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18/04/2001

O vôo secular do pavão misterioso

Mostra '100 Anos de Cordel', que tem início na terça-feira, no Sesc Pompéia, terá, durante 40 dias, cordel, repente, cinema, teatro e outras manifestações da cultura popular nordestina

MAURO DIAS

   O Pavão Misterioso voará, a partir de terça-feira, durante 40 dias, sobre as ruas, pelas salas e teatros do Sesc Pompéia. É um pavão de mentirinha, não aquele da verdade imaginária do romance de cordel nordestino. Um pavão desenhado por Jô Oliveira que, preso por fios, guiará o visitante da mostra 100 Anos de Cordel - A História Que o Povo Conta pelas barracas de comida, palcos de espetáculos musicais e teatrais, salas de oficinas de xilogravura e de encontros de repentistas, emboladores, cantadores.

   O pavão misterioso é personagem emblemático dos cordéis. Fica sendo um símbolo de 100 Anos de Cordel, o mais longo evento já patrocinado pelo Sesc. O coquetel de lançamento começa às 19 horas da terça-feira, com presença de alguns dos artistas que participarão do evento e apresentação das duplas de cantadores Pena Branca e Raio de Sol e Geraldo Amâncio e Pedro Bandeira.

   Eles são apenas quatro dos músicos convidados - alguns muito famosos, como Oliveira das Panelas, considerado, hoje, o maior dos improvisadores do Nordeste, outros nem tão conhecidos - que estarão cantando até o dia 25 de maio.

   Mas a música dos repentistas é apenas uma das atrações de 100 Anos de Cordel. A programação inclui oficinas de cordelistas e gravadores, peças de teatro infantil e adulto, exibição de filmes, fotos e xilogravuras.

   A curadoria da mostra é do jornalista Audálio Dantas, nascido em Alagoas, de onde saiu pequenino - ele está perto de completar 60 anos mas não perdeu o sotaque nem o interesse pelas coisas da cultura popular, a de sua região, particularmente.

   Audálio foi convidado pelo Sesc para desenvolver um ciclo de atividades cuidando da cultura nordestina. E não há nada mais representativo dela do que o cordel. Trabalha desde dezembro na montagem do gigantesco projeto - que, ainda assim, não dará conta da diversidade de manifestações vivas na região.

   "A questão é que a mídia não registra", diz o curador. "Essa cultura popular não deixou de se maniefestar, não virou folclore; são constantes os encontros de 'bancadas', repentes, e estão sempre surgindo cordelistas novos, com visão atualizada do mundo", conta. Tão comuns que vários dos nomes que ele convidou não puderam aceitar o convite porque tinham outros compromissos.

   100 Anos de Cordel incorpora também o conceito de arte armorial, sugerido por Ariano Suassuna, no final dos anos 60 - a tradição popular tratada de forma erudita. Por exemplo, Antônio Nóbrega encenará A Chegada de Lampião no Inferno, texto armorialista de Suassuna. Em cartaz, ao todo, estarão seis espetáculos teatrais.

   Alceu Valença fará shows, na quarta e quinta-feiras, dividindo o palco com cantadores, e um professor norte-americano, Mark Curran, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, falará sobre cultura popular nordestina. Ele ensina português e cultura brasileira a partir do cordel. (O Estado de S. Paulo)

A migração do cordel, da feira livre ao shopping
JOSÉ NÊUMANNE

   A migração violenta e acelerada do campo para a cidade e do Norte e Nordeste para o Sudeste teve como conseqüência natural o transplante de manifestações culturais típicas de uma região para a outra. É o caso do forró, último grito da moda dançante da classe média paulistana. E também o da literatura de cordel, registro impresso da poesia popular nordestina, cuja manifestação mais notória é a dos repentes e desafios.

   Os romances metrificados e rimados, impressos em toscos folhetos com xilogravuras na capa, representaram, durante muito tempo, um respeitável meio de vida para quem dispusesse de estro para divulgar na linguagem simples do povo leitor as narrativas clássicas da literatura erudita européia. Ou para registrar a história de ocasião em locais ermos sem bancas de jornais e, portanto, sem acesso fácil e cotidiano à notícia. No meio disso tudo, é claro, os autores, muitos deles proprietários dos prelos, davam asas à imaginação e à verve.

   O poeta José Alves Sobrinho e o professor de matemática Átila Almeida fizeram um levantamento dos prelos remanescentes no interior nordestino e publicaram um Dicionário Bio-Bibliográfico da Poesia de Bancada, mostrando a difícil sobrevivência do gênero no Nordeste. Apesar disso, ainda há a resistência de teimosos como Manoel Monteiro, cordelizando manifestos ecológicos e guias de saúde em Campina Grande, e Antônio Américo de Medeiros, vendendo seus folhetos em Patos, também na Paraíba, a exemplo de José Costa Leite, que mantém prelo e banca na feira de Condado, em Pernambuco.

   A nata da nata da literatura do cordel, contudo, pode ser encontrada mesmo é no Brás, o bairro dos nordestinos em São Paulo: ali se imprimem e vendem os versos de Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, José Pacheco, Manoel d'Almeida Filho e Apolônio Alves dos Santos, entre outros grandes cordelistas. Cerca de 300 clássicos do gênero fazem parte do acervo da Editora Luzeiro, que também vende coletâneas de orações e bruxarias e folhetos com letras de sucessos do cancioneiro comercial.

   Reunidos em livretos lançados pela Editora Hedra, sob responsabilidade de um respeitável especialista, o belga Josef Luyten, cordelistas renomados, como Rodolfo Coelho Cavalcanti, Cuíca de Santo Amaro e Patativa do Assaré, saltam das banquinhas de feira para as prateleiras das livrarias dos shopping centers das metrópoles. (O Estado de S. Paulo)

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