Na capital mais violenta do
País, comunidade faz dos tambores o seu instrumento de combate
Flávia Guerra, Recife
Alto José do
Pinho, Recife, Pernambuco. Maracatu. Maracá, tu. Maracá, catu. Marã
catu. Maracatu atômico. Leia-se ‘mexa-se, você’, chacoalhe, deixe se
conduzir pelo maracá, pelo balanço deste instrumento de percussão
secular. Deixe-se perder no marã catu, a ‘guerra bonita’ das alfaias,
dos gonguês, dos abês. Neste ano, Recife celebra os 100 anos do Frevo,
mas no Alto José do Pinho, quem reina é o baque virado da Nação Estrela
Brilhante. Baque de quê? Virado, uma das toadas clássicas do maracatu
nação, o estilo urbano deste ritual que nasceu no Brasil colônia.
Primeiro nas senzalas. Hoje nas comunidades, nas favelas , no asfalto.
Alto José do quê? Do Pinho, bairro carente da zona norte da capital mais
violenta do Brasil, segundo dados oficiais.
Como já dito, periferia é periferia. E o Alto José do Pinho não é
diferente. Lá no alto ‘tem afoxé, tem punk, tem a p.... do pagode. O que
está faltando é hardcore’, diriam os roqueiros pernambucanos do Devotos,
que nasceram e cresceram no bairro. O Alto também rap. Também tem o seu
Brown. Mas aqui ele não é Mano. É Zé Brown. Irmãos de rap, de cor, de fé
e de perifa. Na terra destes rappers que cresceram na nação maracatu,
também está faltando escola, hospital, rede de esgoto, reboco nas casas,
uma mão de tinta, leite em pó, pó-de-café. Coração valente falta não. No
Alto, punk é o dia-a-dia de quem se esgueira pelas quebradas deste que é
um dos bairros mais carentes do Recife. Hardcore é o baque virado das
alfaias dos garotos que nasceram e cresceram sem embarcar em Boa Viagem.
Por isso, maracatu, frevo, punk rock, hardcore, sabe onde é que faz? Lá
no Alto José do Pinho, diriam novamente os Devotos (que já foram Devotos
do Ódio e hoje dedicam sua devoção à música e aos projetos de mudar seu
próprio mundo).
Então, na terra das sinergias, em uma tarde, seja ela uma terça-feira de
carnaval, seja uma tarde qualquer, dê ouvidos a Brown, o Mano paulista,
e comprove mais uma vez que um rolê pelo fundão é fundamental. Vá ver o
Nação Estrela desfilar pelo bairro onde nasceu. As capitais brasileiras
divergem. Mas suas entranhas professam uma estranha comunhão. Se as
riquezas são diferentes, miséria é miséria em qualquer canto. No Alto
José do Pinho, a pobreza se faz presente mais um vez nos intestinos
expostos de uma sociedade que não digere seus excluídos. Já a riqueza,
esta manda recado nas loas da Nação Estrela Brilhante. Nação, sim.
Maracatu não é banda, não é grupo, não é agremiação, não é escola. É
nação que professa suas leis seculares em um País mais atento às leis de
mercado. Esta nação tem rei, tem rainha, tem as damas da corte, tem
sentinelas e tem rituais. Num misto de dança, transe, religião, cultura
e batuque, as nações de maracatu portam o estandarte do que de melhor a
cultura popular brasileira pode produzir em terrenos áridos e,
aparentemente, inférteis.
Trazido para o Brasil pelos portugueses, que se inspiraram na tradição
do Rei do Congo, o ritual do maracatu reunia ‘os agrupamentos tribais’,
que eram chamados pelos colonizadores de nação. Era uma forma eficaz de
controlar a balbúrdia entre os ‘infiéis’ (os escravos) e criar
lideranças, que nasciam nas figuras dos Reis e Rainhas coroados pelo
maracatu nos pátios das seculares paróquias de Nossa Senhora do Rosário
de de São Benedito. A tradição acabou sendo adotada pelos negros e até
hoje as rainhas e reis se reúnem em frente à Igreja do Rosário, no
Recife Antigo, para professar o ritual da Noite dos Tambores
Silenciosos, ponto máximo de um carnaval multicolorido, tão fértil
quanto o mangue que abriga os ecossistemas diversos do Recife.
As estrelas do Alto José do Pinho são seus batuqueiros, suas
bordadeiras, suas damas-faxineiras, ambulantes-batuqueiros. A estrela
brilha no alto, com vista para o mar de casas de gente humilde. E dá
vontade de chorar.
A sede da nação? Uma casa, um improviso, o coração dos batuqueiros. Na
rua 21 do Alto José do Pinho, a rainha Marivalda se espreme entre as
araras que guardam o mofo e as fantasias desbotadas de seu povo. Na
mesma viela, que ostenta nos poucos muros rebocados os mesmos branco e
azul, as cores oficiais do Estrela Brilhante, mora o batuqueiro Pitoco,
jovem maestro de 19 anos. Ele é quem guia a repórter pelas escadinhas da
viela onde se sentam os outros batuqueiros que aguardam a hora de
‘formar para tocar’. Sorri encabulado, num misto de orgulho e
desconcerto, como quem diz “não repara na bagunça”. Mas a bagunça se fez
na vida de Pitoco há menos de três meses. Pitoco e Jonatan, o filho da
rainha Marivalda, enfrentavam a empreitada de ensinar maracatu para
galego paulista ver. Foi exatamente quando já haviam aprendido que o sul
maravilha não era tão maravilhoso, que a Vila Cisper fica muito distante
da Vila Madalena e que no meio há a Ipiranga com a São João, que Pitoco
teve de voltar às pressas. Nascera Julia, sua primogênita. “Sabe não?
Julia tá bem. Mas eu tive de voltar foi por outro motivo, visse? Seis
dias depois dela nascer, mãe de Julia se foi”, conta ele, com um olhar
perdido entre as alfaias, regendo um desconcerto em revelar sua dor com
um sorriso político no rosto. A notícia gela a alma. Morreu? Como?
“Infecção hospitalar. Ela foi ter a nenê. Adoeceu. Güentou não. Morreu.”
Como se morre no Brasil? Morre-se de descaso, de amor, de desgosto.
Pitoco agora rege as alfaias e as mamadeiras. E tenta reger seu destino
em um mundo de almas sebosas, coladas num incessante baque de parada,
que entorpece e faz arrepiar.
Entorpecente e arrepiante foi a chegada do crack ao Alto Zé do Pinho.
“Vixi, moça, a coisa tá arretada. As meninas nova se vendendo por uma
pedra. Os muleque nas esquinas. Tudo alma sebosa. Tudo se perdendo”,
confidencia um batuqueiro. “A gente tenta, mas fica difícil tirar os
meninos do tráfico. A gente dá um abê, um gonguê, um caixa, bota a
vasilha na mão pra ver se tem jeito.”
E quem leva jeito no batuque ganha uma nova casa. Mais que a vasilha,
como alguns batuqueiros chamam a alfaia, ganha uma nação. E um novo pai.
Ele é mestre Walter, mentor, maestro e gênio criativo das melodias e
letras que já deram ao Estrela o título de melhor Nação de Maracatu do
Recife em outros carnavais. “Cheguei, cheguei. Cheguei pra vadiar. Sou a
Nação Estrela. Não prometo pra faltar”. A caixa chama. As alfaias rufam
num único compasso, os gonguês se assanham. A pequena multidão saúda
Juventina e Erundina, as bonecas protetoras do Estrela. “Os tambores
acariciam a noite. Sinhá Marivalda acordou. E o estandarte do estrela
chegou. Bravos guerreiros que dançam com a ira da dor. Luz nas
escadarias do morro. O estandarte do Estrela chegou. Eles descem o morro
de branco. Pra sambar maracatu. Salve o Rei. Salve a Rainha.” O maracatu
do Estrela Brilhante pesa uma tonelada.
O peso da realidade também cai sobre a comunidade. As faces e as lajes
do subúrbio. Impossível dar de ombros após uma tarde lá no Alto. E não
tem batuque que baste para os vermes que corroem as encostas dos morros
brasileiros. Em cada esquina, uma história diferente. Em cada esquina,
um menino sentado, sentinela de olhar atento. “Os menino? Tudo de butuca
nas esquinas...” Ao percorrer as vielas, a repórter tira os óculos
escuros pra olhar nos olhos deles, baixa a cabeça e passa. “Bom dia,
moça”. Cafuçus lindos de morrer. Morrendo na mão da bandidagem. Como é
triste de olhar, diriam os meninos do Faces.
Mas como é bonito de ver o batuque estremecer as estruturas. Quisera
abalar as estruturas estabelecidas. “Quer saber moça galega, os menino,
de arma na mão, olham pra mim e dizem: Sabe que se tivesse emprego, tava
aqui não. Apaziguava”, confessa um rapper descolado na quebrada. Então o
que falta?
Força não falta. O olhar paulista evoca Euclides da Cunha e sentencia: O
pernambucano é, antes de tudo, um forte. E num misto de Juca Pirama,
entoa, mesmo que sem saber, ‘sou bravo, sou forte, sou filho do norte.”
Meninos, eu vi. Meninos à toa na vida que também se espremem numa
esquina da praça principal do Alto para ver não a banda, mas a nação
passar. “Ô moça, tira foto do meu amigo ali. Ele é da minha sala. Ele tá
tocando a alfaia. Espia só.” E você, por que também não toca? “Levo
jeito não. Prefiro o rap.” Procede. Afinal, muito antes do
norte-americano inventar o gênero, o cordel nordestino já professava o
casamento perfeito entre o ritmo e a poesia de suas esquinas.
Ermenegildo, o garoto, só quer andar nas ruas. Seja de Peixinhos (bairro
temido e berço de artistas em Olinda), seja do Alto José do Pinho. Almas
graciosas, almas sebosas. Filhos do leão do norte. Alguns raramente
descem até o asfalto do Recife Antigo, que recebe as principais
atrações, e os turistas, do carnaval e da cena multicultural do Estado.
Nem os asfaltos sobem até o Alto José do Pinho. Enquanto o Estrela não
bota o bloco na rua, o boteco da esquina entoa um enjoativo Lapada na
Rachada. Nunca ouviu falar? Pense numa lapada! Pense num forró cheio de
fuleragem. O cheiro de queijo coalho barato derretendo na chapa quente
divide o espaço com o forró e o bacon mal passado na longa espera pelo
cortejo do Nação Estrela pelas ruas lá do alto.
O cortejo, que passaria às quatro da tarde, aparece na esquina já de
noitinha. Bidu Queiroz, cineasta, embaixador e anjo da guarda em uma
terra em que a credencial é o respeito que se conquista e as amizades
que se cultivam, sopra os segredos de sua terra pacientemente nos
ouvidos paulistas ansiosos por sentirem o tremer das alfaias. “Tem
pressa não. Este pessoal vai tocar daqui três horas e olhe lá. Mas para
ver a nação em seu terreno, vale a espera.” Queiroz tem razão. E tem
mais samba nesta espera no alto do morro do que na arena montada em
qualquer outro asfalto com infra-estrutura para inglês ver. O Estrela no
Alto Zé do Pinho? Tem que ver para saber.
Para ajudar a suportar o calor da gota que abate a espera, uma
tentativa: “Tem refrigerante light?” “Tem não, senhora”. Nada é light
nesta terra dos engenhos de cana-de-açúcar. As marias bonitas
serpenteiam no bloco de frevo que abafa o som do tal boteco da esquina.
O calor abafa os pulmões. Umidade, cheiro de cimento exposto nos rebocos
desleixados. Lança-perfume no cangote da vizinha. “Valha-me Deus!”,
diria um turista nada ambientado. Para refrescar, na Barraca do Bom
Jesus, tem picolé e cremosinho. “Temos Gelo. E Deus no coração.” Deus é
fiel. E o batuqueiro também. Devotos, em todas suas faces. E,
finalmente, o Estrela passa. Cadente. Num compasso ritmado. “Mais palmas
para nossa comunidade!”, pede Mestre Walter, prontamente atendido. Quem
segura o porta-estandarte tem arte, tem arte. Quem segura o baque do
Alto José do Pinho, também. “Juventina, Erundina, não deixe o tambor se
calar.”
No carente e efervescente bairro da zona norte
recifense, é o baque do Estrela Brilhante quem dá a toada de um dos mais
ricos ritmos brasileiros, que já foi visto com preconceito e hoje é um
dos responsáveis pelo resgate do orgulho da música pernambucana.
(©
Agência Estado)