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Artista
plástico ganha o primeiro livro-catálogo ao completar 40 anos de
carreira, com ensaios de Cristina Freire
OLÍVIA MINDÊLO
Controverso, incansável, à frente do seu tempo. Paulo Bruscky ainda
está longe de ser compreendido pelos espectadores brasileiros comuns.
Se, na década de 70, o artista multimídia pagava o preço da
marginalidade no Brasil – e sobretudo em Pernambuco – por produzir uma
arte para além dos cânones dos conceitos artísticos, hoje a aceitação do
seu trabalho caminha a passos lentos no País. É claro que agora a
realidade é outra. Artistas visuais contemporâneos têm muito mais o
respaldo das instituições, mas é no mínimo sintomático que apenas a
partir dos 2000 o artista tenha, por exemplo, ganhado uma sala especial
na Bienal das Artes de São Paulo (2004) e vendido suas primeiras
obras de arte (2006) a museus. E, olhe, são 40 anos de carreira.
Hoje, às 19h, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam),
surge mais uma dessas surpresas: o lançamento do primeiro livro sobre
sua trajetória. Assinado por Cristina Freire, pesquisadora e curadora do
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP). Paulo
Bruscky: arte, arquivo e utopia foi feito com recursos do Fundo
Estadual de Cultura (Funcultura) e apoio da Companhia Editora de
Pernambuco (Cepe).
“Descobri Paulo Bruscky pesquisando o acervo de arte conceitual do
Museu de Arte Contemporânea da USP. Essa pesquisa já dura mais de dez
anos e um aprofundamento na sua obra foi uma necessidade pela lacuna
total de referências sobre o artista. O trabalho foi bastante exaustivo,
pois envolveu o levantamento de obras desconhecidas para um público
maior, ou mesmo de especialistas”, atesta Cristina, autora também do
livro Poéticas do processo – arte conceitual no museu (1999),
cuja capa é ilustrada com a peça de arte postal Confirmado: é arte,
feita pelo próprio artista pernambucano.
Com edição bilíngüe (português e inglês) e tiragem de 1.500
exemplares, o livro foi, sim, uma conseqüência natural da linha de
pesquisa de Cristina, mas foi possível também porque o próprio Bruscky
fez um convite à autora. Foram dois anos de trabalho intenso, que
terminou em 2003 e só agora pode ser impresso. Das mais de 200 páginas,
cerca de 60 são de textos escritos pela curadora, incluindo uma extensa
cronologia biográfica, o que torna a publicação muito mais convidativa.
A grande quantidade de imagens ilustra a criativa e interminável
produção do artista, que pode ser compreendida em seu todo, apesar de
tão “vasta quanto múltipla”. Um livro para passar dias fuçando e
descobrindo coisas novas a cada virada de página.
“Não procurei esgotar o conjunto de uma obra tão extensa e
multifacetada, mas principalmente dar instrumentos para que possa ser
compreendida dentro do contexto da história da arte contemporânea
(nacional e internacional). É uma maneira de preservá-la de uma maneira
íntegra. Conferir sentido é revelar a importância de uma obra. Não baste
dizer que é importante, mas mostrar por quê. Foi isso que eu procurei
fazer nesse livro”, explica Cristina Freire.
Cristiana Tejo, diretora do Mamam, atenta para o fato de Paulo
Bruscky ter sido a única pessoa, nesses anos todos, com preocupação de
documentar a própria obra. Isso deve ter ajudado a própria autora do
livro em sua pesquisa e na sua tarefa de tornar esse “arquivo vivo” mais
acessível no Brasil. Hoje, na ocasião do lançamento, Cristina Freire
conversa um pouco sobre o seu processo de trabalho e, em setembro,
realiza no MAC-USP uma exposição individual e antológica desse artista
pouco convencional.
(©
JC Online)
Influência do
dadaísmo marca a sua obra
Arte
postal, xerox arte, vídeo, performance, livro de artista, arte
classificada, instalação, art-door. O universo múltiplo de Paulo
Bruscky, 58 anos, converge numa só direção: reinventar o cotidiano,
“através do seu estranhamento”. Essa reinvenção é que ousada,
inesgotável, inclassificável. Como bem coloca Cristina Freire em seu
livro, “qualquer definição é insuficiente para definir esse artista”.
Na verdade, estamos falando não apenas de alguém que é filho de um
fotógrafo russo com uma ilhéu de Fernando de Noronha, mas de uma cria
autêntica das vanguardas modernistas do início do século 20, sobretudo
do dadaísmo, e protagonista desse limite que separa a arte moderna da
contemporânea.
“Eu sou tudo que veio antes de mim: futurista, dadaísta. Não existe
ninguém que não tenha influências. Eu sou um conjunto de informações”,
se define Bruscky. As referências, no entanto, não impediram Bruscky de
ser original. Não é à toa que ele ganhou, logo no início da carreira, a
consagração internacional que não teve por aqui. Ganhou uma bolsa, em
1982, da Guggenheim Memorial Foundation, para morar em Nova Iorque, e
expôs em vários lugares do mundo, a exemplo da 57ª Bienal de Veneza,
em 1976.
Mas foi através do grupo Fluxus, rede de artistas ligados à distância
através da troca de arte pelo correio, que Paulo Bruscky rompeu ainda
mais as fronteiras geográficas. Foi ele, inclusive, o responsável por
realizar, em 1975, no Recife, a 1ª Exposição internacional de arte
postal – com interferências de textos, imagens e carimbos – e, em
1981, a 1ª Exposição internacional de arte em outdoor (art-door),
junto a Daniel Santiago, parceiro seu entre as décadas de 70 e 90. Na
época da ditadura militar, também protagonizou ações, performances e
formas de arte engajadas, que lhe renderam três prisões.
A hostilidade em relação à sua obra, no entanto, nunca o incomodou. É
tanto que optou por morar no Recife grande parte da vida, com salário de
funcionário público. “Eu crio em qualquer lugar. Entendo a desinformação
das pessoas e respeito”, diz o artista. (O.M.)
Lançamento de Paulo Bruscky: arte, arquivo e utopia, hoje, às
19h, no Mamam – Rua da União, 88, Boa Vista. Aberto ao público. Preço
médio do livro: R$ 100.
(©
JC Online) |
Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)
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