Notícias
 Ariano reedita o projeto armorial

Ariano Suassuna
 

Concerto com a Camerata Armorial, sob regência do maestro Rafael Garcia, marca retomada da política defendida pelo secretário de Cultura

JOSÉ TELES

A aula-espetáculo, O reino da pedra verde – Sagração nº 1, que acontecerá no dia 16, no Teatro Santa Isabel, com a participação do secretário de Cultura, Ariano Suassuna, e a Camerata Armorial, marca mais do que o retorno do grupo criado em 1996, durante a gestão anterior do escritor na mesma secretaria. Indica também a linha que será seguida nos próximos quatro anos: a valorização da cultura popular. Este foi o resumo da entrevista coletiva que Ariano Suassuna concedeu, ontem, no Teatro Arraial, ao lado dos maestros Clóvis Pereira e Jarbas Maciel, que tiveram papel atuante no movimento armorial, nos anos 70, e Rafael Garcia, regente da Camerata Armorial.

“A camerata foi cria de Rafael e a idéia do nome meu. Agora que retornei à secretaria pensei em iniciar a minha volta com o camerata, que ele reativou ao meu pedido”, disse Suassuna. No concerto inaugural, a Camerata Armorial executará peças clássicas dos primórdios do movimento, assinadas por Jarbas Maciel, Clóvis Pereira, e Capiba. “Indiretamente o maestro Guerra Peixe também estará no programa com Mourão. Esta música é composta por variações feitas sobre um tema de Guerra intitulado originalmente De viola e rabeca. Pedi autorização a ele para que Clóvis fizesse as variações, e para mudar o título, porque a melodia é igual ao mourão, uma modalidade da cantoria de viola”, explica Ariano Suassuna.

O secretário brinca que há três formatos de aula-espetáculo: plena, reduzida e reduzidíssima. A plena conta com ele, orquestra e bailarinos, a reduzida, com ele e dois músicos, e a reduzidíssima, apenas ele. O reino da pedra verde (título de uma composição de Clóvis Pereira) será plena: “Para isso convidei dois bailarinos Maria Paula Costa Rego e Gilson Santana. Ela faz balé contemporâneo, e Gilson não apenas balé popular, ele próprio é popular”, ressalta o escritor. Gilson é mais conhecido como mestre Meia-Noite, do Centro Daruê Malungo, na Campina do Barreto. Ariano Suassuna esclarece qual o propósito de não tratá-lo por Meia-Noite: “Ele é um grande dançarino, aqui em em qualquer parte do mundo. Decidi pelo Gilson Santana porque queria tirar qualquer conotação que pudesse despertar, nos menos avisados, algum tipo de preconceito. Eu sou da aldeia e conheço os caboclos”.

A aula-espetáculo será finalizada com uma parceria do escritor com o maestro Clóvis Pereira, na adaptação do motivo popular A briga do cachorro com a onça, comum ao repertório de todas as bandas de pífanos. Rebatizado de A onça, os guinés e os cachorros, a parceria consiste em música retrabalhada por Clóvis Pereira com a narração do texto por Ariano Suassuna.

Valendo-se de uma de suas tiradas espirituosas, o secretário comentou a incidência de pedras na sua obra, como uma “loucura de família”: “Tenho um primo, Saulo, que costuma dizer que na nossa família quem não é doido, junta pedra para o doido atirar. Ainda não endoideci, mas já comecei a juntar pedras”.

(© JC Online)


Rio revive experiência do Movimento Armorial

Em todas as terças-feiras de março, o CCBB carioca recebe a cultura popular

Beatriz Coelho Silva

Divulgação

Grupo Anima vai se apresentar no evento

RIO - Em 1970, o escritor Ariano Suassuna, preocupado com a perda das tradições populares da Paraíba (seu Estado natal) e de Pernambuco (Estado de adoção), criou o Movimento Armorial. Logo, músicos e artistas plásticos aderiram à sua idéia e começaram a mistura do erudito e popular em discos e exposições. A partir desta terça-feira, 6, e todas as terças-feiras de março, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) revive esse movimento, com concertos de seus principais nomes, sempre às 12h30 e às 18h30. O primeiro será com o Grupo Anima e o rabequeiro Mestre Salustiano, como convidado especial, enfocando os primórdios do movimento.

O Anima mescla música ibérica medieval com o cancioneiro brasileiro e usa instrumentos dos dois estilos, misturando cravo rabeca, flauta barroca e viola caipira. Já lançou quatro discos. O mais recente, Espelho, do ano passado, será a base do espetáculo. Já Salustiano é considerado o patrono do mangue beat e, segundo Suassuna, é a referência da cultura popular pernambucana. Aos 62 anos, comanda o grupo Sonho de Rabeca e também está no quarto CD, sempre com composições próprias. O mais recente é Mestre Salu e Sua Rabeca Encantada e vários temas estarão no concerto de amanhã.

Na semana que vem, o Grupo Gesta e o flautista e tocador pífano Egildo Vieira lembrarão as músicas do Quinteto Armorial, grupo criado sob a inspiração de Suassuna, que fez o primeiro concerto nos idos de 1970. Egildo era da formação original. Antônio Nóbrega é a atração do dia 20, com a aula/espetáculo Sol a Pino, em que aborda a formação do artista popular brasileiro. Ele também foi integrante do Quinteto Armorial, mas, a partir de 1976, partiu para uma bem sucedida carreira-solo, em espetáculos que misturam dança e música. A série fecha no dia 27, com o Quarteto Romançal, que vai na direção inversa do Quinteto Armorial, tocando música popular com instrumentos eruditos como violino, violoncelo e flautas.

Ariano Suassuna, que completa 80 anos em 2007, deve vir à estréia ou nas próximas terças-feiras, embora tenha assumido a Secretaria de Cultura de Pernambuco. Ele explica o movimento que criou. "O Armorial foi lançado com o objetivo de procurar uma arte erudita brasileira baseada nas raízes populares de nossa cultura", diz ele que em suas peças põe em prática essas idéias, com sucesso. Tanto que "Auto da Compadecida" é o texto nacional mais montado por grupos profissionais e amadores. Mesmo assim ele acha que é preciso mais atenção à cultura popular.

"Tentávamos lutar contra o processo de vulgarização e descaracterização que ainda hoje está em curso contra o nosso país e o nosso povo."

(© Agência Estado, 06.03.2007)

VÍDEO:

Quarteto Romançal - Repente

 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind