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24/03/2001

Augusto dos Anjos volta em livros e coreografias

  Há cem anos, um adolescente magrela e pálido do norte da Paraíba rabiscava: "Vês! Ninguém assistiu ao formidável/ Enterro de tua última quimera./ Somente a Ingratidão -esta pantera-/Foi tua companheira inseparável!".

   Começavam assim um dos principais poemas brasileiros do século 20 e uma das trajetórias mais singulares da literatura nacional. O rapaz de 17 anos era Augusto dos Anjos, e o soneto que escrevia, "Versos Íntimos", seria o primeiro pilar de sua única (em mais de um sentido) obra: "Eu ".

   O livro, lançado em 1912, já teve 42 reedições. Na próxima semana, porém, a primeira pessoa do singular ganha sua mais completa conjugação. A Bertrand Brasil está publicando a edição mais extensa já feita do livro.

   A 43ª reimpressão de "Eu" traz todos os 217 poemas conhecidos do Poeta Raquítico, como Augusto dos Anjos chegou a assinar. Nela estão incluídos cinco sonetos que não estavam nas edições anteriores, versos esses descobertos em jornais paraibanos pelo biógrafo do escritor Raimundo Magalhães Júnior.

   O quinteto de poemas não é o único afago aos admiradores de Dos Anjos. "Eu e Outras Poesias", título com o qual a obra vem sendo publicada desde sua 3ª edição, foi encorpado com pelo menos duas iguarias que não estavam em suas antecessoras (ambas reproduzidas na íntegra nesta página).
A primeira é a entrevista feita com o poeta pelo médico Licínio Santos, que distribuiu um questionário para músicos, escritores e artistas do início do século a fim de compor o livro "A Loucura dos Intelectuais", lançado em 1914.
A segunda é o texto de 1984 em que Carlos Drummond de Andrade fala do impacto provocado pela leitura de "Eu" e classifica Dos Anjos como "o grande caso singular da poesia brasileira".

   Não pára aí. Não é em nenhuma dessas atrações que o organizador da 43ª edição, Ivaldo Pio de Azevedo, coloca os acentos, literalmente. "A principal característica desta edição é a limpeza dos erros", diz ele à Folha.

   Esse economista encontrou pela primeira vez com a obra de Augusto dos Anjos em um salão de sinuca em Salvador, quando ainda era adolescente. Um dos jogadores recitou textos do poeta e Ivaldo ficou "paralisado".

   Desde que se aposentou, ele decidiu "virar um angelista". Há cinco anos Ivaldo vem cotejando diversas edições da obra do poeta. Segundo suas contabilidades, a 43ª edição traz 278 correções gráficas, editoriais ou gramáticas, além da inclusão de alguns subtítulos, dedicatórias e epígrafes.
Boa parte dos ajustes é pontual. Outras, porém, são bem sensíveis. O soneto "O Lamento das Coisas", por exemplo, tinha perdido o lamento em muitas edições de "Eu". "O substantivo "ai" tinha virado o advérbio "aí'", diverte-se o organizador da obra.

   O economista aposentado faz questão de afirmar que não trabalhou sozinho nessa limpeza. Ele diz que usou correções já feitas pelos "angelistas" Antonio Houaiss, Zenir Campos Reis e Alexei Bueno, editor da "Poesia Completa" de Augusto dos Anjos lançada em 94 pela Nova Aguilar.

   "Com a ajuda deles, finalmente se pode oferecer o verdadeiro "Eu" aos fiéis de Augusto dos Anjos", diz Ivaldo.

   Ele não é o único a aproximar a admiração ao poeta paraibano a uma religião. "Não sei o nome correto, se Augustismo ou Augusto-dos-Anjismo", escreve Soares Feitosa, sobre a "religião, ou seita" de culto ao poeta.
Organizador da principal página na Internet sobre poesia brasileira, o "Jornal da Poesia" (www.secrel.com.br/jpoesia/), que traz mais de 150 poemas "angélicos", Feitosa crava: "Ninguém na literatura da língua portuguesa é mais amado ou mais odiado do que Augusto dos Anjos".

   Esse amor e ódio está sendo posto à prova na terra natal do poeta. Termina nas próximas semanas a eleição "O Paraibano do Século", votação promovida em todo o Estado pela Rede Globo.

   Nas últimas parciais divulgadas pelo jornal paraibano "A União", Augusto dos Anjos liderava com folga, à frente de João Pessoa, Celso Furtado e Ariano Suassuna.

   "Peço às pessoas que eventualmente ainda pensam em sufragar meu nome, que se juntem a mim para votarmos em Augusto dos Anjos, a fim de que a Paraíba não deixe de dar a seu maior poeta o título de paraibano do século", escreveu Suassuna no último dia 12, na Folha. (Cassiano Elek Machado, Folha de S. Paulo)

Confraria veste roupa de luxo no escritor

   No início do ano, 211 envelopes levaram a diversas partes do Brasil uma das roupagens mais luxuosas já dadas a Augusto dos Anjos. A capa vermelha trazia o desenho expressivo de um esqueleto humano e o título: "Poesias de Augusto dos Anjos".

   O volume é o sexto editado pela Confraria dos Bibliófilos do Brasil, grupo com sede em Brasília criado em 1995 para reunir colecionadores de livro de todo o país.

   A seleta de poesias foi organizada e apresentada por um dos mais célebres "angelistas", o poeta e crítico literário Ferreira Gullar.
"Na obra de Augusto dos Anjos aparecem, não de maneira eventual e sim como elemento constitutivo de sua linguagem, alguns traços que caracterizam a nova poesia, a que se convencionou chamar de poesia moderna", escreve Gullar na apresentação, mostrando como o poeta criou uma linguagem que era, ela mesma, "uma experiência nova à percepção".

   Além do ensaio sobre o pioneirismo literário do poeta, a edição bibliófila tem como atração dez desenhos do paulista José Antonio Van Acker.
Os traços do desenhista e escultor, alguns reproduzidos nesta página, capturam outra das características essenciais do poeta paraibano. Alguns chamam de morbidez ("Já o verme -este operário das ruínas-/Que o sangue podre das carnificinas/Come, e à vida em geral declara guerra,/Anda a espreitar meus olhos para roê-los..."), outros, de pessimismo. Alfredo Bosi, em seu "História Concisa da Literatura Brasileira", chama atenção para a "angústia moral".

   José Salles Neto, engenheiro aposentado e sócio 000 da confraria, diz que ainda existem 20 exemplares da edição de luxo das poesias de Augusto dos Anjos disponíveis. Os livros custam R$ 130 e podem ser comprados pelo telefone 0/xx/61/381-5605.

   A próxima empreitada do grupo dos bibliófilos deve ficar pronta em maio. Trata-se de "Galinha Cega, Mansinho e outros Bichos de João Alphonsus", volume ilustrado por Leonardo Alencar que reúne textos curtos do contista mineiro João Alphonsus, que completaria 100 anos de idade em 2001. A apresentação da obra será feita pelo seu irmão, poeta Alphonsus de Guimaraens Filho. (CEM)

Autor inspira dois espetáculos

   Augusto dos Anjos, quem diria, pode virar espetáculo de dança na Finlândia. A coreografia "A Carne dos Vencidos no Verbo dos Anjos", inspirada na obra do poeta, deve estar na programação de um festival de dança em Helsinque, no final deste ano.

   Criada por Alejandro Ahmed, do grupo catarinense Cena 11, a coreografia foi apresentada pela primeira vez em 1998. Dela fazem parte o coreógrafo e a cantora Hedra Rockenbach, que atua usando perna de pau.

   O poeta também serviu de inspiração para coreografia do paulistano Sandro Borelli, do grupo F.A.R. 15, que teve pré-estréia em fevereiro deste ano, em São Paulo, e volta a ser encenada no próximo dia 18, no Teatro Municipal de Santo André (SP).
Borelli diz que a idéia de fazer "Senhor dos Anjos?" surgiu quando sua mãe entrou em coma. "O sofrimento dela resgatou a angústia que tive ao conhecer a obra de Augusto dos Anjos quando era adolescente", diz. (CEM)

Editora relança "Melhores Poemas"

   Augusto dos Anjos também está de volta em uma das principais coleções de poesia brasileira.

   A série "Melhores Poemas", que a editora Global vem publicando desde o início da década de 80, está relançando uma fornada de títulos que inclui a obra do "filho do carbono e do amoníaco", como escreveu o poeta em "Psicologia de um Vencido".

   O soneto é um dos 58 apresentados na coletânea, feita por um dos melhores estudiosos de Augusto dos Anjos, o crítico e poeta paulista José Paulo Paes (1926-1998), que também fez a apresentação do volume.

   O "angelista" reuniu 40 poemas originalmente publicados em "Eu", de 1912, e 18 do apêndice "Outras Poesias".
Outra atração do título, que está sendo vendido nas livrarias de todo o país por R$ 23, é uma alentada biobibliografia sobre Dos Anjos, que informa todos os passos dados pelo escritor nos 14 anos em que ele produziu poesia. (CEM)

CRONOLOGIA

1884 - Nasce no engenho Pau d'Arco, Vila do Espírito Santo, Paraíba, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

1901 - Começa a publicar no jornal paraibano "O Comércio". Escreve "Versos Íntimos"

1903 - Entra na Faculdade de Direito de Recife, Pernambuco

1908 - Ensina literatura na Paraíba

1910 - Casa-se com Ester Fialho e muda para o Rio

1911 - Nasce morto seu primeiro filho. Dá aulas de geografia na Escola Normal e no colégio Pedro 2º

1912 - Publica o livro "Eu", custeado pelo seu irmão Odilon, pelo total de 550.000 réis, em tiragem de mil exemplares

1914 - É nomeado diretor de escola em Leopoldina, Minas Gerais. Morre lá, meses depois

FALA DRUMMOND

"Li o "Eu" na adolescência e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, engastadas em decassílabos, palavras estranhas como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia. Zooplasma, intracefálica... E elas funcionavam bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do "Eu" foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Augusto de Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira."


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
texto feito pelo poeta em 1984, centenário de Augusto dos Anjos, a pedido da Biblioteca Nacional; será publicado pela primeira vez em uma edição de "Eu" no volume preparado pela Bertrand Brasil

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