: no Recife, em Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, cidade onde foi realizada no ano passado a maior exposição jamais feita sobre o artista.

O curador da mostra Cícero Dias, oito décadas de pintura, realizada no museu Oscar Niemeyer, foi o galerista Waldir Simões de Assis Filho, ele próprio um ávido colecionador de “cíceros”, com quase 20 obras em casa, sem falar de pelo menos mais 10 que compõem o acervo de sua galeria de mesmo nome. “O que Cícero Dias tem de mais peculiar é o fato de nem ter precisado partir do rigor acadêmico para chegar ao modernismo, como Portinari e Anita Malfatti. Ele já surge moderno e tratando de temática nacional”, diz.

Mesmo assim, garante, sua obra teve ótima aceitação fora do País. Em Paris, onde o pintou morou por mais de 60 anos, pelo menos duas galerias até hoje têm trabalhos seus no acervo e, mais que isso, exibem sempre essas obras em mostras internacionais: a Galeria Denise René e a Marwan Hoss. Colecionadores particulares também não faltam na capital francesa, especialmente de suas obras abstratas, as mais valorizadas no Velho Continente. “Até hoje as telas de Cícero movimentam os leilões internacionais”, diz Waldir Simões Filho. E o martelo nunca é batido por cifras inferiores a US$ 50 mil. “A média é U$$ 100 mil.”

No Brasil, também há vários colecionadores particulares. Alguns célebres, como a família Roberto Marinho e Ivo Pitanguy. No caso de outros, como Luiz Antônio de Almeida Braga, célebre é a obra: o painel Eu vi o Mundo...Ele começava no Recife, que projetou Cícero no País, em 1931.

As obras do pintor pernambucano que não temia experimentar técnicas e cores também estão disponíveis em vários museus Brasil afora, como o de Arte Moderna, no Rio de Janeiro e os de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado e de Arte Contemporânea da USP, ambos em São Paulo, cidade à qual Cícero entregou também, em 91, um painel público, com 20 metros, que fica na Estação Brigadeiro do metrô.

(© JC Online)


Ateliê ainda ficará na Cidade Luz

DARIO BRITO e
OLÍVIA MINDÊLO

Uma extensa biblioteca de livros de arte, muitos vidros de tinta, barbantes ligando estantes, peças de artesanato brasileiro por toda parte e uma rede. Num rápido apanhado de descrições, é possível perceber que o ateliê de Cícero Dias, ainda instalado em Paris, vai além do próprio conceito de ateliê. Aliás, poderia ser definido como uma instalação de arte contemporânea, na visão do artista plástico Paulo Bruscky. Para ele, o ateliê do pintor é a materialização de quem sempre estava criando, fazendo de seu local de ofício uma obra de arte.

“Não raro ele chegava em casa com um livro velho ou outro objeto na mão e arrumava um local especial para colocá-lo no ateliê. Lembro de uma história que Raymonde (Dias) contou de um porta-ovo que sumiu da cozinha. Cícero adorava comer ovo cozido no café-da-manhã e, determinado dia, esse objeto sumiu. Dias depois, ela encontrou o porta-ovo pendurado num dos muitos barbantes colocados entre os objetos do ateliê”, lembra Bruscky, que visitou o ateliê de Cícero pela última vez em 2005.

Ele, por sinal, seria um dos poucos a quem a viúva do pintor confiaria o trabalho de transposição da oficina de trabalho do pintor para o Recife, até porque o próprio Bruscky já transpôs seu ateliê (não menos rico que o de Cícero) para a 26ª Bienal de São Paulo, em 2004. Bem, depois de muitos capítulos dessa novela de traz ou não traz o ateliê para a capital pernambucana, Raymonde afirmou ao JC que prefere, por enquanto, manter o lugar sagrado de seu marido perto dela, por “razões sentimentais”.

A própria Prefeitura de Paris já instalou uma placa em seu apartamento, onde está o ateliê do artista, com os dizeres: “Aqui viveu o pintor Cícero Dias”. A filha, Sylvia Dias, concorda com a mãe que o relicário do modernista deve ficar ainda na capital francesa.

Uma pena, afinal seria um ganho turístico e cultural para o Recife, que guarda referências a Cícero, mas nenhuma dessa natureza. O Banco Real/ABN Amro Bank , aliás, chegou a investir R$ 52 mil nessa vinda, mas com a decisão de Raymonde, a verba acabou sendo utilizada para a realização do Centro de Documentação Cícero Dias, espaço informatizado do Museu do Estado, que receberia o ateliê.

(© JC Online)


“Cícero pintava como respirava”

Dizem que por trás de todo grande homem, há sempre uma grande mulher. Verdade ou não, com Cícero Dias foi assim. Esposa do pintor por mais de 60 anos, a francesa Raymonde Dias acompanhou com afinco o trabalho do marido, pelo qual zela até hoje. É por isso que não podíamos deixar de entrevistá-la. Ainda bem que ela topou falar ao JC, por telefone, de Paris, onde mora. E respondeu com paciência as perguntas de quatro jornalistas, em conversa com Olívia Mindêlo. Detalhe: o português dela é ótimo.

JORNAL DO COMMERCIO – Quando e como a senhora conheceu Cícero Dias?

RAYMONDE DIAS – Eu conheci Cícero em plena ocupação de Paris pelos alemães nazistas. Então, eu o encontrei numa reunião com amigos. Ele conhecia umas pessoas que eram amigas minhas e aí eu o encontrei. Fazia dois anos que ele estava em Paris. Ele chegou em 37 a Paris, fugido da ditadura de (Getúlio) Vargas.

JC – O que a atraiu: a arte ou o jeito dele?

RD – Foi o jeito dele, à primeira vista. Uma pessoa simpática, com aquela personalidade dele, sempre muito calorosa. Ele me convidou para tomar um café, eu estava com alguém da minha família, acho. A gente freqüentava os mesmos lugares, convivia com as mesmas pessoas, então a gente se encontrou. Foi a simpatia. Agora, a arte dele eu vi quando fui à sua casa, enquanto ele estava pintando. Mas nessa época da ocupação alemã, ele não tinha verdadeiramente a cabeça para pintar, porque ele era contra os alemães nazistas. E, nessa época, ele já convivia com as pessoas de Paris que estavam resistindo ao nazismo, então ele não pintava como o vi pintar depois.

JC – E como se casaram?

RD – Nos casamos em Lisboa. Bom, a história é muito comprida, mas ele saiu da França e eu fui com ele. Era para ele voltar ao Brasil, mas não voltou. E ele já era conhecido como um grande artista brasileiro. E encontrou todo o grupo de artistas portugueses – Negrera, Antônio da Costa... Aí, ele foi convidado para expor em Lisboa, e nós ficamos lá por causa disso. Isso foi a partir de 1942, aí passamos o resto da guerra em Lisboa. Ele pintou, trabalhou muito, fez muito sucesso lá e na cidade do Porto.

JC – E quando voltaram a Paris?

RD – Logo que a Segunda Guerra acabou nos instalamos definitivamente em Paris, no ateliê em Montparnasse. Ele reencontrou os amigos dele, reatou com os artistas de Paris e entrou para a Escola de Paris. Ele pintou muito abstrato nessa época.

JC – Como era a relação dele com vanguardistas como Pablo Picasso?

RD – Picasso ele conheceu logo que chegou a Paris. Ele morava em Montparnasse, um lugar onde moravam os espanhóis que estavam fugindo da Guerra da Espanha. E, no meio deles, tinha Picasso. Eles fizeram logo amizade, os dois, e daí foi uma amizade muito constante até o fim da vida. Eles se encontravam muito, falavam muito de pintura, ele (Cícero) ia muito ao ateliê de Picasso, eu também fui muito depois. Eles trocavam idéias. Cícero mostrava os quadros dele. Aliás, quando ele levou uma tela para mostrar a Picasso, Paul Éluard viu o quadro e começou a amizade com Cícero. Éluard escreveu muita poesia sobre ele.

JC – Então ele não sofreu nenhum preconceito por ser um pintor brasileiro em Paris?

RD – Pelo contrário. Ele foi aceito, completamente. Na primeira exposição de 1938, ele foi até convidado para expor em outros lugares, em outros países, mas foi a guerra que interrompeu. Graças a Deus, quando a guerra acabou, em 1945, ele voltou a ter o mesmo prestígio na cidade.

JC – Como Cícero Dias lidava com a saudade do Recife?

RD – Ele trocou o Brasil pela França, para dizer a verdade, porque ele se acostumou a viver aqui como artista, mas ele tinha uma saudade enorme do Brasil, sobretudo de Pernambuco. A terra dele não saía do coração dele, absolutamente. Se você ver o ateliê aqui é um ambiente de Pernambuco. Tem rede, tem os bonecos de Pernambuco. A cabeça e o coração dele não deixaram Pernambuco. Ele passou a vida toda indo e voltando, viajando duas vezes por ano ao Brasil, principalmente a Pernambuco. E a última coisa que ele pintou, que ele fez, foi a Praça do Marco Zero. E depois que ele parou de pintar, ele teve tanta saudade, tanta saudade de sua terra que ele escreveu uma coisa muito bonita que se chama Ode a Recife. Quando ele parou de pintar, ele começou a escrever e era só sobre o Recife. Ele falava muito do Engenho Jundiá, onde ele nasceu, como “a capital da minha infância”.

JC – A senhora acha que a obra dele foi toda uma saudade a esta terra?

RD – Tem uma parte de saudade na fase figurativa, e mesmo na fase abstrata. O colorido é completamente pernambucano, tem muito verde.

JC – Por que vocês nunca vieram morar aqui?

RD – (silêncio). Aaaah, isso é uma coisa que eu não sei te explicar. Ele estava acostumado, agora ele precisava de duas coisas: tanto de Paris quanto do Recife. Então, a gente ficava trocando: ia uma ou duas vezes por ano a Recife e ficava o resto da vida aqui.

JC – Como era a rotina dele aí na Europa?

RD – Bom, a gente viajava muito por toda a Europa. Quando éramos mais jovens, viajamos à Itália, à Grécia, à Espanha, todos esses países. Quando estava em Paris, ele pintava o dia inteiro, todo o tempo. Ele nunca deixou de pintar. Ele pintava como respirava. Também íamos a exposições sem parar. Em Paris, tem tanta coisa para fazer que a vida fica cheia. Ele também recebia muito os brasileiros. Todos os brasileiros que passavam por Paris visitavam Cícero. Ele recebia todos os amigos e os amigos dos amigos, além da turma de franceses pintores.

JC – Paris está preparando algo para o centenário? Além de Pernambuco, vai haver alguma comemoração na Europa?

RD – Agora mesmo teve uma grande exposição no Grand Palais que foi reaberto agora, depois de dez anos fechado, com desenhos dos anos 20 completamente inéditos. Foi em outubro, no fim do ano passado. E agora deve ter outra, estamos preparando.

JC – A senhora falou sobre o ateliê dele, que faz referências a Pernambuco. Como era a relação dele com o espaço? Deixava que todo mundo entrasse? Ou não?

RD – O ateliê era um segredo para ele. Ele não deixava todo mundo entrar, não. Era o local sagrado.

JC – Por que tantas mulheres permeavam o imaginário do artista?

RD – São figuras pernambucanas, todas elas. Agora, não sei por que (risos). Ele gostava de mulher, gostava de vê-las, as apreciava, com certeza. Tem mulher, sim, mas muita paisagem de Pernambuco também, principalmente o mar, que ele achava verde e não azul. Ele falava muito desse mar verde de Pernambuco. Maravilhoso. E ele insistia muito para explicar que era verde, não azul.

JC – Uma outra marca do artista foi ver o mundo com um olhar infantil, de um menino de engenho que colocava a sua imaginação nos quadros. Esse olhar o acompanhou até o fim da vida?

RD – Sim, ele foi jovem até o fim da vida. Jovem e alegre, graças a Deus. Por isso que a vida com ele foi tão maravilhosa.

(© JC Online)

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