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Poesia - A epopéia da América

07/02/2002

 

Cecilia Costa

   Durante 20 anos, o poeta pernambucano Marcus Accioly esteve envolvido com seu cântico da América Latina, epopéia sobre os heróis marginais do continente, toda ela escrita em oitava rima camoniana. Escreveu, escreveu, reescreveu, e quando já achava que se tratava de uma obra sem fim, o livro enfim tomou corpo, em fins do ano passado, tendo sido editado pela Topbooks em parceira com a Biblioteca Nacional. Após o carnaval, “Latinomérica” — que conta com a proteção das Sireidas, musas do rio Sirigi — será lançado no Memorial da América Latina, em São Paulo, com uma exposição sobre os temas cantados pelo rapsodo nordestino. No Rio, o lançamento será feito na Biblioteca Nacional.

É verdade que levou 20 anos para escrever “Latinomérica”?

MARCUS ACCIOLY: É verdade. Comecei a escrevê-lo com 39 anos e completei 59 agora em janeiro, no dia 21. Passei também 11 anos sem publicar um novo livro, já que o último, editado pela José Olympio, saiu em 1990. Chamava-se “Érato”, e era de cunho erótico. Mas mesmo neste caso, assim como em “Latinomérica”, optei por um poema inteiro. Desde meu primeiro livro, “Cancioneiro”, editado em 1968, tenho este projeto de escrever livros inteiros, de um poema só.

Por que essa escolha?

MARCUS: Defendo a volta à tradição do contar e cantar. Já escrevi 13 livros e sempre tenho em mente esta estrutura épica, a do canto com uma história. De um tempo para cá, seja na poesia, no romance ou na novela, a narração é sempre fragmentária. As pessoas costumam escrever sobre partes, sobre o mar, o barco, o caramujo. Eu tento colocar o caramujo no barco e o barco no mar. Eu acredito que neste nosso novo século, neste novo milênio, nós vamos conseguir um renascimento, voltar ao homem total, ao homem por inteiro. Minha “Latinomérica” é a América Latina, e também é a América de Homero, a do contador e cantador de histórias. O mundo é cíclico. A literatura também. Houve o período clássico e o romantismo, do homem isolado. O século XIX foi o do suicida e o século XX o do homicida. Estamos chegando agora a uma terrível fusão, o tempo do homem suicida-homicida, mas precisamos sair disso, precisamos chegar ao novo homem.

Acredita mesmo que sairemos desse homem suicida-homicida para um homem por inteiro?

MARCUS: Bem, ou o homem se ajusta ao próprio homem, ou ele vai se destruir, a si mesmo e o planeta. Como poeta, eu prefiro acreditar na sobrevivência do homem. Assim como creio na poesia — existirá poesia enquanto existir o homem na terra — creio no homem como creio em Deus. E creio no surgimento deste homem total, renascentista. Se não fosse o Renascimento, não teríamos sido descobertos. A Europa estava lá, em sua fragmentação, e descobriu o Novo Mundo, criando o homem capaz das conquistas. Por outro lado sou nordestino, o matuto por derradeiro. O homem nordestino é um homem inteiro, está ligado às árvores, aos rios, aos bichos. Está ligado ao cosmos. D.H. Lawrence dizia que toda vez que via um homem tomado pela angústia, queixando-se de solidão, compreendia bem essa angústia: o homem em questão teria perdido o cosmos dentro de si. Eu não quero perder o cosmos. Está lá em “Vidas secas”. Quando o homem quebra a si próprio, ele quebra a natureza. Se ele for uma ponte para o outro homem, ele é mais homem, fica mais forte. E cabe ao poeta denunciar a desintegração deste mundo moderno, sair em busca da integração. O poeta talvez tenha que deixar de ser o amigo que se pretende para ser o inimigo do qual se precisa. E o poema deve buscar as correspondências, como está em Baudelaire, dos sons, das cores, dos seres.

Seu poema começa com Cristóvão Colombo?

MARCUS: Ele vem desde antes de Colombo até os momentos atuais. O livro em si é uma luta de boxe. Está estruturado em rounds . É a luta contra o neocolonialismo e também a antiga luta contra o colonialismo. Para Joyce Carol Oats, o boxe é o teatro trágico da América. O esporte mais caro do mundo, feito pelos pobres da Terra. Eu não quis dividir minha epopéia em cantos, mas em rounds . E o ponto mais alto para mim é o da procura de uma linguagem nova entre as muitas línguas dizimadas pelos conquistadores. Tentei reduzir a língua dos colonizadores, o português, o espanhol, a uma nova e única linguagem. Como digo no poema: fez-me Deus para eu cantar o continente ou descobrir a sua língua ausente. É também a expressão do silêncio, tento dizer tudo o que foi ou está calado até hoje, tudo o que foi deturpado. Busco a língua de Malinche, a amante e língua de Pizarro, a mãe do primeiro bastardo, mas também não abandono a língua do colonizador, por ser a minha. Malinche chupou do sexo do colonizador a sua língua, confundindo a mutilação com o prazer.

E você canta a América espanhola, a portuguesa?

MARCUS: Eu começo cantando o Brasil e demais países latinos, sempre sob a ótica da luta, dos lutadores, chego ao canal do Panamá, faço uma saudação e canto a América Central. Depois da América Central, canto a América do Norte. A luta chega até os Estados Unidos, passo pelo Canadá, pelas ilhas, as possessões, e junto depois a África à América, como era nos primeiros tempos, para cantar também os heróis negros, Mandela, Zumbi, Biko.

Seu canto é então dedicado aos que lutaram, a esses heróis?

MARCUS: Sim, aos heróis destroçados, aos marginais, aos anti-heróis. Canto Chico Mendes, os cangaceiros, Lampião, Antonio Conselheiro.

Lembra as veias abertas de Galeano...

MARCUS: Cito muito Galeano. Mas cito também o Brasil dos artistas, dos cantores, cito Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Chico Buarque. Francisco Julião, Gregorio Bezerra, José Genoíno (ele está na parte em que eu canto a guerrilha de Araguaia), Violeta Parra, Victor Jara. Falo de poetas e líderes populares do Brasil e da América. Atahualpa, Tupac Amaru, Barra do Dia, cantador do coco, o maior de todos. É um canto infinito, todo em oitava rima camoniana. Deu-me muito trabalho, fiz muita pesquisa.

Este canto todo — são quase 600 páginas — tem algum eixo, alguma simbologia maior?

MARCUS: Tem. Trata-se de uma história de pai e de filho. Uma busca de pai. O filho tem a mãe, que é a pátria, a América, os países. Ele sai em busca do pai. Está em Vargas Llosa, na “Casa Verde”, e em Juan Rulfo, no “Pedro Páramo”. Fuentes fala nisso. São livros cujos protagonistas são filhos bastardos em busca do pai. Está também no chileno José Danoso, no livro “Um lugar sem limite”. .

E este pai é Deus, é o Criador?

MARCUS: Não, é um pai mesmo, um pai físico, mas metafórico, é claro. É a busca da identidade, presente ao longo de todo o livro. Agora, como o poeta ou cantador não encontra o pai, ele volta à mãe. Como não pode voltar ao útero, acaba tendo uma relação incestuosa com a própria mãe. A América, a pátria, que fôra violentada pelo pai, acaba sendo também violentada pelo filho.

Então são duas violências, violações. Um continente que não consegue escapar da violência, seja no passado, seja no presente...

MARCUS: Bem, é o que passamos hoje. A violência está aí. O último canto é todo ele referente ao incesto. A realização do incesto. Trata-se da América violada, a ferro, a fórceps. São 50 anos de violação. Mas o sentido é de redescoberta, reencontro. Eu voltei, descubro minha identidade, conheço a mim mesmo. Os bastardos se reencontram com a mãe biblicamente. E assim, talvez seja possível um novo caminho, um caminho sempre buscado por escritores, jornalistas, estudantes. Lembro-me da anedota sobre Schopenhauer, que estaria numa praça, solitário. E alguém chega até ele e pergunta: “quem é você, o que está fazendo aqui?”. E ele diz: “era isso exatamente o que eu estava a fazer, perguntava-me quem sou eu, o que estou fazendo aqui...”

Menciona no livro o narcotráfico, que assola o continente?

MARCUS: Falo da Colômbia, do Cartel de Medellín. E às vezes confundo o pó com o pó branco da lua. Mas menciono muito mais a tortura política e nomeio os torturadores, os ditadores, Fleury, Somoza, Pinochet, Videla. Agora, quando falo do tráfico não falo em combatê-lo. Esse é um problema dos Estados Unidos, que está sempre criando uma forma de intervir no continente, de voltar a colonizá-lo, o tráfico, o comunismo, o terrorismo.

Celebra Calíope, longo no inicio do livro. Recorre a mitos gregos ou aos mitos do próprio continente?

MARCUS: Criei as sireidas, as ninfas do rio Sirigi, onde nasci. Cito Calíope por ser a musa do épico. E faço questão de homenagear Colombo, que não teve nem o nome dele no continente. Mas também destaco os poetas, de Camões a Neruda, Cabral, Gullar, Thiago de Mello.

Foi no ano passado que você acabou de escrevê-lo?

MARCUS: Acabei em 21 de julho de 1996. Mas ele foi escrito e reescrito inúmeras vezes. Há cantos — tenho registrado no computador — que foram modificados mais de 300 vezes. Quando trabalhei com Houaiss no Ministério da Cultura, tive que interrompê-lo totalmente. Houve momentos em que achei que nunca iria acabá-lo. Mas José Mário, meu editor, foi paciente e me ajudou, pedindo-me um fim. Até a publicação consertei muita coisa e resolvi criar os portulanos, as cartas de navegação, onde explico questões como o épico, a língua, a guerrilha.

O livro é dedicado a seu pai. Você diz que o pai não é encontrado, mas parece que reencontrou o seu.

MARCUS: Eu me desentendi muito com meu pai ao longo da vida. Vim de uma falida aristocracia nordestina, dona de engenhos, e de repente sofri uma conversão. Passei a defender os oprimidos, revoltei-me contra a exploração do homem pelo homem. Meu pai entrou em choque comigo. Mas hoje, aos 88 anos, acho que ele tem um certo orgulho do filho poeta.
(© O Globo On Line)


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