Pelo Fundo da Agulha é a conclusão da
trilogia de Antonio Torres iniciada há 30 anos com o contundente
Essa Terra
Paulo
Bentancur
Em 1976, Antônio
Torres publicava um dos mais contundentes romances da literatura
brasileira, Essa Terra (Record, 192 págs., 21ª edição, posfácio
de Vânia Pinheiro Chaves, R$ 26,90): a história elíptica, num
ritmo vertiginoso (apesar de retratar o Recôncavo Baiano, onde
se suporia uma condução narrativa arrastada), febril na sua
perturbadora condução e linguagem. Totonhim, o irmão mais moço,
recebe Nelo, vindo de São Paulo, onde este fora tentar a vida.
Parentes, amigos e vizinhos esperam que, mala aberta - uma só -,
o filho pródigo traga fortuna. Nelo, entretanto, foi, viu... e
perdeu. Carregando, na volta, insustentável bagagem (desemprego,
alcoolismo), não suportando a ausência de respostas que plantem
alguma esperança na terra seca dos conhecidos, o homem que
partira em busca de êxito enforca-se no retorno ao lar,
sentenciado pelo secreto fracasso. Isso já no primeiro capítulo.
E o romance termina com cena mais dramática, cinema puro, Brasil
puro. É o ritmo vertiginoso de um livro que, com Vidas Secas, de
Graciliano Ramos, e Os Ratos, de Dyonélio Machado, está entre os
mais tristes e convincentes da literatura como espelho da nossa
realidade.
Em 1997, com O Cachorro e o Lobo (Record, 224 págs., R$ 29,90),
Torres retomaria a história. Essa terra terminara com a decisão
de Totonhim, depois de pôr a mãe num asilo (incapaz de assistir
ao enterro do primogênito, tomada de surto psicótico) e deixar o
pai à própria sorte em sua precária lavoura, em ir para São
Paulo, tentar o que Nelo não conseguira. Foram necessários 21
anos para que essa espécie de anti-saga se impusesse ao
escritor. Um monumento ao contrário, uma trajetória feita de
impossibilidades, mas, por isso mesmo, a atingir uma intensidade
de realismo poucas vezes presente na nossa ficção. O Cachorro e
o Lobo retoma esse torturante vaivém. Totonhim, já passado dos
40, retorna para casa também 20 anos depois. Diferente do
emudecido e arruinado Nelo, porém, chega apenas de visita, para
comemorar, com três meses de atraso, o 80º aniversário do pai,
Antão. Antão Filho, o Totonhim, está casado, com filhos, e um
bom emprego no Banco do Brasil - embora a estabilidade não
exista e ele tema, sem revelar aos que dele se orgulham, uma
provável demissão em breve. Não saberemos do desfecho nessa
parte.
Essa continuação trata da visita de 24 horas - que parecem uma
semana. Totonhim, o cachorro (tratado assim pelo tom carinhoso
do pai, que usa a mesma palavra com os desafetos, com
significativa diferença na pronúncia) encontra uma cidade
habitada por fantasmas, os do passado (o irmão, cuja presença se
faz constante ainda na casa paterna; a mãe, separada, preferiu
ficar noutra cidade, ainda no Recôncavo Baiano, há uns 100
quilômetros dali) e gente viva que se arrasta no andar, no
falar, no agir, igualmente como mortos que apenas ainda
permanecem deste lado.
Totonhim redescobre a primeira namorada, Inesita, revive com ela
o encontro/desencontro, vital e inevitável, de uma relação que
não pôde dar certo. E um pai (o lobo) octogenário, vendendo
saúde, humor, e vítima de rumores sobre vício e esquisitices que
o filho não confirma. Ao contrário, frutos da distorção do afeto
da filha que mora longe e da curiosidade mórbida dos vizinhos
que o velho Antão não visita, as imagens emanadas no dia-a-dia
do ancião recluso (ainda que a testemunha filial tenha um prazo
exíguo para comprová-las) mostram uma imensa fome de vida e uma
fidelidade digna das memórias que o progresso, lamentavelmente,
atingindo terras mesmo ermas, enterra para sempre.
Em Pelo Fundo da Agulha, lançado há pouco, Torres afinal chega
ao desfecho de um pesadelo que levou três livros para ser
expresso. Talvez o maior pesadelo da ficção em língua
portuguesa. Se no primeiro romance o protagonista era Totonhim
(embora o irmão Nelo e seu suicídio, além da parte final do
romance, a mais marcante, a da mãe e sua fuga da realidade para
não viver a morte do primeiro filho, sejam a essência do livro),
no segundo, o pai e sua personalidade voluntariosa costuram uma
trama que merece exatamente esse nome, porque alinhavada com
esmero, quase elíptica não fossem recorrências e ecos musicais e
temáticos: constâncias do medo, da culpa, das perdas humanas, do
choque social entre uma São Paulo que é quase uma miragem e uma
Junco - cidade natal - que não cessa de enviar notícias,
imagens, febris mas reais (cidade fictícia, próxima a
Alagoinhas, esta real, a cerca de 100 km de Salvador).
Uma Junco desolada, povoado fantasma nos anos 1970; 20 anos mais
tarde, uma cidadezinha híbrida entre os costumes ainda vigentes
daquele tempo (a sentenciar, por uma moral implacável e por
falta de perspectivas econômicas, homens e mulheres), incapaz de
exumar suas vítimas do Vale dos Suicidas, e um território
suscetível aos abusos espoliativos da política pequena e do
progresso desigual. Dez anos mais tarde, no fecho da trilogia,
quando Totonhim se aposenta, cai numa região mais ignota ainda.
Se a mãe, com 85 anos (o pai, vivo fosse, teria 90), é capaz de,
numa visita sob a forma de despedida emblemática, mais desejada
que realizada, fazer uma linha passar pelo buraco da agulha
(como fazia há décadas, sem óculos), Totonhim nesse desfecho da
própria trajetória trafega - e a linguagem evocativa do
romancista contribui muito para isso - num não-lugar, que parece
ter sido sempre o habitado pela personagem, da juventude à
aposentadoria. Uma referência nunca cumprida, nunca legitimadora
(contra a qual é preciso lutar; a favor da qual não se deve
fugir).
Em Pelo Fundo da Agulha, sob a presença da mãe (como um Virgílio
conduzindo Dante no Inferno), sabemos afinal um pouco dessa São
Paulo e do casamento de Totonhim, quase nada mencionados nos
volumes anteriores. E chega-se ao ápice dramático: a confissão
materna das diferenças com o marido, da arte da persistência e
de um estratégico afastamento de um espaço cujo solo parece
servir mais para enterrar mortos que plantar sementes. A
depressão da aposentadoria cede a uma sutil esperança. Um tempo
renovado para que as culpas sejam substituídas por ações
“indenizadoras”.
PS.: A terra - nos três volumes, sobretudo no primeiro e no
segundo - parece sempre ser a mesma, quando a memória a evoca
como ponto de partida para uma, duas, tantas travessias de um
homem que, também, já não é o mesmo. Não, não se trata da mesma
terra. Nem a história poderia ser o desdobramento previsível de
um começo há três décadas. Por mais que ele sofra na ilusão de
estar chegando ao fim de uma única vida. Quantas existências
cabem em uma só? Tantas quantas forem as fendas abertas para as
saídas (ou fugas, ou recuperações), ou as agulhas para o
ingresso num novo espaço.
Paulo Bentancur é escritor, poeta,
crítico literário, autor
de Bodas de Osso e o recém-lançado A Solidão do Diabo, contos
(ambos editados pela Bertrand Brasil)
SERVIÇO
Pelo Fundo da Agulha, Antonio Torres, Record, 224 págs., R$
34,90