ARTHUR NESTROVSKI
ARTICULISTA DA FOLHA
Um argentino tocando berimbau? Pode parecer absurdo -para quem
não conhece o criador da "Berimbao Modern Orchestra" e não
escutou "Sudaka", lançado em 2003 (o DVD, ao vivo, saiu em
2005). Radicado na Bahia desde 1984, Ramiro Musotto toca um
berimbau que, a essa altura, não é mais de país algum: é um
berimbau todo seu, cruzando identidades com uma verdade própria
e solar.
"Civilizacao & Barbarye", seu segundo disco solo, abre com uma
faixa de berimbau. Ou melhor, vários berimbaus, cada um afinado
numa nota, de tal modo que a seqüência de toques produz arpejos
(acordes "dedilhados").
Tudo nasce do intervalo mais típico do instrumento, uma segunda
maior, correspondendo à corda solta ou tensionada do berimbau.
Só que aqui são dois acordes: um acorde menor (com sétima e
nona) e seu vizinho acima. Para além da estranheza timbrística
desse megaberimbau, a montagem dos acordes cria um efeito
ambíguo de tonalidade menor/ maior. E então, sobre esses
acordes, um outro berimbau "canta".
A ambigüidade do conjunto, construída com meios tão simples,
serve de emblema de outros recursos ao longo das faixas. São dez
cenas musicais, mais do que "canções" -sem desprezar os cantos
que se escuta do início ao fim, entoados por, entre outros, os
convidados Chico César e Arto Lindsay, e o coro de meninos
guaranis da aldeia Morro da Saudade.
Tudo isso, mais um rico arsenal de percussão, vem se nutrir de
um virtuosístico tratamento eletrônico, que gera ambiências e
contrapontos para a música de uma verdadeira orquestra
internacional de colaboradores, mais o conjunto Sudaka
essencial: Léo Leobons, Sacha Amback, Ramirito Gonzalo e Mintcho
Garramone.
Ambiente original
O resultado é um ambiente sonoro original, que conversa com a
produção latino-americana de ponta. Em especial, é a América
negra que aparece no coração da música, irrigada de sangue
musical nordestino e abrigando ainda o samba e o choro.
O que amarra tantas referências, num disco todo tramado é uma
pauta política de resistência, que abre espaço para uma fala do
subcomandante Marcos e narrativas do bando de Lampião. As
referências são cruciais para o projeto estético libertário de
Musotto; se correm o risco de virar efeito, por outro lado
acenam com uma pertinência de propósitos que reforça o empenho
da empreitada.
Mas é a força da música, afinal, que sustenta tudo. E essa força
fala mais do que os discursos: nessa música, composta com tanto
engenho a partir de elementos tão simples, o que faz ouvir,
afinal, é um convincente, afetuoso "sim", contra tudo que nos
diz "não" na barbárie e na civilização.
CIVILIZACAO & BARBARYE
Artista: Ramiro Musotto
Gravadora: Los Años Luz (www.laldiscos.com)
Quanto: R$ 20, em média