Edgard Navarro, também co-autor do monólogo, prepara seu primeiro longa,
'Eu me Lembro'
MARIA DO
ROSÁRIO CAETANO
Especial para o Estado
Edgard Navarro, co-autor e co-diretor do
monólogo Bispo é, sem dúvida, o mais inquieto e ousado cineasta baiano desde Glauber
Rocha (1939-1981). Em breve o País conhecerá seu primeiro longa-metragem, Eu me Lembro,
uma espécie de "Amarcord soteropolitano". Ao contrário de Glauber, que
conseguiu, em apenas 42 anos de vida, realizar dez longas, Navarro, de 53 anos (fará 54
em outubro), só conseguiu fazer um e meio. Um é Eu me Lembro, que ele está finalizando
em Salvador. O meio é Superoutro, um dos cult movies de Caetano Veloso e Carlão
Reichenbach.
Caetano exaltou Superoutro, média-metragem
com cara de longa, no samba-enredo Cinema Novo, composto em parceria com Gilberto Gil e
gravado no disco Tropicália 2. Carlão ficou tão siderado pelo filme -- vencedor da
mostra 16 milímetros do Festival de Gramado/89 - que escalou seu protagonista, o ator
baiano Bertrand Duarte, para o principal papel de Alma Corsária.
Navarro, magro como um faquir, tem tudo a
ver com os delírios criativos de Artur Bispo do Rosário e de outros visionários. Nutre
irresistível fascínio pelos transgressores. Formado em engenharia civil, entregou o
diploma de presente ao pai e foi ser gauche na vida. Mais que gauche, um rebelde
empedernido. Nos anos 70, teve experiências com droga, viajou para a Bolívia no trem da
morte, passou por Arembepe. Experimentou de tudo. "Só não pirei de vez porque minha
mulher, que substituiu a mãe que eu perdi aos 12 anos, me segurou. Ela era psicóloga e
me levou para dentro da obra do Freud", relembra.
O engenheiro desgarrado iniciou-se no cinema
pelo Super-8 com Alice no País das Mil Novilhas. Era já homem feito (27 anos). O segundo
filme - O Rei do Cagaço (sic) - foi sua sátira escatológica ao gênero Nordestern.
Citaria essa aventura superoitista em Superoutro. Ainda na bitola amadora realizou
Exposed, Lin e Katazan e Na Bahia Ninguém Fica em Pé. Numa das edições da Jornada de
Cinema da Bahia, o endiabrado Navarro entediou-se com politizadíssimo debate
cinematográfico, daqueles corriqueiros nos anos 70, e tirou a roupa no meio da platéia.
Causou escândalo. O cineasta, hoje mais zen que provocador, reconhece que era muito
exibicionista.
Navarro estreou no 35 mm com o curta Porta
de Fogo (ficção glauberiana e visionária sobre o guerrilheiro Lamarca). Ganhou o
Troféu Candango de melhor curta no Festival de Brasília/84. Dois anos depois, refilmou,
em 35 mm, o Super-8 Lin e Katazan. Mais uma vez foi premiado no festival brasiliense.
Em 1989, o cineasta deu seu passo mais
ousado, ao realizar seu filme mais maduro e contundente. Ao longo de 45 minutos, em 16 mm,
imprimiu a história de um louco baiano (Bertrand Duarte), que queria voar como o
Super-Homem.
Para Navarro, Superoutro é um louco de rua,
espécie de d. Quixote do Terceiro Mundo, que tenta se libertar da miséria através de
sua alucinada imaginação. Tudo a ver com Artur Bispo do Rosário.
O diretor baiano, que estourou com Jorge
Furtado (que ganhou 11 prêmios no mesmo Fest Gramado, com Ilha das Flores), não
conseguiu seqüenciar sua carreira. Vieram os anos Collor, os mecanismos de produção
foram desmontados e ele perdeu 12 anos de vida cinematográfica. Ao longo dos anos 90, só
dirigiu um videoclipe (A Voz do Brasil), um documentário (Talento demais) e uma ficção
(O Papel das Flores). Todos no suporte vídeo. Eu me Lembro marcará a volta de Navarro ao
celulóide. E ele tem, prontinhos, mais quatro belos roteiros (Eu Pecador, O Homem Que
Dormia, Conspiração dos Alfaiates, este sobre a revolta que sacudiu a Bahia, no século
18, e Roma Negra).
Eu me Lembro, que tem ingredientes
autobiográficos, inventaria os grandes movimentos que mudaram a face do País de meados
da década de 50 até a década de 70, a partir de Salvador e dos olhos de Guiga, o
protagonista. O garoto cresce movido por culpa católica. Sexo e Deus são tabus. A morte
da mãe, quando ele era pré-adolescente, o marcará profundamente. Jovem, nutrirá raiva
muda pelo pai. Um dia, esse sentimento explodirá em episódio dramático. A literatura e
o cinema lhe darão acesso ao mundo dos poetas e visionários, tendo a ditadura militar, a
universidade, novas experiências de vida, quando "tudo explode colorido no sol dos
cinco sentidos", a guerrilha urbana como pano de fundo.
(© O Estado de S. Paulo) |