Mulheres do sertão , de Maria Conceição de Góes.
Editora Revan, 96 páginas. R$ 16
Maria Yedda Linhares
Com sensibilidade apurada para as coisas e a cultura
de seu sertão nordestino, numa linguagem simples, despojada de maiores preocupações em
passar a limpo suas memórias de infância, a nossa historiadora e professora
universitária revela-se uma escritora perceptiva nestes relatos de mulheres de sua terra.
Talvez não tenham feito História, essas mulheres tristes, valentes, subjugadas e
rebeldes. No entanto, deixaram na memória coletiva a marca de seus feitos, de sua
rebeldia, de sua maneira de levar avante suas próprias vidas.
Heroínas da vida, que enfrentaram desafios
Certamente não foram heroínas populares, não creio que tenham sido
decantadas nos versos de cordel, não deixaram monumentos nem uma obra literária, apenas
viveram por vezes como um desafio a ser enfrentado na determinação de decidirem sobre
suas vidas. Terão sido felizes? Não resta dúvida de que a historiadora foi muito além
das fontes de arquivos e relatórios oficiais ao encontrar sua inspiração nas
lembranças dos relatos de família, na experiência acumulada pela vivência com a
cultura do sertão nordestino as histórias de vida que a memória familiar
preservou, marcos de uma sociedade e de uma era passada. A própria autora destes relatos
reconhece ser impossível separar as lembranças da imaginação já que é no exercício
da criação literária que ela se encontra inegavelmente mais próxima dessas mulheres do
seu sertão e do seu Nordeste, de velhas histórias que ficaram na memória familiar,
passadas ora em Apodi, ora em Mossoró, e que terminam já em Natal no litoral mais
moderno, mais recente.
Assim foi Chiquinela, filha de fazendeiro, que, toda nua, atravessou a nado o
açude da fazenda do pai e foi encontrar o namorado e as roupas que deixara de véspera
escondidas, montou na garupa do cavalo de seu amado proibido, deixando para trás a fama
de rebeldia. E possivelmente a vergonha dos pais. Outras foram as Chiquinelas que deram
demonstrações de rebeldia, sobretudo contra a tradição dos casamentos montados pelas
famílias, como a de Francisca Umbelina de Noronha, que amava os passarinhos, passava suas
férias na cidade de Apodi, sertão mossoroense, já bem perto de um outro sertão, o do
Jaguaribe cearense. Nesse sertão, diz-nos nossa autora, nada acontecia que merecesse
contar, nem as meninas eram bem-vindas nesse sertão de machos. O resto, tudo na mesma,
mulheres, vacas, cabras, galinhas criadas e cercadas para reproduzirem.
Teúdas e manteúdas sustentadas por amantes
Várias são as histórias que se contam e se entrelaçam, histórias de
fazendeiros, comerciantes, mulheres dóceis, outras inquietas, algumas teúdas e
manteúdas que satisfaziam a vaidade, como se esperava, de um marido rico e macho, senhor
de gado, açudes, negócios vários representados por fazendas e armazéns. Por aí
ecoavam notícias do sertão do Carin de padre Cícero, como as dos sertões vizinhos da
Paraíba e das tropelias do bando de Lampião, que teve a sua primeira derrota nas ruas de
Mossoró. É lapidar o encontro final, de um lado, entre Francisca sempre presente
ao longo das histórias relatadas e entrecortadas já agora modernizada no corte de
cabelo, nas pernas depiladas, nos vestidos curtos e no convívio, longe dos açudes, com o
mar de Natal, e, de outro lado, seu marido infiel, sempre ausente, ilustração de uma
sociedade que se desmontava num mundo em ruínas, face à modernidade que invadia velhos
costumes e hábitos. Como era de bom tom nos maridos de classe alta da época, ele visita
a esposa, já moribundo, suspirando pela presença de outra que ficara na fazenda.
Nossa autora transcreve, com incrível sensibilidade sociológica e
literária, o conformismo da mulher legítima tradicionalmente traída, o desconforto do
marido longe de sua última amante, a frouxidão dos filhos, e, ao mesmo tempo, a decisão
como mulher já afastada dos padrões machistas de esposa sertaneja de recusar receber a
amante à cabeceira do leito de morte do marido. Nascia a mulher moderna de um outro
nordeste, de outra era. Pelo menos no tocante aos ricos, aos dominantes dessa sociedade.
Continuariam a existir mulheres como a jovem Doca, que sobe na boléia de um caminhão ao
deixar Mossoró e enfrenta o pai a implorar-lhe que desça, dizendo: Você mal
conheceu-o, esse homem, minha filha. Mas Doca continua sua viagem olhando para
frente e deixando para trás a sina de sua mãe casada com um lavrador, cheia de
filhos, vivendo à beira da miséria absoluta. Este continua sendo o destino do cidadão
nordestino, sem terra, sem gado, sem açude migrar em busca de sobrevivência. As
mulheres de Maria Conceição de Góes, por certo, mudaram e seus coronéis
também. MARIA YEDDA LINHARES é historiadora
(© O Globo)