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02/04/2001 A seca do Nordeste, variante do 'realismo fantástico'? Mais um livro sobre a seca do Nordeste? Sim, é este o caso de Vida e Morte no Sertão (História da secas no Nordeste nos séculos 19 e 20), de Marco Antonio Villa. E não é de admirar, tratando-se de um fenômeno que em século e meio exterminou três milhões de pessoas e que tem sido, ao longo deste período, uma espécie de freio-de-mão puxado que empaca o desenvolvimento da região. A bibliografia sobre a seca é extensa, e o livro de Villa torna-se mais interessante na medida em que recorre não apenas a textos sócio-econômicos ou relatórios governamentais, mas cita extensivamente a imprensa da época e a literatura que tem a seca como tema. É de certa forma inexato falar sobre a seca. Embora possa ser considerado um fenômeno cíclico, recorrente, o próprio passar do tempo e as mudanças sociais e históricas fazem com que a seca vá ficando personalizada a cada vez que ocorre, diferindo das anteriores em intensidade e em conseqüências. É, no dizer de Euclides da Cunha, o "único fato de toda nossa vida nacional ao qual se possa aplicar o princípio da previsão". Só no século 17 o autor do livro distingue seis grandes secas: 1603, 1605-1607, 1614, 1645, 1652 e 1692. Falar sobre a seca, portanto, é uma abstração semelhante à de quem considera que no século 20 tivemos não duas, mas uma Guerra Mundial, começada em 1914 e terminada em 1945, com uma pausa de duas décadas no meio, para recompor alianças, rever estratégias e atualizar armamentos. Villa recupera momentos pitorescos da luta contra a seca, como o episódio burlesco da importação de dromedários para tentar aclimatá-los no sertão cearense, em 1859. A operação, que é descrita em detalhe no capítulo 1, acabou (por assim dizer) dando com os burros n'água, e é uma abertura adequada para o livro. Vida e Morte no Sertão resume em menos de 300 páginas uma catástrofe em câmera lenta que vem se arrastando há séculos, mas o leitor deve estar preparado para encontrar não apenas a comédia, mas também a tragédia bíblica: pestes de gafanhotos, de cascavéis, de ratos; surtos e epidemias de varíola, de sarampo, de peste bubônica. A necessidade de comprimir muita informação em poucas páginas leva o autor do livro a nos desferir uma saraivada de fatos que mal nos deixam tempo para assimilar o seu impacto. Episódios de canibalismo, de defloramento e prostituição de crianças misturam-se a informações sobre a realização de espetáculos musicais em Pernambuco, em benefício das vítimas da seca... do Ceará, e de relatórios do governo sugerindo a importação de trabalhadores hindus, egípcios e japoneses, "já afeitos a culturas de irrigação". Aqui e acolá pipocam as notícias sobre a criação de campos de concentração, ou "abarracamentos", para instalar os retirantes e evitar que acabem invadindo as capitais. Durante a seca de 1915, que Rachel de Queiroz registrou em O Quinze, as elites brasileiras só tinham olhos para... a guerra da Europa, tendo sido criados, inclusive, "comitês para a adoção de órfãos belgas" (p. 98). O levantamento feito por Villa, semana a semana, mês a mês, ano a ano, faz emergir a visão de um Brasil aterrorizante, com protagonistas que exercem a inocente crueldade dos personagens de García Marquez, e eventos que reproduzem os horrores pós-apocalípticos de Stephen King. O acúmulo de fatos por meio da minuciosa consulta a registros históricos faz Vida e Morte no Sertão se assemelhar, em certos momentos, aos livros de Charles Fort (1874-1932). O leitor há de ter ouvido referências a este excêntrico personagem que, durante 27 anos, financiado por uma pequena herança que lhe permitia viver sem precisar trabalhar, não fêz outra coisa senão ir todos os dias ao Museu Britânico e pesquisar revistas científicas e periódicos, anotando todos os fatos estranhos e inexplicáveis que encontrava. O resultado: quatro livros publicados entre 1919 e 1932; o primeiro e mais famoso deles, O Livro dos Danados, foi editado no Brasil pela Editora Hemus. Fort era um diletante sem ideologia. Queria apenas divertir-se, satisfazer uma curiosidade pouco nítida e, de passagem, questionar a arrogância e incoerência que julgava ver nos cientistas de sua época. Ler os seus livros é cruzar um tiroteio de prodígios sem sentido: pedras ou rãs que chovem do céu, criaturas fantásticas encontradas nos bosques, luzes avistadas na Lua ou em Marte, pessoas que somem no ar à vista de todos, pregos encontrados no interior de rochas antigas... Existe hoje toda uma "cultura forteana" disseminada no mundo (inclusive uma Fortean Society), principalmente após o sucesso de seguidores como Pauwels & Bergier (O Despertar dos Mágicos) e Erich von Daniken (Eram os Deuses Astronautas?). Os seguidores de Charles Fort & epígonos (e que hoje, aliás, fervilham na Internet, o caldo nutriente ideal para a sua vocação pela coleta de fatos em estado bruto e pela redação não-remunerada) foram tratados pela imprensa sob o rótulo generalizante de "realismo fantástico". Curiosamente, emergiram no mercado editorial na década de 60 e explodiram nas listas de best sellers a partir dos anos 70, o mesmo que aconteceu aos romancistas latino-americanos cuja produção recebeu por sua vez o rótulo de "realismo mágico". De comum entre os dois grupos de escritores existe uma percepção de que a realidade é maior, mais complexa e mais contraditória do que as "versões oficiais" dela que circulam por aí, nas revistas acadêmicas e científicas, e na chamada literatura realista ou naturalista. A principal limitação dos forteanos é aquilo que Umberto Eco (em Viagem na Irrealidade Cotidiana, criticando obras de MacLuhan e de Sedlmayr) batizou de cogito interruptus: a justaposição de fatos estranhos sem chegar a qualquer esboço de teoria baseada neles; a recusa a levar um raciocínio até, se não as últimas, pelo menos as primeiras conseqüências; a infindável enumeração de premissas sem o menor sinal de que estamos nos aproximando de uma conclusão. O mesmo, contudo, não acontece nos escritores do "realismo mágico" latino-americano. Por mais que descrevam ambientes, personagens ou eventos fantásticos, estes escritores sabem muito bem onde vivem e o que lhes acontece ao redor. Há exceções notórias, como a de Jorge luís Borges, mas são públicas e conhecidas as opiniões políticas de autores como García Marquez, Julio Cortázar, Ernesto Sábato, Carlos Fuentes e tantos outros. Eles sabiam que seu continente era a pátria do estranho, do bizarro, do inesperado: mas sabiam também que é possível (e útil) extrair uma conexão lógica entre tantos elementos absurdos. O que nos leva a uma outra obra que guarda leves semelhanças de formato com a escola forteana, e uma grande afinidade de espírito com o livro de Marco Antonio Villa. Trata-se de As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano (Paz e Terra, 1977), outra esmagadora enumeração de fatos, estatísticas e episódios grotescos ou trágicos da história do continente. Nada de cogito interruptus, aqui: Galeano é de esquerda, é um crítico feroz do capitalismo e do colonialismo, vergasta sem piedade a contradição entre a defesa do livre comércio que o capitalismo liberal faz além fronteiras enquanto mantém seu próprio mercado convenientemente protegido. Podem-se discutir as teses de Galeano, mas diante dele não se pode dizer que a realidade latino americana "desafia qualquer interpretação". Pelo contrário: é um convite a elas. O mesmo se dá com a seca do Nordeste. Marco Antonio Villa anuncia na introdução do livro que em momento algum pretendeu "apresentar soluções para o problema da seca", mas nem por isso se exime de criticar políticas oficiais, denunciar a omissão cruel das elites, e mesmo as contradições da esquerda, ao noticiar que em plena seca de 1951-1953 o Partido Comunista Brasileiro enviou militantes para o interior para... recolher assinaturas para um manifesto contra a bomba atômica (p. 168). Existe um sabor de Charles Fort num livro como o de Villa, com suas histórias sobre um sertanejo que foi preso "após ter comido uma criança com mel de abelha" (p. 69), ou sobre o prefeito que, ao receber o Ministro do Interior em plena seca, "mandou regar a estrada com a água de dois caminhões-pipas, que serviam precariamente à população, para diminuir o desconforto da comitiva" (p. 229) - para não lembrar de novo os dromedários e os órfãos belgas. Os sintomas que pipocam à superfície podem ser bizarros ou grotescos, mas a seca do Nordeste não é um flagelo incompreensível. O que acontece ali faz sentido, e Villa enumera no capítulo final algumas das causas, nada mágicas, que geram a situação do Nordeste: o latifúndio improdutivo, o monopólio da água, a falta de educação formal dos sertanejos, o cultivo de produtos que exigem muita água, o baixo nível tecnológico das pequenas propriedades, o tipo de solo que dificulta o armazenamento de água, a excessiva evaporação, o minifúndio, etc. Charles Fort, sim, ficaria perplexo diante de um país que só não resolve isto porque não quer. (Braulio Tavares, Jornal da Tarde) Braulio Tavares, escritor, é parceiro de Ivanildo Vila Nova na canção Nordeste Independente. btavares@unikey.com.br |
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