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 Último dia do Abril Pró Rock foi pura diversão

18/04/2003

 

 

 

 

 

Encerrando com show do Ira!, o grupo mais cult da cena brasileira, o domingo reuniu bandas que agradam em cheio a um público que adora festejar

JOSÉ TELES

   No mais concorrido domingo do Abril Pro rock em anos, parafraseando a canção de Cindy Lauper (Girls just want to have fun), a turma só queria se divertir. E conseguiu. A maioria dos grupos jogou para a torcida. Alguns, feito Nando Reis, até exagerando. Ele repassou hits de Cássia Eller, de Titãs, um ancestral cover do Joe Jeffrey Group, My pledge of love. Ao ver que havia levado a platéia ao delírio, no final do show, Nando Reis entusiasmou-se, quis saltar no meio da galera, acabou caindo de costas. Saiu do palco ileso e ovacionado.

   Diversidade é uma palavra surrada pelo uso contínuo em Pernambuco, mas não há outra mais apropriada para definir o que se viu e ouviu domingo no Pavilhão do Centro de Convenções. O regionalismo do novo Azabumba, a linha evolutiva da rabeca , com Maciel Salu e o Terno do Terreiro, o mod rock gaúcho do Cachorro Grande, a drum ‘n’bossa do caruaruense Júnior Barreto.

   Paulo André Pires, produtor do APR, era a imagem da tranqüilidade: “Para um festival realizado numa época de mudança de governo, pagar as contas já é lucro”, comentava ele, admitindo que, pelo público dos três dias do festival, a contabilidade poderá pender mais para o lado do haver do que do dever.

   Primeiro grupo no Palco 1, sem exegeses à pureza da música do povo, Siba e o Fuloresta do Samba (músicos de Nazaré da Mata), ratificaram que o maracatu é o nosso rock and roll, e a ciranda, nossa valsa. Na platéia, garotos e garotas inovavam rodas de maracapogo (pogo com maracatu). No palco, os músicos do Estrela Brilhante, com roupas comuns, mandaram ver uma empolgante mostra de coreografia e sambas de maracatu de orquestra.

   Fred 04 observou: “Se isso fosse com os armoriais, no palco, em vez de autêntico batuqueiros de maracatu, estariam aí músicos eruditos, de smoking”. Smoking, nem erudição alguma, superariam a elegância e musicalidade de Siba, Mestre Barachinha e os demais integrantes do Fuloresta do Samba.

   Júnio Barreto, um caruaruense há algum tempo em São Paulo, segue a linha drum ‘n’ bossa, que se popularizou nos clubes ingleses. Os beats, o groove, são bem resolvidos, falta ao sexteto melodias mais envolventes. Pitty mostrou, no Palco 1, uma show competente, mas precisava de um material à altura. Ela só empolgou na saideira, com um impagável cover de Girls just want to have fun.

   Los Hermanos caminham a passos largos para se tornarem superestrelas do pop nacional. Mais cool do que nunca, o quinteto fez um show sem se dobrar à imposição do público. Ana Júlia? Nem pensar. A base do repertório foi O Bloco do Eu Sozinho, com várias canções cantadas em coro pelo público. De Ventura, o disco novo, prometido para ser antecipado no Abril Pro Rock, a banda só mostrou três músicas: Cara estranho, O vencido e O último romance. Eles não precisaram se esforçar muito para agradar. Desde que tocaram pela primeira vez no APR, praticamente desconhecidos, o Los Hermanos cativaram uma legião de acólitos fiéis, que não arredou pé da área do gargarejo até o show acabar.

   Minutos mais tarde, o fleumático Marcelo Camelo distribuía autógrafos a privilegiados fãs, que conseguiram furar o rígido, e necessário, bloqueio dos seguranças na entrada do backstage. Camelo não é de muita conversa: “O show foi legal, o CD novo só em maio”. Não acha que a nova gravadora, a BMG vá querer impor ao grupo um disco de hits, “Eles já conhecem bem como a banda trabalha”.

   Cachorro Grande é uma das dezenas de bandas existentes no Rio Grande do Sul, que pode não ter a melhor, mas possui a mais prolífica cena de rock do País. De terninho, gravatinha, mezzo punks mezzo mods, eles não têm nada da propalada semelhança com os Strokes. A banda tem uma pegada segura, o repertório, porém, é olvidável, com exceção de uma canção parecida com Summertime Blues, de Eddie Cochran, que o Who popularizou.

   Por fim, a banda mais cult do Brasil. O Ira! que em disco raramente concretiza o potencial de seus músicos. No palco, poucas bandas conseguem destilar tanta adrenalina. Nasi, Scandura & Cia passearam por todas as fases do Ira! Um dos pontos altos do show foi quando Fred 04 adentrou o palco e fez dueto com Nasi em três clássicos do Clash, um deles uma versão de Train in Vain.

(© Jornal do Commercio-PE)

Nando Reis foi o principal sucesso do Abril Pro Rock
 

Por Fabíola Girardin, especial para a Reuters

   RECIFE (Reuters) - Nando Reis roubou a cena na 11 edição do Abril Pro Rock, o mais famoso festival de sons independentes de Pernambuco. Nas três noites do evento, que reuniu 23 bandas de sexta a domingo em dois palcos no Centro de Convenções de Recife, foi o cantor e compositor paulista um dos que mais causaram frisson na platéia.

   "O show é a versão de tudo o que fiz e do que gosto de fazer", disse o ex-Titã a jornalistas pouco antes de começar o show, que foi aberto apenas com vocal na interpretação de "Sexual Healing", de Marvin Gay.

   Ao final da melodia, houve uma ovação que cresceu ainda mais com a segunda canção, "No Recreio". A partir daí, aplausos e assobios eram intercalados pelo coro que se instituiu em outras músicas como "ECT", "O Mundo é Bão, Sebastião" e "Não Vou me Adaptar". O auge da participação do público foi em "Relicário", uma das músicas que eternizou a voz de Cássia Eller.

   Para a psicóloga Leandra Vaz Pereira, a performance de Nando Reis se tornou inesquecível. "Delírio puro o show de Nando, daqueles que ficam na memória", relatou ela à Reuters acompanhada de seu filho adolescente.

   A apresentação de Nando aconteceu no domingo, noite que mais lotou o Centro de Convenções, e teve duração de pouco mais de uma hora, ficando acima da média de 40 minutos da maioria das atrações.

   Outra banda paulista, o Ira!, que fechou o Abril Pro Rock 2003 em sua primeira aparição nestes 11 anos do festival, também teve uma boa receptividade da platéia, que conhecia seu repertório de outras vezes em que o grupo se apresentou em Recife.

   Na opinião do estudante Luís Henrique de Castro, o Ira! fez um show "quente", mas se beneficiou do momento. "Eles vieram por último, o que colabora bastante, já que todo mundo quer aproveitar ao máximo", disse.

   Los Hermanos, por sua vez, que também se apresentaram no domingo e têm participado das últimas edições do Abril Pro Rock, aproveitaram a cena para divulgar seu novo CD, intitulado "Ventura", a ser lançado no mês que vem.

   Das três canções novas, "Cara Estranha" foi a que mais teve apelo popular, até porque sua divulgação havia sido liberada para rádios locais desde a semana passada. As outras duas apresentadas foram "Último Romance" e "O Vencedor".

PERNAMBUCANIDADE

   Atos de pernambucanidade permearam o Abril Pro Rock. Uma bandeira do Estado esteve sempre presente no palco dois do festival e foi empregada por diversos grupos para estimular o público.

   O evento também contou com adesivos redondos com o slogan "Pernambuco é da Paz". Confeccionado pelo governo estadual -- um dos patrocinadores -- e distribuído na entrada do pavilhão, o adereço foi estampado no peito pela maioria de espectadores, principalmente na noite de estréia.

   Com show na sexta-feira à noite, foi Nação Zumbi o representante regional que mais entusiasmou. As canções do novo álbum, o homônimo "Nação Zumbi", foram entoadas de forma uníssona pelas cerca de 8 mil pessoas que marcaram presença no evento. "Foi um show muito, muito bom", frisou Eduardo Navarro, executivo da área de marketing, destacando o melhor momento da apresentação com o sucesso "Manguetown", em que houve uma canja no vocal de Fred 04, da também pernambucana Mundo Livre S.A.

STRIPTEASE

   A segunda noite do festival, que concentrou o chamado som pesado com a performance de oito grupos que passam pelo metal e o hardcore, obteve o quorum mais baixo de público, o que facilitou as várias rodas de pogo no pavilhão.

   Os alemães do Terrorgruppe, única atração estrangeira, contagiaram menos pelos seus dez anos de skate-rock e mais pela ousadia do vocalista. O dito "Ruivo" surpreendeu com um striptease que contou com um "chuveirinho" de São João (fogo de artifício comumente usado no lugar da velinha em bolos de aniversário) colocado nas nádegas.

   A maior aglomeração do povo vestido de preto aconteceu com Hanagorik, banda metaleira do agreste de Pernambuco que tem tocado no exterior, inclusive com o Metallica.

   Além da empolgação com músicas próprias, o público chegou à loucura com os acordes perfeitos de  "Chop Suey", de System of a Down.

   O mal-entendido da noite foi uma agressão a Bebê, vocalista da capixaba Mukeka di Rato. Um espectador subiu ao palco e rasgou a camiseta do músico, que tinha uma paródia à frase "I love United States". Ao invés de um coração, a camiseta era estampada com um avião, numa referência irônica aos atentados de 11 de setembro de 2001. Segundo algumas pessoas do público, o garoto confundiu o avião com o coração, provavelmente achando que se tratava de uma declaração de amor a Bush.

   Sem outros contratempos, a noite "de peso" encerrou com a banda paulista Shaman, que fez os cabeludos sucumbirem com seu metal. André Mattos, ex-Angra, alternou-se entre os vocais e o teclado.

(© UOL Música)


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