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 Causos de damas sertanejas traídas, submissas, querendo ser modernas

30/04/2002

 

 

Mulheres do sertão , de Maria Conceição de Góes. Editora Revan, 96 páginas. R$ 16
Maria Yedda Linhares

   Com sensibilidade apurada para as coisas e a cultura de seu sertão nordestino, numa linguagem simples, despojada de maiores preocupações em passar a limpo suas memórias de infância, a nossa historiadora e professora universitária revela-se uma escritora perceptiva nestes relatos de mulheres de sua terra. Talvez não tenham feito História, essas mulheres tristes, valentes, subjugadas e rebeldes. No entanto, deixaram na memória coletiva a marca de seus feitos, de sua rebeldia, de sua maneira de levar avante suas próprias vidas.

Heroínas da vida, que enfrentaram desafios

   Certamente não foram heroínas populares, não creio que tenham sido decantadas nos versos de cordel, não deixaram monumentos nem uma obra literária, apenas viveram por vezes como um desafio a ser enfrentado na determinação de decidirem sobre suas vidas. Terão sido felizes? Não resta dúvida de que a historiadora foi muito além das fontes de arquivos e relatórios oficiais ao encontrar sua inspiração nas lembranças dos relatos de família, na experiência acumulada pela vivência com a cultura do sertão nordestino — as histórias de vida — que a memória familiar preservou, marcos de uma sociedade e de uma era passada. A própria autora destes relatos reconhece ser impossível separar as lembranças da imaginação já que é no exercício da criação literária que ela se encontra inegavelmente mais próxima dessas mulheres do seu sertão e do seu Nordeste, de velhas histórias que ficaram na memória familiar, passadas ora em Apodi, ora em Mossoró, e que terminam já em Natal no litoral mais moderno, mais recente.

   Assim foi Chiquinela, filha de fazendeiro, que, toda nua, atravessou a nado o açude da fazenda do pai e foi encontrar o namorado e as roupas que deixara de véspera escondidas, montou na garupa do cavalo de seu amado proibido, deixando para trás a fama de rebeldia. E possivelmente a vergonha dos pais. Outras foram as Chiquinelas que deram demonstrações de rebeldia, sobretudo contra a tradição dos casamentos montados pelas famílias, como a de Francisca Umbelina de Noronha, que amava os passarinhos, passava suas férias na cidade de Apodi, sertão mossoroense, já bem perto de um outro sertão, o do Jaguaribe cearense. Nesse sertão, diz-nos nossa autora, nada acontecia que merecesse contar, nem as meninas eram bem-vindas nesse sertão de machos. O resto, tudo na mesma, mulheres, vacas, cabras, galinhas criadas e cercadas para reproduzirem.

Teúdas e manteúdas sustentadas por amantes

   Várias são as histórias que se contam e se entrelaçam, histórias de fazendeiros, comerciantes, mulheres dóceis, outras inquietas, algumas teúdas e manteúdas que satisfaziam a vaidade, como se esperava, de um marido rico e macho, senhor de gado, açudes, negócios vários representados por fazendas e armazéns. Por aí ecoavam notícias do sertão do Carin de padre Cícero, como as dos sertões vizinhos da Paraíba e das tropelias do bando de Lampião, que teve a sua primeira derrota nas ruas de Mossoró. É lapidar o encontro final, de um lado, entre Francisca — sempre presente ao longo das histórias relatadas e entrecortadas — já agora modernizada no corte de cabelo, nas pernas depiladas, nos vestidos curtos e no convívio, longe dos açudes, com o mar de Natal, e, de outro lado, seu marido infiel, sempre ausente, ilustração de uma sociedade que se desmontava num mundo em ruínas, face à modernidade que invadia velhos costumes e hábitos. Como era de bom tom nos maridos de classe alta da época, ele visita a esposa, já moribundo, suspirando pela presença de outra que ficara na fazenda.

   Nossa autora transcreve, com incrível sensibilidade sociológica e literária, o conformismo da mulher legítima tradicionalmente traída, o desconforto do marido longe de sua última amante, a frouxidão dos filhos, e, ao mesmo tempo, a decisão como mulher já afastada dos padrões machistas de esposa sertaneja de recusar receber a amante à cabeceira do leito de morte do marido. Nascia a mulher moderna de um outro nordeste, de outra era. Pelo menos no tocante aos ricos, aos dominantes dessa sociedade. Continuariam a existir mulheres como a jovem Doca, que sobe na boléia de um caminhão ao deixar Mossoró e enfrenta o pai a implorar-lhe que desça, dizendo: “Você mal conheceu-o, esse homem, minha filha”. Mas Doca continua sua viagem olhando para frente e deixando para trás a sina de sua mãe — casada com um lavrador, cheia de filhos, vivendo à beira da miséria absoluta. Este continua sendo o destino do cidadão nordestino, sem terra, sem gado, sem açude — migrar em busca de sobrevivência. As mulheres de Maria Conceição de Góes, por certo, mudaram e seus coronéis também. MARIA YEDDA LINHARES é historiadora

O Globo)

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