Diretora quer mostrar que Cabaceiras tem mais a oferecer do que o
cenário para filmes que retratam um Nordeste árido e atrasado
KLEBER MENDONÇA FILHO
Um dos filmes que poderá gerar relevante discussão na próxima
edição do Cine PE, que acontece no próximo mês, vem da vizinha Paraíba.
Cabaceiras (2007, 15 mins.), primeiro filme de Ana Bárbara Ramos,
foi selecionado para a competição nacional de curta-metragem 35mm do
festival pernambucano, e lá terá a sua estréia. Com clara inquietação e
senso crítico, questiona uma certa identidade cultural confirmada
repetidamente em relação à imagem do Nordeste e, por tabela, da idéia de
ser nordestino. O foco é o cinema e a personagem principal é a
localidade de Cabaceiras, no Sertão paraibano, que virou espécie de
cenário favorito do cinema e TV brasileiros quando o assunto é retratar
o Nordeste dentro da sua imagem folclórica.
Ana Bárbara, que é jovem e mora em João Pessoa, faz parte de uma
geração que não aceita tão positivamente a idéia de uma representação
monocultural que há muito é discutida, especialmente na área de cinema.
Da mesma maneira que esperam-se filmes urbanos de São Paulo, há uma
tendência (que já se dissipa, felizmente) de se esperar filmes com
cabras e chão rachado do Nordeste, idéia estabelecida logo na abertura
do filme, onde um jornal televisivo de abrangência nacional anuncia que
“em Cabaceiras a grande estrela é o bode”.
Essa questão da representação via cinema e TV é um tema quente para
observadores mais atentos da produção audiovisual. Num mundo onde a
globalização consiste de os grandes enviarem informações massificadas
para os pequenos (e quase nunca no sentido oposto), um filme como
Cabaceiras tenta questionar este sistema de representação que vê no
lugar, localizado no chamado Cariri paraibano, e com 4.275 habitantes,
um estúdio a céu aberto, ou uma “roliúde nordestina”.
O curta-metragem lida com o que alguns vêem como a realidade, outros
como a projeção de estereótipos para exportação via imagem, algo que
pode ser sentido na forma como, por exemplo, uma novela feita no Sudeste
retrata o Nordeste, ou como um filme americano refere-se ao Brasil, vide
o recente Turistas, obra de terror onde estrangeiros perdiam
órgãos vitais (sem anestesia) em praias paradisíacas brasileiras.
Em entrevista ao JC, Ana Bárbara nos disse que “nos últimos
nove anos, Cabaceiras transformou-se na locação perfeita para se falar
de um Nordeste rachado pelo sol”. É uma idéia bem tradicional de
Nordeste, que ignora o lado urbano da região e mesmo as mudanças que tem
sacudido esse cenário social e cultural.Sem entrar nos méritos ou
deméritos das obras, ela cita os filmes São Jerônimo (RJ, 1999),
de Júlio Bressane, Eu sou o servo (PB, 1998), de Eliézer Rolim,
O auto da Compadecida (RJ, 2000), de Guel Arraes, Viva São
João! (RJ, 2001), de Andrucha Waddington, Tempo de ira (RJ,
2003), de Gisella de Mello e Marcélia Cartaxo, Madame Satã
(20022), de Karim Aïnouz, Cinema, aspirinas e urubus (PE, 2005),
de Marcelo Gomes, Canta Maria, (SP, 2006, Francisco Ramalho Jr),
e Romance (2007, em produção), de Guel Arraes, todos filmados em
Cabaceiras e que abordam temas como o cangaço, a seca, a pobreza e o
folclore. “Com as exceções de Bressane e Waddington, os filmes retratam
um Nordeste que parou no tempo, até 1940 – Tempo de ira se passa
em dois momentos: 1940 e 1970 –, enfocam as secas que assolaram a
região, a idéia de que sair é a melhor solução”, observa.
A realizadora aponta que “o povo de Cabaceiras gosta muito desse
assédio cinematográfico, é motivo de orgulho ser locação constante, com
a presença de atores globais na cidade. A prefeitura faz a sua parte,
apoiando os que querem filmar”, continua Ana Bárbara, lembrando ainda
que o cinema movimenta financeiramente a localidade. Um dos personagens
entrevistados no filme, Paulinho de Cabaceiras, diz que “a indústria do
cinema retrata a indústria da seca para obter benefícios próprios”,
sugerindo simetria entre o antigo sistema de perpetuar a idéia de
flagelo subsidiado, nesse caso relacionado à representação filmada da
pobreza.
Cabaceiras foi realizado com dinheiro do Ministério da
Cultura, e rodado com uma câmera Panasonic 24p. “O projeto mudou muito
da idéia inicial. Antes pretendia entrevistar os diretores dos filmes
(fiz entrevistas por telefone), os figurantes e moradores, talvez
colocar a voz de Durval Muniz, nosso guru e origem da idéia pro filme a
partir do livro A invenção do Nordeste e outras artes. Depois,
optei por me concentrar num pequeno grupo de personagens e tirar os
diretores.
ROLIÚDE – Curiosamente, o projeto Roliúde nordestina
que está sendo implantado com apoio do Banco do Nordeste, Ministério da
Cultura e Saelpa (companhia de energia elétrica) trabalha no lado oposto
do retrato crítico apresentado pelo filme Cabaceiras. Criado pelo
professor aposentado da UFPB e cronista do cenário cinematográfico
paraibano, Wills Leal, Roliúde nordestina prevê estabelecer
Cabaceiras como locação definitiva de filmes que precisem dos cenários
naturais da localidade, “que tem o menor índice pluviométrico do
Brasil”, como bem informa Leal, “perfeito para filmar”.
Idéia semelhante levou a indústria do cinema nos EUA a Los Angeles,
na Califórnia, no início do século 20. Para selar a referência, uma
placa será inaugurada em Cabaceiras no próximo dia 5 de maio medindo,
segundo Leal, 80 metros de comprimento por cinco de altura, reproduzindo
as palavras “Roliúde nordestina”, alusão à famosa placa “Hollywood”
instalada nos morros de Los Angeles.
Orçado em cerca de R$ 400 mil, o projeto prevê não apenas uma sede
(no extinto Cine Ideal, da localidade), mas também a preservação,
documentação e análise dos filmes feitos em Cabaceiras. “Queremos também
criar condições reais para os que quiserem filmar na região e estudar as
temáticas do cinema nordestino, do folclore e da história”.
Leal, que tem também a função de “consultor turístico”, informa que
faz parte do projeto ainda a iniciativa “Seja artista por um dia”, que
objetiva estimular o turismo através do cinema. “Vamos encenar cenas
famosas de filmes feitos em Cabaceiras com figurantes da cidade. Algumas
pessoas já trabalharam em dez filmes seguidos”, diz.
(©
JC Online)
Dilema “regionalista” aflige quem
faz e assiste cinema
Dez anos atrás, Baile perfumado, filme de Lírio Ferreira e
Paulo Caldas, ficou pronto, e muita gente achou interessante um
aspecto específico da obra. Com ação na caatinga e temática
“cangaço”, a paisagem filmada, na verdade, mostrou-se verde
florestal, e não o seco amarelado que alguns esperavam. O filme, com
trilha pop para ação ambientada nos anos 20 e 30, retomava a idéia
de um cinema feito Em Pernambuco depois de 18 anos sem um longa, foi
um ponto de partida para representações que têm sido curiosas
naquilo que se espera de um cinema dito “nordestino”, ao longo dos
últimos dez anos, nesta filmografia pernambucana.
Do Baile perfumado ao mais recente Deserto Feliz,
este também de Caldas, passando por Amarelo manga e Baixio
das bestas, de Cláudio Assis, Árido movie, de Ferreira,
Orange de Itamaracá, de Franklin Jr., e O rap do pequeno
príncipe, de Caldas e Marcelo Luna, percebe-se um desprendimento
para com essas amarras estéticas e temáticas que anexariam os filmes
a uma certa escola regionalista, algo bem mais recorrente no cinema
do Ceará, ou mesmo na Bahia.
Temáticas podem ser locais, mas os tratamentos geralmente não
são, e isso inclui Cinema, aspirinas e urubus, de Marcelo
Gomes, que contém seca, flagelados e caatinga, filmado quase todo na
Cabaceiras registrada no curta metragem de Ana Bárbara Ramos. É o
filme mais “regional” da leva pernambucana dos últimos dez anos, mas
é também um dos melhores. A interação do seu afiado personagem local
com um estrangeiro parecem dar ao filme um ar de releitura.
Curiosamente, dois anos depois de Baile perfumado, surgiu
um curta metragem local intitulado Chega de cangaço, dirigido
por Marcos Hanois, exibido na televisão, satirizando exatamente essa
tendência que filmografias regionais têm de filmar o regional. É uma
questão que sempre gera debates e/ou discussões entre os que fazem e
consomem cinema. Qual seria a maneira mais verdadeira de representar
uma cultura? Seria através do folclore e das tradições (o rural)? Ou
através do moderno (urbano)? Paulistas filmam em cidades e
nordestinos no Sertão? (K.M.F)
(©
JC Online)
Baixio das Bestas
é bem recebido em Mar del PlataFilme de Cláudio Assis
que ainda é inédito no País teve sessão polêmica
Flávia Guerra
Divulgação

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Elenco de Baixio das Bestas comemora prêmio recebido
no Festival de Brasília |
MAR DEL
PLATA - Polêmica, para dizer o mínimo, foi a sessão do brasileiro
Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, no último dia de competição do
festival de cinema de Mar del Plata. Vencedor do último festival de
Rotterdam e de Brasília, o longa ainda inédito no mercado brasileiro faz
parte da novíssima seleção exclusiva para filmes latino-americanos no
evento de cinema mais importante da América.
Até hoje,
o forte conteúdo político tem sido destaques dos filmes selecionados.
Seções de Cocaleros, documentário dirigido por Alejandro Landes
sobre Evo Morales, e Pancho Villa - A revolução ainda não acabou,
de Francesco Tabeada Tabone, sobre o herói da resistência mexicana,
foram os mais aplaudidos e são favoritos na categoria.
Ainda que
sem fazer discurso político declarado, o longa-metragem brasileiro parte
de um pressuposto social e, por que não dizer, político. É a engrenagem
de uma indústria retrógrada e agrária, a canavieira, que alimentou e
consumiu toda uma região do interior pernambucano. Dentro desta
engrenagem determinista econômica, e socialmente, o indivíduo torna-se
mais uma peça sem vontade própria e sem poder traçar seu destino.
Baixio
causou reações diversas na platéia de Mar del Plata. No debate que se
seguiu à sessão, não faltaram questionamentos sobre a forma como o
diretor retrata a violência contra a mulher. A sempre interessada
platéia argentina saiu calada e surpresa diante da realidade cruel e
fielmente retratada pelo diretor.
"Claro
que é a realidade. Aliás, o que acontece é ainda pior do que no filme,
que é uma obra de ficção, ainda que baseada em relatos e fatos que eu,
que sou pernambucano, ouvi falar sempre", declarou Assis quando
questionado por uma espectadora se ele não havia exagerado na carga de
violência cometida contra a mulher em seu filme.
A
platéia, ainda que chocada, aprovou e parabenizou o diretor. "É até
irônico dizer isso, mas seu filme, apesar de muito duro, é um filme
belo. Esta contradição entre fatos tão cruéis que são revelados e
filmados de uma forma tão bela e em lugares tão lindos causa uma
sensação de fato especial", declarou um espectador.
"Eu não
faço filmes para agradar ninguém. Acredito na função social e política
que o cinema tem. Nosso mercado de cinema, não só no Brasil, mas em toda
a América Latina, está completamente dominado por um modelo
hollywoodiano que não corresponde às nossas identidades culturais",
declarou Assis. "Não há porque nós continuarmos a fazer um tipo de filme
que, ou apela para a linguagem televisiva, a que o público infelizmente
se acostumou a ver, ou apela para o formato norte-americano. Temos que
contar nossas próprias histórias. Cinema é ideologia também. E
precisamos ocupar nosso devido lugar", concluiu o diretor, que estréia
seu filme no Brasil em maio.
Na
próxima semana, Baixio das Bestas representa o cinema brasileiro
no Festival de Cinema de Toulouse, no sul da França, ao lado de A
Casa de Alice, de Chico Teixeira, que acaba de participar do
Festival Internacional de Cinema de Miami, que premiou a atriz Carla
Ribas por sua atuação.
(©
Agência Estado, 16.03.2007) |