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18/04/2003
O CD Humberto
Teixeira - O Doutor do Baião acaba de chegar às lojas. Nele, grandes nomes da
MPB interpretam obras do compositor cearense que ajudou a criar o baião, em parceria com
Luiz Gonzaga. As gravações do disco foram filmadas e farão parte do documentário que
está sendo produzido pela filha do mestre, a atriz Denise Dummont, que pretende resgatar
a importância do pai para música brasileira
Luciano Almeida Filho
da Redação
Cearense
natural de Iguatu, Humberto Teixeira (1916-1979) entrou para a história como o ''Doutor
do baião'', o homem que ajudou Luiz Gonzaga a criar o baião e colocar a música do
Nordeste no mapa da música popular brasileira. Suas eternas parcerias com Gonzaga são
exaustivamente regravadas. E só. Poucos se lembram do papel de Humberto Teixeira na luta
por uma legislação de direitos autorais no Brasil, pela própria divulgação da música
brasileira no exterior ou de sua participação na política, entre outros assuntos.
Ano passado, o nome de Humberto Teixeira foi lembrado na realização do I
Prêmio Rival-BR de Música com a instituição do troféu que leva seu nome. Naquela
ocasião, 27 de agosto, foi realizado um show com participação de feras da música
brasileira como Raimundo Fagner, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Rita Ribeiro, Carmélia
Alves, Lenine, Zeca Pagodinho, Cordel do Fogo Encantado e Sivuca, interpretando
composições do cearense. A apresentação foi registrada em áudio e acaba de chegar às
lojas no CD Humberto Teixeira - O Doutor do Baião (Biscoito Fino), que
além de trazer 14 faixas tiradas deste espetáculo, ainda contém quatro releituras
registradas em estúdio por Maria Bethânia, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gal Costa.
Mais que isso, o mesmo
espetáculo também foi registrado em película e deve integrar o documentário sobre
Humberto Teixeira que tem como uma das produtoras a filha Denise Dummont. O Vida
& Arte foi buscar a atriz e agora produtora para falar do projeto. De pronto,
ela respondeu ao e-mail, direto de Nova York onde mora há 16 anos. Escreveu com orgulho
da necessidade de revitalizar a memória do pai, do projeto que ainda vai ter cenas
gravadas no Ceará, incluindo filmagens em Iguatu e Fortaleza com depoimentos de Fagner e
do pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez. Falou ainda de sua carreira nos Estados
Unidos e da retomada do cinema brasileiro.
O POVO - Como surgiu a idéia de fazer um documentário sobre seu pai,
Humberto Teixeira? Em que ponto a Ana Lontra Jobim (viúva de Tom Jobim) se uniu a você
para levar o projeto adiante?
Denise Dummont - Há dois anos fui apresentada à Ana Jobim aqui em Nova York pela
Luciana de Moraes, filha do Vinícius. Ficamos amigas, temos filhas adolescentes e vários
interesses comuns. Fiquei muito impressionada com o cuidado, o respeito, a criatividade e
dedicação com que Ana cuida da obra do Tom. Fiquei também com vergonha ao comparar com
o descaso e esquecimento em que o nome do meu pai caiu. Sempre quis fazer alguma coisa,
mas não tinha idéia de como ou o quê. A Ana me inspirou. Mais do que isso, ela se
interessou em me ajudar e fazer parte ativamente do esforço. Várias reuniões depois,
pelo meu background e o dela também de fotógrafa, chegamos à idéia do documentário.
Ela voltou a morar no Brasil há um ano e eu comecei a minha ''ponte-aérea'' e o projeto
propriamente dito.
OP - Que direcionamento você está dando ao documentário? Em que pé está
a produção? Já tem data para lançamento?
DD - O documentário é um longa-metragem musical. Produzido por Ana Jobim e eu,
direção de Lírio Ferreira (Baile Perfumado), roteiro do Lírio e meu e
direção de fotografia do Walter Carvalho (Central do Brasil e Carandiru).
Na linha do Buena Vista Social Club, conta a trajetória de Humberto
Teixeira e sua obra, através de entrevistas com parceiros, parentes e amigos, material de
arquivo, filmes em que suas músicas foram usadas - e não são poucos, depoimentos de
seus mais importantes intérpretes e muita música! Já temos bastante material ''na
lata'', como o show do Prêmio Rival-BR e as gravações adicionais que fazem parte do CD
(Chico, Gal e Caetano), depoimento do Sivuca etc. Faltam ainda as filmagens no Ceará,
depoimentos do Fagner e do grande pesquisador Nirez (Miguel Angelo de Azevedo), Iguatu, a
rodovia Humberto Teixeira, enfim a paisagem que inspirou a sua obra, a parte no Rio de
Janeiro e também o lado internacional em Nova York com a Eartha Kitt que gravou ''Kalu'',
a Miriam Makeba, a Luciana Souza e outras surpresas. Afinal, o baião foi o primeiro ritmo
brasileiro a tirar passaporte. Se tudo der certo e conseguirmos captar o que falta, espero
terminar o nosso filme ainda este ano.
OP - O nome de seu pai é constantemente relembrado como principal parceiro
de Luiz Gonzaga. Mas existem outros fatores importantes de sua atuação pública que são
pouco lembrados nos dias de hoje, como sua vida política e a luta fundamental pelos
direitos autorais no Brasil. O documentário tem o objetivo de dar a devida importância
de Humberto Teixeira para a história brasileira do século XX?
DD - Sem dúvida! Pretendemos mostrar o político, o autor da Lei Humberto
Teixeira e suas caravanas de música popular brasileira que levaram a nossa arte para o
mundo todo, a sua batalha pelo direito do autor, a Academia de Música Popular Brasileira,
fundada por ele e Braguinha, que infelizmente morreu com ele, e o Clube da Chave, centro
cultural do Rio de Janeiro nos anos 50.
OP - O que está previsto para ser registrado em Iguatu?
DD - A rodovia que liga Iguatu a Fortaleza se chama Humberto Teixeira. Pretendo
percorrer essa rodovia ao som de ''Légua Tirana'' e acompanhada de minha tia Ivanira, a
irmã mais nova de papai, que vai nos contar da vida em Iguatu, da mudança para Fortaleza
e depois para o Rio.
OP - Humberto e Luiz Gonzaga romperam a parceria em meados dos anos 50. No
final da vida, como ele se referia ao antigo parceiro? Ainda havia alguma mágoa?
Denise - Não. Ele sempre se referiu ao Luiz com carinho. E eles, na verdade,
retomaram a parceria mais tarde e compuseram juntos mais algumas músicas. O rompimento se
deu de uma forma natural. O Luiz saiu da UBC, à qual papai era extremamente ligado e, na
época, parceiros tinham que pertencer à mesma sociedade. Sem dúvida também teve a ver
com o momento de vida de cada um. O envolvimento cada vez maior de meu pai com a política
e o direito. A mágoa que papai tinha era em relação aos historiadores que sempre
ignoraram completamente o baião e a sua importância, sempre passando do samba, bolero,
etc. direto para a bossa-nova.
OP - Como era o Humberto Teixeira em família? Como era a relação de
vocês?
Denise - Sou filha única. Papai me criou depois que ele e minha mãe se
separaram. Nós éramos muito ligados. Ele era muito afetuoso, mas também bastante
controlador como bom pai nordestino...
OP - O que a levou a trocar o Brasil pelos EUA?
DD - Foi meio por acaso. Acabei uma peça que estava fazendo no Rio e uma novela
poucos dias antes do Natal, então resolvi vir com meu filho passar o Natal com a minha
mãe, que já morava aqui há vários anos. Coincidentemente, O Beijo da Mulher
Aranha (do diretor Hector Babenco), no qual tenho um pequeno papel, estreou aqui
com grande sucesso inclusive para mim. Isso levou a um agente e um convite para filmar com
o Woody Allen e por aí vai. Resolvi ficar um pouquinho, fazer essas coisas, dar ao Diogo,
meu filho, a chance de aprender inglês, e mais importante, passar um tempo com a minha
mãe, já que passei a maior parte da vida com o meu pai. Aí a vida tomou conta. Conheci
o Matthew Chapman, um roteirista inglês por quem me apaixonei, casamos, tive outra filha,
a Anna Bella que acabou de fazer 15 anos e a minha vida e as minhas prioridades mudaram.
Aconteceu naturalmente. Nunca houve uma ''troca''.
OP - Morando no exterior, como você está vendo a retomada do cinema
brasileiro nos últimos anos, principalmente com a boa receptividade internacional das
produções do Brasil?
Denise - Com grande felicidade e orgulho, é claro. Espero que o nosso filme faça
parte dessa leva. O assunto sem dúvida provoca interesse por aqui. Todos adoram a nossa
música!
SERVIÇO:
Humberto Teixeira - O Doutor do Baião - CD reunindo interpretações para
músicas do compositor cearense. Participam: Maria Bethânia, Chico Buarque, Caetano
Veloso, Gal Costa, Wagner Tiso, Carmélia Alves, Raimundo Fagner, Elba Ramalho, Gilberto
Gil, Rita Ribeiro, Lenine, Zeca Pagodinho, Cordel do Fogo Encantado e Sivuca. Produção:
Wagner Tiso e Vinícius França. Lançamento Biscoito Fino. 18 faixas. Com letras. Preço
médio: R$ 26,00.
(© O Povo - NoOlhar.com.br)
| O disco-festa em tributo a
Humberto Teixeira |
Constelação
de grandes nomes da MPB se reúne em O Doutor do Baião, homenagem ao autor de Asa
Branca
Marco Antonio Barbosa
Não é possível que, a esta altura do
campeonato, ainda se pense em Humberto Teixeira como mero parceiro à sombra (grandiosa,
é certo) de Luiz Gonzaga. Mas, para dirimir quaisquer dúvidas sobre a luz própria de
Teixeira, o homem por trás de dezenas de clássicos da música nordestina - ao lado de
Gonzagão ou só - é favor prestar atenção no álbum O Doutor do Baião,
que a gravadora Biscoito Fino pôs nas lojas semana passada. No disco, 14 nomes mais do
que consagrados da MPB prestam reverência ao repertório legado por Teixeira (1915-1979);
um cearense formado em Medicina e Direito mas que acabou eternizado por seus dotes
musicais.
O "núcleo" do disco foi gravado ao vivo em agosto do ano passado,
no Teatro Rival BR (RJ), em uma noite muito especial feita em tributo a Teixeira.
Tratava-se da entrega do primeiro Prêmio Rival BR de Música, que tinha como homenageado
especial o parceiro de Gonzagão. O show (com a participação de Gilberto Gil, Lenine,
Elba Ramalho, Rita Ribeiro, Carmélia Alves, Zeca Pagodinho, Sivuca e o grupo Cordel do
Fogo Encantado) foi um dos pontos culminantes do esforço da atriz Denise Dumont - filha
de Humberto - para resgatar a importância da obra do pai para o ouvinte contemporâneo.
Além de ter seu áudio registrado, o evento também foi filmado para ser incluído num
documentário que Denise está finalizando sobre a vida e a carreira de seu pai.
Não faltaram clássicos, nem interpretações emocionadas e emocionantes,
àquela noite de 2002 no Rival, que teve direção musical de Wagner Tiso. A veterana
Carmélia Alves entra em cena já acompanhada pela banda de Tiso (Lula Galvão, violão;
Jorge Helder, baixo; André Boxexa, bateria; Robertinho Silva e Mingo Araújo, percussão;
Marcos Nimrichter, teclados; Zé Américo, sanfona; Marcio Malard, cello; Cristiano Alves,
sopros; e o próprio Tiso no piano e acordeom), cantando Baião, acompanhada por
Sivuca.
Depois foi a vez do Cordel do Fogo Encantado, que dispensou a banda de apoio
e veio apenas com seus tambores, violão e a performance sempre impactante do vocalista
Lirinha. Ao repassar de forma visceral Mangaratiba, o grupo pernambucano arrancou
aplausos entusiasmados. A banda de Wagner Tiso retornou para que Rita Ribeiro cantasse Sinfonia
do Café (esta vindo numa bela interpretação vocal, ajudada pelo cello). A faixa
nunca havia sido regravada desde seu lançamento, em 1945. Gilberto Gil entrou logo
depois, para mandar Juazeiro (esta com Wagner Tiso ao acordeom) e No Meu Pé de
Serra.
Lenine, o próximo convidado, foi muito aplaudido ao fazer uma versão mais
suingada de Qui Nem Jiló, depois de apresentar Respeita Januário. Zeca
Pagodinho empresta ar malandro a Deus Me Perdoe. Fagner, em seguida, foi quem
cantou mais. Apresentou Dono dos Teus Olhos, em versão suave, depois Xanduzinha;
e encerrou sua participação num dueto com Elba Ramalho, em Légua Tirana.
Sozinha, Elba cantou Paraíba e Assum Preto - que ganhou uma introdução
solene e dramática, com cello e clarineta. A tristeza foi espantada pela reunião de
todos os convidados (menos Pagodinho) retornando para cantar uma festiva Asa Branca.
Completando os registros feitos ao vivo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria
Bethânia e Gal Costa gravaram participações feitas em estúdio, separadamente. Asa
Branca coube à Bethânia. Adeus Maria Fulô foi interpretada por Gal (no show
do Rival, quem cantou foi Carmélia Alves), com a participação de Sivuca. Caetano
preferiu Baião de Dois e a sempre doce Kalu ficou com Chico. Assim como o
espetáculo no Rival, a direção musical das faixas em estúdio foi assinada por Tulio
Feliciano.
A Biscoito Fino também pretende lançar um DVD com a íntegra da festa no
Rival, o que pode tornar O Doutor do Baião ainda mais apetitoso de se apreciar na
TV - pois várias canções, como Zé de Salina (com o Cordel do Fogo Encantado) e Kalú
(na voz de Fagner) foram cortadas do CD.
(© CliqueMusic.com.br) |
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