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Cineasta está prestes a estrear Cartola e já
finaliza o novo documentário, sobre o parceiro de Luiz Gonzaga
Flávia Guerra
Advogado, deputado,
compositor, músico, um dos fundadores do baião, deputado, autor de uma
lei em defesa dos direitos autorais e... engarrafador de nuvens. Quem?
Humberto Teixeira - figura multicolorida e multifacetada, atualmente na
mira do diretor Lírio Ferreira. Depois de Baile Perfumado (com Paulo
Caldas), Árido Movie e Cartola (ainda inédito nos cinemas), o diretor
pernambucano volta novamente seu olhar para uma figura crucial da música
brasileira em seu mais novo documentário, que tem, claro, o ótimo nome
de O Homem Que Engarrafava Nuvens.
Lírio, que iniciou as filmagens no fim do ano passado, conclui entre
hoje e amanhã as entrevistas. “Nesta semana estamos falando com Caetano
Veloso, Otto e Fagner. Talvez ainda façamos um derradeiro plano com um
especialista em baião que vive em New Jersey. Mas o trabalho está
praticamente concluído. Vamos começar a montar no fim deste mês e, em
agosto, já deve estar pronto”, conta ele.
O título do documentário, captado em película super 16 mm, vem da
brincadeira que o próprio Teixeira fazia sobre a lendária Mandalai, casa
que levou anos para construir no alto de São Conrado, no Rio, onde morou
com a filha, a atriz Denise Dummont. O compositor deixou sua cidade
natal Iguatu, no Ceará, ainda garoto, aos 17 anos, em 1932, para a
capital carioca, de onde nunca mais se mudou. No Rio, esse filho de uma
grande família da classe média estudou Direito e se firmou na carreira.
Nas duas: tanto a de advogado como a de compositor de marchinhas de
carnaval e sambas.
Mas nada seria como antes, depois de 1945. Foi neste ano que Teixeira
conheceu Luiz Gonzaga. A partir daí, o cenário musical nunca mais seria
o mesmo. Foi com o parceiro que criou o baião, gênero que até hoje vem
ecoando pelas biroscas, bares, casas de show do Brasil, nos filmes e do
mundo. Teixeira cada vez mais é visto muito além de “o compositor de
Luiz Gonzaga” e ganha seu merecido reconhecimento.
Pernambucano e nordestino dos bons que é, Lírio Ferreira não precisou
estudar o baião em enciclopédias musicais para saber da força do
acordeom e das poesias tão populares e, ao mesmo tempo, sofisticadas.
Crescido numa época em que o mundo estava mais interessado em rock,
praticamente redescobriu o gênero tipicamente brasileiro quando conheceu
Denise Dummont.
Apesar do sobrenome, Denise é a filha única de Humberto Teixeira. “Eu
era rebelde e a adolescência foi difícil. A nossa relação era, ao mesmo
tempo, muito próxima e muito distante. Ele queria que eu me tornasse
advogada como ele. Eu decidi ser atriz. Atuar não era coisa de moça de
família e ele me proibiu de usar Teixeira. Daí o Dummont”, conta a
atriz, no cancioneiro em homenagem ao pai que ela editou em parceria com
Sérgio Cabral.
Lírio descobriu Denise, que tinha descoberto no pai o artista Humberto
Teixeira. “As músicas dele estavam muito distantes da realidade de
Ipanema. Nós queríamos saber era de Beatles, Rolling Stones”, conta
Denise. “Ela era muito ligada ao movimento do rock carioca, era muito
amiga de Cazuza. Foi só depois da morte do pai que começou realmente a
se interessar e a conhecer sua obra. E hoje, é incrível, ela sabe cantar
tudo de cor e tem uma paixão arrebatadora pelo baião”, completa Lírio.
Arrebatadora foi a invasão desse ritmo tão nordestino no sul maravilha.
“Humberto e Gonzagão eram caras muito cultos e antenados. Eles tiveram a
astúcia de perceber a música que os migrantes nordestinos queriam
ouvir”, conta o diretor. A observação de Lírio procede. Afinal, a década
de ouro do baião coincide com a chegada em massa de mão-de-obra
nordestina nos grandes centros, como Rio e São Paulo. “Era a música que
as pessoas que construíram essas metrópoles ouviam, era a cultura que os
aproximava dos lares que eles tinham deixado para trás”, completa o
pernambucano que nos últimos meses tem percorrido mais quilômetros do
que os que seus conterrâneos migrantes percorreram. Lírio, o diretor de
fotografia Walter Carvalho e equipe já foram de Iguatu a Nova York,
passando pelo Rio, Fortaleza e outras capitais brasileiras. “Nos EUA,
estivemos no fim de 2006, filmando a festa do Forró in the Dark. Também
entrevistamos um historiador do forró e fizemos contatos para
entrevistas complementares”, explica Lírio.
Em seguida, a pequena equipe seguiu para o sertão do Ceará, onde
percorreu os caminhos que levaram ao baião. “Foi muito bom fazer esse
contraponto. Fomos da cosmopolita Nova York ao lugar onde tudo começou.
Depois de falarmos com especialistas e personalidades, fomos ver como o
povo se relaciona com o baião”, completa.
Além do povo, a família entra em foco? “Claro! A Denise, além de
produtora do documentário, dá seu depoimento, que é crucial. Além disso,
conseguimos entrevistar a única irmã ainda viva de Teixeira. Dona
Ivanira era a irmã caçula, um xodó dele, que nos falou coisas ótimas”,
comenta Lírio.
A jornada inclui ainda Mestre Expedito, que fabricava as roupas que
Gonzagão usava e cujo pai era quem costurava as roupas de Lampião. “Sem
contar as personalidades como Fagner, Gilberto Gil, Caetano, Belchior,
Carmélia Alves (a Rainha do Baião) e outros. Gil contou algo muito
emblemático. Ele disse que o baião foi a primeira música que ele ouviu
na infância, que tocava nas rádios que seu pai e seu avô ouviam. Surgiu
na vida dele, e de muitos grandes músicos do País, muito antes do
samba”, comenta o diretor.
Lírio admite que, ao tratar da vida e obra de Teixeira, trata também da
história do baião. E mais que isso: ele completa a segunda fase de uma
não planejada incursão pela história da música popular brasileira. “É
curioso chegar a esta conclusão. Mas é verdade. Cartola nasceu
naturalmente. Assim como nasceu este novo documentário. Brinco que, para
fechar a trilogida, só falta eu documentar a fase de ouro do rock
nacional nos anos 80. Ah! E lançar meu primeiro disco.”
O talento vocal de Lírio pode ser questionado pelos amigos mais chegados
que o viram entoar suas melodias em homenagem aos mestres, mas, a julgar
pelo belo Cartola, que estréia nas salas nacionais em 6 de abril, O
Homem Que Engarrafava Nuvens promete.
(©
Agência Estado)
Sai biografia e songbook de
Humberto Teixeira
Edição luxuosa e
supercolorida faz justiça ao co-autor de Asa Branca
Lauro Lisboa Garcia
SÃO PAULO - Em luxuosa e
supercolorida edição dupla (biografia e songbook), pop e bilíngüe
(português e inglês), o Cancioneiro Humberto Teixeira (Jobim
Music/Good Ju-Ju, R$ 176) tem quatro nomes também envolvidos no
projeto do CD O Doutor do Baião (Biscoito Fino), de 2002:
Denise Dummont, Ana Lontra Jobim, Wagner Tiso e Gringo Cardia. As
duas idealizaram o projeto; Tiso fez os arranjos das canções, 41 das
principais transcritas em partituras e letras no songbook; Cardia
assina o design gráfico.
Das 18 faixas do CD - o único em catálogo dedicado
exclusivamente à obra de Teixeira -, 14 foram gravadas o num show
realizado no Teatro Rival (centro do Rio). O repertório desse show,
gancho inicial para o documentário de Denise e Lírio Ferreira,
reuniu os êxitos mais populares de Teixeira, entre eles célebres
parcerias com Luiz Gonzaga (1912-1989), como Baião,
Juazeiro, Respeita Januário, Qui Nem Jiló,
Assum Preto e, claro, Asa Branca.
Com outro mestre, Sivuca (1930-2006), fez
Adeus, Maria Fulô, que os Mutantes modernizaram em 1968. Outra
de suas mais belas composições é o samba Deus me Perdoe, com
Lauro Maia. Foi Maia quem o apresentou a Gonzaga, que, além de
parceiro mais importante, foi seu maior intérprete até por conta
disso. Como conseqüência natural, as gerações de nordestinos que
nasceram e cresceram ouvindo suas canções - Gilberto Gil, Caetano
Veloso, Gal Costa, Elba Ramalho, Fagner, Lenine, todos presentes no
CD, mais Alceu Valença, outro notório discípulo da escola
gonzaguiana que ficou de fora - revelam nítidas influências.
Além dos citados, seu cancioneiro está espalhado
pelo repertório de gente como Jackson do Pandeiro, Jamelão, Ivon
Curi, Carmélia Alves, Dalva de Oliveira (como o grande sucesso
Kalu), Maria Alcina, etc, além das incontáveis gravações de Asa
Branca (Maria Bethânia, Dominguinhos, Elis Regina e Hermeto Pascoal,
Baden Powell, Geraldo Vandré, Joyce, Toquinho, Caetano, entre
outros).
Só que Teixeira, autor de 173 composições listadas
no songbook, poucas vezes teve os valores enaltecidos, por passar
décadas à sombra do parceiro mais famoso. “Prática comum naquela
época, principalmente quando havia uma estrela como parceiro, era
que esta celebridade reivindicasse co-autoria em obras que, de fato,
não tinha feito”, lembra o pesquisador Ricardo Cravo Albin, autor do
texto da biografia. O próprio Gonzagão revelou que não escreveu uma
nota de Mangaratiba, que recebeu pronta de Teixeira, mas,
responsável pelo sucesso da composição, acabou levando o crédito de
co-autor.
Já era tempo, portanto, que Teixeira tivesse o
reconhecimento por sua obra fundamental. Gonzagão foi seu grande
estimulador no universo do baião, mas ao contrário do que se
afirmava, não foi ele o inventor do gênero do qual o parceiro se
tornou o rei. “O baião sempre existiu nas quebradas do sertão,
sempre foi música do povo”, afirmou Teixeira em declaração
reproduzida na biografia. “Não inventei o baião; jamais tive essa
pretensão”, dizia ele. Não inventou, mas bastou para garantir seu
lugar na eternidade que tivesse composto Asa Branca, que, como bem
lembra Albin, é, ao lado de
(©
Agência Estado) |
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