Silvério Pessoa quer se livrar do rótulo de
“músico regional” e aposta saltar fora desse nicho reducionista com
ajuda do primeiro DVD
JOSÉ TELES
De passagem marcada para o Japão, onde faz três apresentações,
entre 28 de abril e sete de maio, Silvério Pessoa quer se livrar do
rótulo de “músico regional” em que é enquadrado desde a época em que era
vocalista da Cascabulho. Deste nicho reducionista ele espera começar a
saltar fora com ajuda do DVD Cabeça elétrica coração acústico,
que autografa hoje, a partir das 19 horas, na Livraria Cultura: “Espero
que a partir daqui meu trabalho seja reclassificado não como música
tradicional e, sim, como música contemporânea que tem base na tradição”,
define.
Uma classificação à qual ele, ironicamente, precisa recorrer até
mesmo no DVD que, no invólucro, traz o lembrete: “Silvério Pessoa Melhor
cantor regional Prêmio TIM 2006”. “Isto acaba sendo prejudicial até
mesmo nas lojas. O CD de Silvério é colocado entre os discos de música
regional, caipiras, bandas de forró estilizado e, como o nome dele
começa com ‘s’, fica lá atrás, difícil para o comprador encontrar”,
comenta Karina Hoover, produtora executiva do projeto. Para Silvério, o
DVD é também uma espécie de cartão de visitas para divulgação do seu
trabalho fora de Pernambuco.
“É um instrumento indispensável para se vender o show a quem ainda
não conhece o artista, um papel que o CD não consegue cumprir. A gente
não espera que ele seja apresentado nas TVs comerciais. Hoje até mesmo a
MTV não está mais apostando em vídeos”, diz o cantor, que, mesmo assim,
escolheu como carro-chefe do DVD o clipe de Na boléia da Toyota.
Gravado em novembro de 2005, no Teatro Santa Isabel, este é o
registro do primeiro show, no Recife, do disco Cabeça elétrica
coração acústico, mas não a transposição total do álbum para o
palco: “Tem música do CD que não está no DVD, e tem música no DVD que
não está no disco. No show foi incluída uma música que gravei com o
Cascabulho (Vendedor de amendoim) e um pot-pourri de forró de
Rosil Cavalcanti (Lei da compensação, gravado pelo santo
padroeiro Jackson do Pandeiro), e Luis “Boquinha” de França (Cosme e
Damião, lançada por Ary Lobo) que não estão em nenhum disco meu”,
esclarece.
Outro diferencial do DVD é que ele registra o show na íntegra, sem
que nenhuma música tenha sido repetida no palco, para corrigir falhas,
quase uma regra neste tipo de produto: “O público nem sabia que
participaria da gravação. Então, minha garganta é que ficou na
guilhotina. Eu não podia errar, mas cometi alguns pequenos erros”,
confessa. Erros que foram corrigidos em estúdio, com overdubs (gravações
superpostas): “Foram pequeno detalhes, uma frase incorreta aqui, uma
desafinação ali. Teve uma faixa em que a corda da viola arrebentou, dá
para se escutar o barulho, e o músico teve que refazer aquele trechinho
no estúdio. Numa das faixas eu me enganei numa letra, mas como estava em
close não deu para sobrepor a voz com a imagem. A imagem foi cortada.
Mas é coisa muito rápida, não dá para notar. Vale lembrar que a gravação
foi feita de uma só vez, porém eu e a banda fizemos 52 ensaios”,
continua Silvério, apontando que além da sua banda, o show contou com o
grupo Trombonada, formado por integrantes da Spokfrevo Orquestra. “Foi a
estréia deles, na época nem havia ainda sido batizado de Trombonada.”
Eric Hoover, coordenador de palco, ressalta que as limitações do
teatro (entre elas a impossibilidade de se usar gruas ou câmeras móveis)
levaram a que se criassem outras soluções para o vídeo: “A ausência de
gruas, por exemplo, fez com que a gente colocasse pessoas com câmeras
nas frisas mais altas, ou então com câmeras manuais diante do palco, o
que gerou outras perspectivas”, diz. Cada canção, complementa Eric, foi
trabalhada individualmente: “A gente até poderia colocar no DVD
instruções de como as músicas devem ser apreciadas. Mas o espectador
atento vai notar que o vídeo tem começo, meio e fim”, acrescenta Karina
Hoover, tecendo elogios para Janine Brandão e Natara Ney, responsáveis
pela edição de imagens.
“Para mim foi o serviço mais trabalhoso do DVD, pela quantidade de
câmeras, pelos ângulos diferentes, as inserções de imagens entre as
músicas. Mas tudo, naturalmente, foi um trabalho de equipe, com Lula
Queiroga, Erick Laurence, a Luni cumprindo um papel fundamental no
projeto”, diz Karina.
Silvério, antes deste Cabeça elétrica, coração acústico, havia
gravado imagens para um DVD francês, com o repertório da turnê do
Bate o mancá, previsto para ser lançado no início deste ano, mas que
teve seu lançamento adiado: “O selo que lança meus discos na Europa e
Ásia preferiu dar um tempo no DVD, porque o disco está sendo bem vendido
por lá e um outro produto poderia atrapalhar essas vendas. Concordei com
eles, e talvez este DVD que estou lançando agora no Brasil s,ele será
distribuído pela Trattore, considerada hoje a melhor opção para artistas
independentes.
DVD Cabeça elétrica coração acústico, com Silvério Pessoa e banda,
mais a Trombonada. Preço médio: R$ 35