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23/04/2001
O escritor do homem do Nordeste
Filme biográfico marca centenário de nascimento de José Lins
do Rego, a ser comemorado em 3 de junho. Livros do
autor fizeram do cangaço e dos engenhos um dos temas primordiais da prosa brasileira
VALÊNCIO XAVIER
Este ano se comemora
o centenário de nascimento de José Lins do Rego Cavalcanti (Pilar, Paraíba, 3 de junho
de 1901 Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1975), que em seus escritos assinava
José Lins do Rego. Era ele um dos principais escritores do romance regionalista
nordestino, ao lado de Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Ao contrário de
Jorge Amado, que então partidário do Partido Comunista fazia uma literatura engajada, em
seus romances José Lins do Rego, sem partidarismo, fazia uma bem fundamentada crítica
social sobre a opressão sofrida pela classes baixas do mundo rural e urbano nordestino. O
povo do Nordeste aparecia nu e cru e sem embelezamento nos romances do autor.
José Lins do Rego foi dos primeiros escritores brasileiros a adotar o
neo-realismo. Seus livros partiam de temas populares foi Zé Lins do Rego quem
popularizou a figura do cangaceiro na literatura brasileira e traziam uma linguagem
sem encheção de lingüiça, abordando diretamente o assunto, sem demagogia. A
construção de seus personagens é um retrato realista sem maquiagem e retoques. Essa
clara e direta linguagem espontânea levou os livros de José Lins do Rego a alcançarem o
grande público e a serem adaptados para cinema O Cangaceiro (53), longa de Lima
Barreto, tem clara influência do romance Cangaceiros, publicado no ano anterior; Deus e o
Diabo na Terra do Sol (1963) tem a influência confessada por Glauber Rocha de Pedra
Bonita (1938) e Cangaceiros.
A participação de José Lins do Rego no cinema foi fundamental.
Flamenguista doente, fez textos para o cinejornal O Esporte em Marcha, de Mario Filho;
enquanto ele escrevia as matérias sobre o Flamengo, Nelson Rodrigues, tricolor fanático,
escrevia as do Fluminense. Em 1941 faz o argumento de O Dia É Nosso (1941) e dividiu a
feitura do roteiro com Milton Rodrigues, o diretor do filme. Pureza foi filmado em 1940,
com direção do português Chianca de Garcia. Baseado em seu romance, Walter Lima Junior
filmou Menino do Engenho (1965), um clássico do Cinema Novo que está sendo restaurado
pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro. Em 1976, Marco Faria dirigiu Fogo
Morto. Todos são filmes de sucesso de público e crítica. Atualmente, Vladimir Carvalho
está preparando as filmagens de um longa-metragem sobre vida e obra de José Lins do
Rego, que inclui trechos de filmes tirados de suas obras.
Não se tem conhecimento de muitos textos de José Lins do Rego adaptados
para a televisão (a minissérie Riacho Doce é uma exceção). Segundo Mário Fanuchi,
diretor do Museu Memória da TV, isso se deve ao fato das adaptações dos romances do
autor paraibano exigirem cenografias custosas e muitas cenas externas.
Também as histórias em quadrinhos foram buscar inspiração em José Lins
do Rego. A Editora Brasil-América, em sua série mensal Edição Maravilhosa, quadrinizou
seis livros do autor Cangaceiros (1954), Menino de Engenho (1955), Doidinho (1955),
Bangüê (1959), O Moleque Ricardo (1959) e Pedra Bonita (1961).
Apesar destas obras estarem sempre ligadas à temática nordestina, José
Lins do Rego dividiu tematicamente as fases dos enredos de seus livros. O ciclo da
cana-de-açúcar, mostrando o fim dos engenhos e mudança para as usinas: Menino de
Engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), Moleque Ricardo (1935), Usina (1936) e
Fogo Morto (1936); ciclo do cangaço aliado ao misticismo e seca: Pedra Bonita (1938), Os
Cangaceiros (1952), publicado em capítulos na revista O Cruzeiro, ilustrado em cores por
Cândido Portinari; obras que de alguma maneira se ligam aos ciclos anteriores; e títulos
sem vinculação com os ciclos anteriores como Água Mãe (1941) e Eurídice (1947), o
primeiro e único livro de José Lins do Rego cuja ação se passa no Rio de Janeiro; e
Histórias da Velha Totônia (1936), de literatura infantil.
U m fato marcante da literatura de José Lins do Rego é a importância de
crianças como personagens essenciais, como em Menino de Engenho, Doidinho, Moleque
Ricardo (que era um adolescente) e a formidável criação de Antônio Bento, coroinha do
padre Amâncio em Pedra Bonita. (Gazeta do Povo)
FRAGMENTO
José Lins por ele mesmo
Em
1954, José Lins do Rego passou à revista O Cruzeiro informações sobre suas manias.
Aqui vão algumas delas:
Detesta mulher que fuma. Só escreve à mão e pela manhã. Não tem
compositor preferido, tanto faz Mozart como Noel Rosa. Poetas de sua predileção: Manuel
Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Dante Milano, Augusto Frederico Schmidt e Murilo
Mendes. Ao terminar de escrever um livro, não o lê nunca mais. Pesa 90 quilos, apesar de
todas as prevenções contra a gordura. Não tem preferência por qualquer um de seus
livros. Quando seu time (Flamengo) perde, acorda de noite e não dorme mais. Romancistas
de sua preferência: Stendhal, Tomas Hardy, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Cornélio
Pena, Armando Fontes. Às vezes ajuda a mulher em casa, menos em bordados e costuras, mas
dá o seu palpite. Não gosta nem desgosta de viajar de avião, mas prefere estar em terra
firme. Primeiro livro que leu: A História de Carlos Magno, quando tinha 9 anos. Tem
conseguido mais popularidade no futebol do que na literatura. |
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