O
escritor e professor lotou o Teatro Santa Isabel no espetáculo inaugural
de sua nova gestão à frente da secretaria de Cultura do Estado,
reafirmando sua convicção estética
JOSÉ TELES
O escritor e professor Ariano Suassuna pode até ser conservador,
mas não é nem um pouco convencional. Tumulto na entrada do teatro (onde
trombavam convidados e pessoas que haviam pego os ingressos na
bilheteria e outras tantas que queriam entrar, mas não tinham convite),
crítica aberta na platéia, sessão de autógrafos improvisada para
crianças, citação de uma música da banda Calypso (sic), e um atraso de
quarenta minutos. Tudo isto teve a aula-espetáculo No reino da Pedra
Verde (Sagração nº 1), com a qual ele deu início à sua
segunda gestão à frente da Secretaria de Cultura, do governo do Estado,
sexta, à noite, no Teatro de Santa Isabel.
Na platéia, o governador Eduardo Campos (que chegou meia hora
atrasado, retardando o início da apresentação), o secretário de Cultura
do Recife, Roberto Peixe, o rabequeiro Mestre Salu, muitos admiradores e
uma única voz discordante. Um rapaz, não identificado, que de uma das
frisas chamou o secretário de “simplista”, depois que este tachou de
“imbecil” o autor da composição Pra me conquistar (Chimbinha), da
banda brega Calypso, que usou (declamando o refrão) como exemplo de
música de má qualidade, instrumento da “vulgarização e descaracterização
da cultura brasileira” que o Movimento Armorial procura combater.
Ariano Suassuna, imperturbável, retrucou: “Quando uma coisa é branca
digo que é branca, quando é preta digo que é preta”. Mais tarde
reafirmaria que não pretende implantar o armorial no governo, mas que o
rapaz discordante deveria procurar outra secretaria (no caso, a
Fundarpe) se por acaso tivesse algum projeto.
Com a Camerata Armorial e o maestro Rafael Garcia no palco, o
secretário, falou por meia-hora (“Falar muito é uma coisa que eu e Fidel
Castro temos em comum”, brincou). Explicou pela enésima vez e fez a
exegese do Movimento Armorial, elogiou os dois companheiros de movimento
que se encontravam numa das frisas, os maestros Clóvis Pereira e Jarbas
Maciel. Citou matéria recentes de jornais sobre ele e o movimento que
idealizou, lembrou que há exatos 60 anos, esteve ali naquele mesmo
teatro para ocupar um cargo de secretário de cultura, aos 19 anos:
“Desde então assumi não apenas um cargo, mas a defesa da cultura
brasileira”, afirmou.
VIVO E BULINDO – Contra aqueles que se manifestam dizendo que
o Movimento Armorial não existe mais, apresentou vários CDs de artistas
e grupos do Sudeste que se valem de elementos armorialistas (Anima,
Gesta, o violeiro Roberto Correa, entre outros), e reforçou a asserção
apresentando alguns volumes de teses sobre o movimento defendidas, em
universidades européias e dos EUA.
O concerto da Camerata Armorial (formada por jovens músicos do Centro
de Criatividade Musical, na Rua da Aurora), passeou por meia dúzia de
peças que foram apresentadas, há 37 anos, no Pátio de São Pedro, pela
Orquestra Armorial, no concerto que deflagrou o movimento. A gênese de
cada composição foi explicada de forma didática pelo secretário. No
Reino da Pedra Verde, por exemplo, de Clóvis Pereira, foi baseada
num aboio do repentista Zé Vicente da Paraíba. Sem lei nem rei,
de Capiba, é título de uma obra de Maximiano Campos (pai do governador
Eduardo Campos). O bolero, de Capiba, teve a participação dos
bailarinos Maria Paula da Costa Rêgo (do Grupo Grial de Dança), e Gilson
Santana (do Daruê Malungo), que fazem parte da equipe da secretaria de
Cultura). Apesar de a coreografia ter sido feita num espaço exíguo, a
dupla foi bastante aplaudida, e depois cumprimentada, com beijos nas
mãos por Ariano Suassuna, que pela primeira vez levantou-se da mesa,
forrada de cambraia, onde permaneceu sentado durante as mais de duas
horas da aula-espetáculo.
A onça, os guinés, e os cachorros, texto inédito, que Suassuna
leu pela primeira vez em público apresenta, em forma de parábola,
esquemática, o seu ideário. Lido, com música incidental de Clóvis
Pereira, cujo leit motiv é A briga do cachorro com a onça,
tradicional tema dos ternos de pífanos. Cangati, o vira-latas, com cuja
ajuda é capturada a onça, que comia os guinés da fazenda, é o mesmo João
Grilo do Auto da Compadecida, que representa o Brasil real. O
pedante e frouxo cão de raça, Twinkle, metáfora dos integrantes do outro
Brasil.
Depois da leitura do texto, que acaba com um “Para a grandeza do povo
brasileiro, agora e para todo o sempre, amém”, Ariano Suassuna declarou
a aula por encerrada, e sua gestão por iniciada, sob aplausos da
platéia, que lotou o vetusto teatro.
(©
JC Online)
Movimento Armorial inicia uma nova
fase
Escritor
Ariano Suassuna inaugura oficialmente sua nova gestão como secretário
estadual da Cultura com uma aula-espetáculo inédita, em noite repleta de
simbolismo
JOSÉ TELES
No Reino da Pedra Verde, a aula-espetáculo que o
secretário de cultura Ariano Suassuna ministrará, hoje,a partir de 20h,
no Teatro Santa Isabel, com a Camerata Armorial, e os bailarinos Maria
Paula Costa Rêgo, e Gilson Santana, está cercada de todo um simbolismo.
É, como diz o secretário: “Ao mesmo tempo uma prestação de contas do
trabalho anterior e uma retomada, para a gente partir para a nova fase
do trabalho da secretaria”. É igualmente a sinalização para a linha
estética que ele implantará nesta gestão: a do projeto armorial. É,
pois, emblemática sua opção pelo renascimento da Camerata Armorial,
regida pelo maestro Rafael Garcia, que milita desde os anos 70 nas
hostes armoriais.
O grupo foi criado em 1996, quando Ariano Suassuna exercia a função
de secretário de Cultura no governo Miguel Arraes. “Rafael Garcia
trabalhou conosco no início do Movimento Armorial, como violinista.
Juntamente com ele, fundamos a Camerata Armorial, que era integrada,
principalmente, por jovens músicos do Centro de Criatividade Musical.
Tivemos juntos a idéia da camerata, criada por ele, batizada por mim.
Agora, quando retornei à secretaria, pensei em iniciar oficialmente meu
trabalho com um concerto da camerata. Garcia, ao meu pedido, reativou o
grupo, com os músicos de que dispunha”, explica Suassuna. Não menos
emblemático é o repertório da aula-espetáculo, formado por composições
de armorialistas de primeira hora, até hoje fiéis defensores dos
princípios estéticos formatados pelo autor de O auto da Compadecida,
como Clóvis Pereira e Jarbas Maciel, e mais peças de autoria da primeira
geração do movimento, de Capiba e do maestro Guerra Peixe, cujo tema
De viola e rabeca, foi rebatizado de Mourão, com variações
sobre a composição original feitas pelo maestro Clóvis Pereira.
De Capiba, entra no programa o Bolero, com uma coreografia da
qual participam os bailarinos Maria Paula Costa Rêgo e Gilson Santana,
mais conhecido como Mestre Meia-Noite, diretor do Centro Daruê Malungo,
na Campina do Barreto (onde Chico Science descobriu a inspiração para
sua nada armorial mistura de ritmos): “Fiz muita questão de, na primeira
aula-espetáculo, colocar uma grande dançarina e coreógrafa que tem
origem na dança contemporânea, Maria Paula, que sempre foi ligada ao
Movimento Armorial. Ela está procurando harmonizar a dança contemporânea
com a dança popular. Ao mesmo tempo, para mostrar que não temos
preconceito nenhum, convidamos um grande dançarino, Gilson Santana. Ele
não é um grande dançarino popular não, é uma grande dançarino de origem
popular”, explica Ariano Suassuna.
Ele também interferiu no visual da aula-espetáculo: “Queria que a
primeira aula-espetáculo na secretaria tivesse uma coerência. Pedi a meu
amigo Ricardo Gouveia de Melo, um programador visual, profundamente
ligado ao Movimento Armorial, e ele teve o cuidado de criar uma
tipografia armorial, que usou neste título das edição dos 50 anos de
O auto da Compadecida, e usou neste outro livro Encourados
(de Adriana Victor e Geyson Magno). Uma tipografia baseada nos ferros de
marcar bois”. Os desenhos do programa são de Guilherme da Fonte, artista
plástico também armorial, que trabalha com mosaico (é autor dos mosaicos
que decoram o piso do térreo do Paço Alfândega).
A aula-espetáculo de hoje termina com A onça, os guinés e os
cachorros, composto de música (do maestro Clóvis Pereira) e
narrativa (de Ariano Suassuna): “Foi uma pesquisa que fizemos com os
ternos de pífanos. Nestes grupos folclóricos acontece um fato muito
comum: é que cada grupo tem um certo número de músicas que todos
executam. Todos eles dizem que são os autores, e que aquela versão que
eles apresentam é a legítima, todas as outras são falsas. Mas eu já
peguei inúmeras, e é sempre a mesma coisa, uma tradição que vem de
séculos, a gente jamais sabe quem terá sido o criador”, continua Ariano
Suassuna.
Por fim, o secretário tranqüiliza os que possam supor que o armorial
irá pairar onipresente sobre a cultura pernambucana em sua gestão: “Aqui
fizemos uma secretaria de propósito pequena. Aqui temos, digamos, aquilo
que nós gostaríamos que fosse. Acontece que o governo não é formado
apenas por pessoas que gostam de Clóvis Pereira, Ariano Suassuna ou
Jarbas Maciel. O governo é uma coisa muito mais ampla. E então
combinou-se o seguinte: a Fundarpe se encarregaria desta outra parte, é
gestora do Funcultura, e atenderia as pessoas que têm outros gostos,
outras posições”. Na próxima semana, Suassuna deve convocar coletiva
para anunciar todos os nomes que formarão sua equipe na secretaria.
No Reino da Pedra Verde, aula-espetáculo do secretário de cultura
Ariano Suassuna, com a Camerata Armorial, bailarinos Maria Paula da
Costa Rego e Gilson Santana. às 20h, no teatro Santa Isabel, na Praça da
República s/n. Entrada grátis. Outras informações: 3423.3186
(©
JC Online, 16.03.2007) |