Cantor e compositor baiano faz
show inspirado em poesia concreta e nome de empresa
em aeroporto
Além de canções relacionadas a São Paulo, músico
fará versão para o livro "Paulicéia Desvairada", de
Mário de Andrade
BRUNO YUTAKA SAITO
DA REPORTAGEM LOCAL
Para entender a lógica de Tom Zé, 70, ao criar seu
novo espetáculo, "São Parking: Ibirapuera", é
necessário levar em conta os vários anos que o
cantor e compositor baiano vive na cidade, além de
seu olhar único sobre as corriqueiras notícias do
dia-a-dia.
"Você viu que coisa impressionante
o nome do estacionamento do aeroporto de Congonhas?
Parece que foi extraído de uma poesia concreta.
Fiquei encantado por uns cinco minutos", conta Tom
Zé, que adotou o nome para o título do show.
Em boa parte de sua produção, Tom
Zé segue um método típico de empresários paulistanos
que não saem de casa sem ler o jornal. As
informações sorvidas pela manhã são essenciais para
sua produção. Junta-se a isso o fato de que o músico
já foi jornalista na juventude e pronto: aquela
notícia que o impressionou é o estopim para, senão
uma epifania, uma idéia para um novo trabalho.
"Cheguei em São Paulo em 1965. Já
estou há mais da metade da minha vida vivendo aqui.
Acabo sendo paulistano por osmose, acabo agindo e
reagindo como tal", conta. O maravilhamento com o
nome da empresa que tem a concessão para administrar
o estacionamento do aeroporto veio no exato momento
em que Tom Zé pensava sobre os 50 anos da poesia
concreta. Ele se pergunta se a escolha do nome
"concreto" do estacionamento foi uma homenagem.
Pensando nisso, chegou à conclusão
de que São Paulo é um grande estacionamento. "Tudo
estacionou por aqui. Saint-Hilaire [biólogo
francês], já no século 19, previu que, se houvesse
um lugar apropriado para o desenvolvimento de um
parque industrial, seria aqui."
A vaga do "estacionamento São
Paulo" é grande, na lista de Tom Zé: "Teve a Semana
de 22, a Revolução Constitucionalista, o
tropicalismo, depois essa coisa nordestina que se
formou aqui, o Teatro Oficina, o Teatro de Arena, a
poesia concreta".
Mário de Andrade
Embalado por essa idéia-conceito,
o músico selecionou para o show 15 canções que, de
alguma maneira, fazem referências à cidade. Entre
elas, estão "Tom Zé" (de Augusto de Campos) e "2001"
(famosa com os Mutantes), além de duas composições
do seu mais recente disco, "Danç-êh-Sá", álbum de
"pós-canções" também inspirado por notícias que ele
viu na mídia. Isso é apenas um roteiro, algo que Tom
Zé não leva muito ao pé da letra.
"Se eu fizer um show engessado,
perde a graça. Eu não sou grande cantor, não sou
grande compositor, não sou bom músico. Só vivo da
possibilidade do improviso", explica. Entre as
surpresas, anuncia uma "parceria" com Mário de
Andrade (1893-1945). No show, Tom vai apresentar uma
versão musicada de "Paulicéia Desvairada". "Vou
tentar fazer uma redução ao extremo. Sei que metade
eu vou esquecer na hora do show.
Mas essa versão não tem a intenção
da posteridade, é uma coisa mais para cantar na
hora. Minha luta é contra o tédio. O que eu faço não
é música, é rebeldia e brincadeira."
Questionado sobre se "estacionar"
também pode significar "não progredir", o que daria
um significado mais malicioso para o show, ele é
categórico: "Estacionar é se instalar em terreno
fértil. Tudo que estacionou aqui era a favor da vida
e da arte e provocou movimento".
O caos urbano e a tragédia da
linha 4 do Metrô também são fatos inevitáveis numa
cidade como São Paulo? "Isso que vivemos não é culpa
do movimento civilizatório nem do progresso
econômico. Isso é um erro de planejamento e
ignorância administrativa", diz. "Há uma grande
confusão entre grandeza e caos." E ele não sente
vontade de fugir daqui, como muitos paulistanos?
"Isso é uma ilusão que sentimos de vez em quando..."