Um
dos grandes realizadores do Super8, Edgar Navarro estréia no
longa-metragem aos 56 anos
KLEBER MENDONÇA FILHO
O baiano Edgar Navarro é uma figura singular no cenário
brasileiro de cinema. Para começar, chegou ao seu primeiro
longa-metragem – Eu me lembro, que estréia no Recife
– aos 56 anos de idade. Antes disso, construiu uma reputação
incomum de cineasta autor com uma série de curtas-metragens tão
incríveis quanto incomuns nos anos 70 e 80, fase que culminou
com o média-metragem (45 minutos), tido como a sua obra-prima,
Superoutro (1989). Navarro chega intacto ao longa na sua
capacidade de escrever filmes como quem faz anotações pessoais
num bloco, filmando essas idéias em gritos de delicadeza.
Seu período de formação pessoal foi o final dos anos 60,
vivendo em cheio a década de 70, de onde surgiu fazendo cinema
em formato Super8, alternativa histórica e estética de expressão
cinematográfica que, aliás, viu no Recife um dos principais
pólos de produção do Brasil. Semana passada, ao vir de Salvador
para conversar com o público na pré-estréia de Eu me lembro,
no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, Navarro
lembrava do Festival de Cinema Super8 do Recife (na época,
organizado por Celso Marconi, Fernando Spencer e Flávio
Rodrigues), e perguntava “onde está aquele canhão?”
O tal canhão do exército, na época exposto pelos militares
nos arredores do Parque 13 de Maio, foi um dos personagens
principais de Exposed (1978), Super8 filmado por Navarro
durante sua estadia no Recife para o festival, e que ele
transformou em símbolo fálico militar carregado de discreto
escracho. Para Navarro, “aquele canhão gigante no meio da rua
denotava um exibicionismo patológico, uma profunda insegurança
dos militares em relação à própria virilidade. E, por extensão,
em relação ao poder que então exerciam.”
De fato, o elemento fálico é constante na obra de Navarro,
assim como a interessantíssima relação que temos com o próprio
corpo. Isso teve início com seu primeiro filme, Alice no país
das mil novilhas (1976, Super8), interpretação
baiana-cogumelo-pinkfloydiana da personagem de Lewis Carol,
pequena obra que traz o selo inconfundível da época que a fez. O
que dizer de O rei do cagaço (1977), onde o close-up de
um ânus estabelece uma imagem incomum, irreverente e
contestadora, sugerindo que o grande ato político ainda possível
é poder defecar.
Entrando nos anos 80, e numa tomada não muito clara de
“juízo”, Navarro faz Porta de fogo, que em outras mãos
seria apenas um curta de tom “histórico” sobre o cerco ao
guerrilheiro Carlos Lamarca, aqui unido a Lampião como dupla de
capitães no imaginário brasileiro-nordestino. No entanto, é em
1985 que ele faz um dos seus melhores filmes, retrato delicado
das tensões sociais do Brasil em Lin & Catazan.
Adaptado de texto de Chico Buarque de Holanda, temos um
pedreiro suicida de construção e o mestre da obra, incomodado
com a paz do subalterno. Um dos melhores curtas-metragens já
feitos no Brasil.
Superoutro permanece nas listas de muitos como um dos
melhores filmes brasileiros, ponto. Com esse aqui, o baiano
Edgar Navarro sela de vez a sensação de que seus filmes não
poderiam ter sido feitos por ninguém mais, num mix de comentário
ácido sobre a vida em sociedade, coragem para filmar a realidade
suja e ainda delicadeza ao abrir espaço para a alma humana.
Raramente se vê um filme com alcance tão grande, em seja lá que
filmografia.
EU ME LEMBRO – Tudo isso para chegar ao primeiro longa
de Navarro, que parece somar todos os filmes dele que vieram
antes, ao mesmo tempo em que o tom passa como algo tão
diferente. A diferença vem mais especialmente do bom acabamento
do filme, numa obra que sempre foi marcada por uma certa crueza
no tom e na imagem, provável reflexo de como o cinema tornou-se
mais tecnicamente desenvolvido via novas tecnologias. Claramente
influenciado por Amarcord (1973), de Fellini, e
pertencente à revisão de memórias afetivas filmadas de um
Fanny & Alexandre (1983), de Berman, Eu me lembro
existe como obra pela capacidade que Navarro tem de ser
duramente honesto consigo mesmo, e seu talento nato de filmar
como quem escreve.
Dividido claramente em duas partes (infância e idade adulta),
é a primeira que toma o espectador com uma crônica repleta de
detalhes pessoais que lhe trazem para dentro de uma família como
hóspede fascinado e também desconfortável daquele núcleo.
O fascínio vem de aspectos lúdicos, repassados por um
observador de como as pessoas funcionam, ou de como sua vida
preliminar foi. Especial destaque vai para questões sexuais na
infância, algo ousado e, ao mesmo tempo, puro, o que lembra o
trabalho dos Imãos Taviani, em Pai patrão (1978).
Na segunda parte, quando o alter-ego de Navarro (que ele nega
ser 100% ele, mas uma colcha de retalhos de muitos dele e de
outros) cresce e, no final dos anos 60 e início dos 70, descobre
as drogas, o amor e conflitos profundos que inevitavelmente
poderão soar como verdades muitas vezes já ditas na literatura e
no cinema. É como se Navarro estivesse tão envolvido com a sua
estória que esquecesse de olhar em torno para entender o que de
novo seria capaz de trazer. Talvez alguns concordem que esta
segunda parte cai bastante, com algo de um déjà vu, em especial
via iconografia psicodélica (revisitando Alice no país das
mil novilhas) que faz parte da cultura pop tanto quanto a
própria idéia de fugir de si mesmo através das drogas.