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05/04/2001

Alceu moderniza suavemente o forró

  O lado negociante que todo músico tem que ter é um grande conjunto vazio em Alceu Valença. O compositor pernambucano é o primeiro a admitir que é uma negação na hora de negociar com gravadoras, discutir projetos e outras burocracias necessárias.

   - É por isso que a minha carreira independe dos discos que lanço - diz ele. - É claro que gosto de gravar e lançar, mas não posso me fiar nisso.

   Ultimamente Alceu idealiza seus discos, os grava por conta própria e depois procura uma companhia que os distribua. Em 1998, revoltado com os rumos que o forró nordestino vinha tomando, lançou "Forró de todos os tempos" (Sony), em que lembrava as composições de mestres do gênero como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Qual não foi sua surpresa quando as vendas ultrapassaram as 200 mil cópias. Alceu agradece a bandas como o Forroçacana e o Trio Forrozão.

   - Este pessoal novo mostrou o forró de verdade à garotada, que aderiu geral - diz ele. - Muito melhor do que aquele forró de teclado do Nordeste, que mais parece um calipso, só tem de forró o triângulo e a sanfona.

   Apostando no crescimento de sua popularidade entre os jovens, Alceu está lançando "Forró lunar" (Sony), um disco em que usa o bate-coxa como base para suas personalíssimas criações.

   - Foi engraçado, eu cheguei para o pessoal da Sony e mostrei uma gravação básica das músicas que tinha feito - conta ele. - Eles aprovaram na hora, me mandaram ir para o estúdio regravar tudo.

   Para não deixar escapar o clima pernambucano das canções, Alceu gravou grande parte do disco em Recife.

   - Tinha que aproveitar o sotaque musical de alguns músicos, como o sanfoneiro Chiquinho Ceará e o percussionista Edwin - conta. - Tenho também o pandeiro do Ivo, que substituiu o Jackson do Pandeiro no Trio Nordestino.

   O lado urbano das composições, que Alceu considera importante em sua carreira, não foi esquecido no disco.

   - Tenho o baixo de Maurício Abraham e o violoncelo de Lui Coimbra, feras no sotaque carioca ao tocar - diz ele.

   Apesar de ter composto recentemente a maioria das músicas, Alceu tem dúvidas quando ao ineditismo de uma delas, "Balalaica".

   - Durante o governo Sarney, selecionaram alguns artistas para musicar poemas de autores russos, para um disco que seria enviado ao Gorbachev - explica. - Eu fui um dos selecionados, trabalhei em um poema de Maiakóvski, mas nunca me deram a gravação. Ela ficou na minha cabeça esse tempo todo, e agora está no meu disco. Não sei bem se é nova ou inédita.

   "Balalaica" é uma das canções mais interessantes do disco: nela, Alceu versa uma espécie de poesia concreta (da adaptação de Augusto de Campos para o poema russo) sobre a base de forró.

   - Nunca fui muito fã desse negócio de musicar poesia, mas até que consegui me arrumar com essa - diz ele.

   No mesmo gênero está o "Forró concreto", que fecha o disco. Desta vez, no entanto, Alceu embola a letra sobre uma percussão hipnótica, que bem poderia ser eletrônica.

   A canção que dá nome ao CD, "Forró lunar", composta em Olinda, mostra uma religiosidade particular de Alceu.

   - São Jorge luta para limpar o Brasil, sob a bênção de São Luiz Sanfoneiro - diz. (Bernardo Araujo, O Globo)

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