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Globo pasteuriza a cultura nordestina

10/02/2001

 

 
 

`Porto dos Milagres' traz os mesmos vícios que marcaram outras produções regionais

   Se as estripulias da Viúva Porcina e Sinhozinho Malta não estivessem sendo reprisadas no Vale a Pena Ver de Novo, talvez os cacoetes de Aguinaldo Silva e seu nordestinês para exportação não ficassem tão flagrantes. De Aguinaldo não, da emissora, que inventou uma fôrma para cada tipo de ficção: glamour da zona sul carioca ou o sotaque italianado dos paulistanos quando quer contar uma história urbana. A conversa arrastada ao som da viola é o modelito para as tramas ambientadas na zona rural da Região Sudeste para baixo.

   Quando se quer representar o Nordeste, aí então não é preciso bem pesquisar porque a receita está prontinha. Uma baciada de peles bronzeadas, muito sol e areia no cenário, sensualidade à flor da pele das personagens mais jovens e uma dose maciça de caricatura em tipos geralmente entregues a atores experientes, ou seja, àqueles que seguram o tchã no fim das contas. Não interessa se a novela se desenvolve no Ceará (Tropicaliente, por exemplo) ou na Bahia (uma fileira de exemplos), o sotaque - forçado e caricato - é o de sempre.

   Desde que emplacou nos anos 70 - os pioneiros foram O Bem Amado (1973), de Dias Gomes, e Gabriela (1975), adaptação de Walter George Durst do romance de Jorge Amado -, o filão nordestino é sazonal na Globo, revezando-se com histórias de época, urbanas e caipiras. Porto dos Milagres, que acaba de substituir Laços de Família na faixa das 8, estreou bem - 47 pontos de média no Ibope (cerca de 3,8 milhões de telespectadores na Grande São Paulo) - impulsionada pelo sucesso da antecessora, que se despediu com média de 59 pontos.

   Assinada por Aguinaldo Silva - que além de Roque Santeiro, escreveu Tieta, Riacho Doce, Pedra sobre Pedra, Fera Ferida e A Indomada -, Porto dos Milagres segue à risca a cartilha do déjà vu. Até os efeitos sonoros - como o chacoalhar da pulseira de Sinhozinho Malta em Roque - estão presentes na nova farsa. Fazer de Cristiana Oliveira, Maurício Mattar e Carolina Kasting baianos "arretados" por si só já é uma temeridade, querer que se acredite que eles vivem do que Iemanjá lhes coloca na rede, então, é apostar demais na boa vontade do público. Mas não se pode deixar de reconhecer Silva como um novelista autoral. Seu texto é uma colagem de outras histórias dele. A empolada Augusta Eugênia de Arlete Salles, por exemplo, nada mais é do que uma reciclagem da Perpétua (Joana Fomm) de Tieta, da Altiva (Eva Wilma) de A Indomada, a Rubra Rosa (Suzana Vieira) de Pedra sobre Pedra.

   O bom desempenho inicial deve ser creditado a alguns requintes: as cenas em Sevilha, o flamenco, a iluminação, Antônio Fagundes e Cássia Kiss, irretocáveis como os trapaceiros Félix e Adma. O problema é quando Fagundes passa para o personagem do irmão gêmeo. Bartolomeu (aí a culpa é do ator) tem a boca mole e a expressão bovina do Bruno Mezenga, que interpretou em Renascer, a serviço de Benedito Ruy Barbosa. Há mais um detalhe, cuja responsabilidade é do padrão da emissora, não do autor. O porto da cidade baiana fictícia é mais arrumado do que show room de loja de decoração nos Jardins. E de uma assepsia que nenhuma cidade brasileira - nordestina ou do Sul - conhece na prática. (Leila Reis, O Estado de S. Paulo)


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