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Na cidade
suspensa, em meio ao sertão do Ceará, um festival de jazz e blues
que surpreende pela qualidade
Geraldo
Galvão Ferraz
Para quem não
conhece, é difícil de imaginar. A 110 km de Fortaleza, em meio ao
sertão do Ceará, levanta-se o maciço do Baturité e a 865 m de altura
fica a cidade de Guaramiranga (que quer dizer ou pau ou pássaro
vermelho, segundo cada time de lingüistas). Cercada por um resto de
Mata Atlântica, ela tem uma temperatura amena, com máximas de 25
graus e mínimas de 17. Isto não é uma informação solta: o clima
temperado dá à cidade um jeitão de cidade serrana em alguns
aspectos. Parte da cidade de 2.330 habitantes (população urbana)
decidiu viver numa Campos do Jordão ou Monte Verde cearense.
Entre as manifestações disso, há a vocação dos festivais, que vão
desde os de quadrilhas em junho ao de nordestino de teatro amador em
setembro. Em fevereiro, alguém resolveu deixar o carnaval lá embaixo
e fazer um festival de jazz e blues que aconteceu este ano, em sua
oitava edição, na versão serrana, durante o Carnaval.
Este ano, foi um festival bem mais blues que jazz. O grande astro
das quatro noites foi,sem dúvida, o bluesman Scott Henderson,o rei
da fusion entre funk e jazz, com um pezinho no rythm'n'blues e no
blues tradicional. O som do seu trio é pesado, envolvente e não
faltou quem sacudisse as cadeiras - as próprias e as 400 do teatro
Rachel de Queiroz -- com sua guitarra acompanhada pela bateria de
Alan Hertz e pelo baixo de John Humphrey. Henderson é um dos grandes
nomes do universo dos blues e arredores, tendo no seu currículo
atuações ao lado de Chick Corea,Jean-Luc Ponty e Joe Zawinful. É
impressionante seu virtuosimo na guitarra, da qual ele extrai mil e
uma variações.
Mas, com toda sua pirotécnia sonora, Henderson perdeu o pódio
popular para duas cantoras negras que, cada uma a seu jeito, falaram
diretamente à sede de entretenimento da platéia, devidamente
calibrada pela espera nos bares que cercam o teatro. Se permitem uma
digressão, em Guaramiranga se bebe muito vinho; os restaurantes têm
cartas bem razoáveis de garrafas italianas, chilenas, francesas,
argentinas e nacionais. É meio estranho ver tanta gente friorenta,
com gorros de lã, jaquetas de veludo, saias compridas, tomando os
citados vinhos, uísque ou até mesmo chocolate quente. Off-festival,
mas também na rua principal, uma moçada que veio acampar, se divide
entre o vinho barato, os amassos mais ou menos explícitos e, claro,
música. Heavy metal e funk.
Bem, de volta às cantoras. Uma delas é uma blueseira que já andou
por São Paulo e Rio, Big Time Sarah. Com o pé machucado, ela entrou
mancando no palco. Mas a impressão de vulnerabilidade sumiu
rapidamente. Bastou Big Time Sarah abrir a boca para a festa
começar. Na tradição de B.B.King e Buddy Guy, ela é uma entertainer.
Além de cantar divinamente com uma voz possante que evoca mais os
fundões de Louisiania ou do Mississippi do que sua Chicago natal,
Sarah está na primeira linha das grandes cantoras de blues como Big
Mama Thornton. Ela foi bem acompanhada pelo conjunto Blue Jeans, de
longa estrada nos blues brasileiros. Júnior Moreno, Marcos Ottaviano
e Andrei Ivanovic. Mas o que enlouqueceu o público foi Big Time
Sarah saracoteando no palco - ela tem as dimensões portentosas das
big mamas do Sul - e quando chamou cinco garotas da platéia para uma
rebolada coletiva. Mas se ela não fizesse nada disso, sua voz se
encarregaria de enlevar quem a estivesse ouvindo.
Big
Time Sarah e banda
A outra cantora, bem mais jovem mas igualmente corpulenta, foi
Eileina Williams. Numa noite que já havia mostrado o grupo cearense
Projeto Timbral que mostrou uma curiosa fusão de acordeom e um
sexteto de metais, tocando uma espécie de blues pé-de-serra (com
direito a inevitáveis citações de "Terra Seca"), e o grupo do
argentino Torcuato Mariano, radicado em São Paulo, que não
entusiasmara o público com seu som mais para iniciados, incorporando
uma batida latina que proporcionou aos seus músicos uma boa chance
de demonstrar competência, de repente surgiu uma diva.
Eileina Williams parece uma das grandes estrelas, Betty Carter,
Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald. No físico, nas origens gospel, até
pelo uso de uma voz privilegiada (que certamente ela ainda virá a
aprimorar). Brincalhona com o público, tem uma técnica afiada. Canta
standards com uma fluência notável. Willow weep for me se torna uma
música que ela parece cantar pela primeira vez entre todas as
cantoras. Já nos primeiros números, que incluiram uma versão
vigorosa de Black Coffee, o público reagia com entusiasmo. Assobios,
gritos, uivos e palmas, muitas palmas, saiam da platéia, que foi
levada à loucura, quando Eileina sustentou um longo agudo, enquanto
fazia a m[ímica de ficar olhando para o relógio.
Surpreendentemente, ela é ínglesa, nascida em Birmingham e rodou
pela Europa, fazendo backvocal para, pasmem, o lacrimoso cantor
italiano Zucchero. Aproveitando aqui e ali algumas chances,
apresentou-se ainda na Itália, fazendo show de abertura para a
cantora soul Giorgia. Casando-se, foi morar na Califórnia, onde sua
carreira pegou força. Encantada com a bossa nova, levantou a platéia
quando cantou "Wave", alternando a letra da versão de Ray Gilbert
para o inglês e a letra original, em português, de Antonio Carlos
Jobim. O número foi executado com a ajuda luxuosa de um pandeiro. Na
banda destacou-se um excelente pianista que, em um show mais
intimista no restaurante francês Villa Lautrec, teve a oportunidade
de mostrar sua competência. Eileina se arriscou ainda a nada usuais
duetos, ora com a bateria de Si Stefano, ora com o contrabaixo de
Paulo Pauleli O resultado: imperdível.
No mesmo restaurante, o violonista e cantor brasiliense Tico de
Moraes impressionou. Ele toca o repertório básico dos songbooks
americanos: I've Got you Under my Skin, S' Wonderful, coisas no
gênero. Acompanhado por violão elétrico (ele usou o acústico). É
muito bom como instrumentista, improvisando com eficácia em cima dos
temas. Mas quando canta, ele parece um clone do melhor Chet Baker
vocalista e conseguiu deixar o público mais interessado na sua
música do que nos pratos franceses do lugar.
Como em qualquer festival, há alguns destaques, embora sem o brilho
dos mais aplaudidos. No primeiro dia, houve o show de gaita
realizado por Robson Fernandes e a voz suave de Badi Assaf, com um
repertório que parecia mais apropriado a um concerto que a um show
de festival.No domingo, todo mundo estava esperando mesmo pelo show
de Scott Henderson. Derico e seu Sindicato do Jazz só atraíram mesmo
o entusiasmo da platéia quando o saxofonista fez umas gracinhas à
maneira das que apresentava no programa do Jô. Musicalmente, fizeram
um show eficiente, mas morno.
Além de Big Time Sarah e Blue Jeans, o encerramento teve uma ótima
performance do baterista cearense Ricardo Pontes, com vários
convidados locais. E como apoteose, Egberto Gismonti fez o seu show
de praxe. Com técnica apuradíssima, dividiu-se entre o violão e o
piano com o virtuosismo bem conhecido.Ao violão, foi bem acompanhado
pelo filho Alexandre, no violão de seis cordas, no que chamou de uma
viagem pela música brasileira. Alguns músicos gringos, na platéia,
aplaudiam entusiasmados, reverenciando um mestre.
No meio da cidade, isto é, da rua principal, ficam o teatro e uma
sucessão de bares e restaurantes. Lembra uma praça de alimentação
sem shopping. Um monte de mesas e cadeiras nem sempre abriga todo
mundo. A música também está lá. De um lado, garçons e faxineiras
festejam o fim do Carnaval; entre um salsichão e um steinhäger, o
som é disco com direito a um arremedo de globo de espelho que joga
reflexos multicoloridos para todos os lados. Do outro lado, num
palco minúsculo, uma banda dixieland de compenetrados senhores de
terno e gravata faz o povo dançar - tem até trenzinho - ao balanço
de When the Saints go Marching in e Down by the Riverside. Mas o
repertório inclui ora uma polca, ora um sambinha animado.
Quase às quatro da manhã, o trumpetista da banda, anônimo cidadão da
música que está a anos-luz dos cartazes do festival, está sentado
num canto da praça. Cercado de cadeiras e mesas vazias, com um boné
dos anos 30, ele fica ereto, olhando o vago, com o trumpete
brilhante no colo. É uma imagem que Fellini poderia ter filmado,
essa do sacerdote do culto a divindades como Robert Johnson ou
Louis Armstrong.
(©
Revista Cult) |