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 Cine Ceará divulga longas-metragens concorrentes

23/04/2003

 

 

 

‘Narradores de Javé’, de Eliane Caffé: diretora estreou com história sobre o moto-contínuo

 

O festival, que ocorre de 7 a 13 de maio em Fortaleza, terá sete filmes em disputa, sendo dois documentários e mais três fora de concurso

LUIZ ZANIN ORICCHIO

  Sete longas-metragens disputam os prêmios principais do 13º Cine Ceará: Amarelo Manga, de Claudio Assis (PE), À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel (SP), As Tranças de Maria, de Pedro Rovai (RJ), Cama de Gato, de Alexandre Stockler (SP), Meu Tempo É Hoje - Paulinho da Viola, de Izabel Jaguaribe (RJ), Narradores de Javé, de Eliane Caffé (SP) e Seja o que Deus Quiser!, de Murillo Salles (RJ).

   Além deles, outros três longas serão apresentados no festival, que acontece em Fortaleza de 7 a 13 de maio. O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca, abre o evento no dia 7 e O Prisioneiro da Grade de Ferro, documentário de Paulo Sacramento sobre o Carandiru, o encerra. Lua Cambará - nas Escadarias do Palácio, de Rosemberg Cariry, será apresentado ao longo do festival.

   Acaba sendo uma boa seleção, sempre difícil dada a desproporção entre a oferta de filmes e a procura deles pelos festivais, cada vez mais numerosos no País. Boa seleção, mas que contém alguns problemas, sendo o primeiro deles a presença de Amarelo Manga, grande vencedor do Festival de Brasília, entre os competidores.

   Nada contra o filme, muito pelo contrário - é um dos melhores já produzidos nos últimos anos e deve causar impacto quando for lançado em circuito comercial. Mas, se foi consagrado em novembro do ano passado, no Festival de Brasília, o mais importante evento do gênero no País, por que voltar a concorrer agora em Fortaleza? Será que festivais não são mais o foro privilegiado de lançamento e discussão de filmes novos? Bem, essa é uma discussão interminável. Os organizadores de festival justificam-se dizendo que não têm como arranjar títulos inéditos de boa qualidade e em número suficiente. Diretores e produtores adoram disputar prêmios. Não sentem o menor pudor em exercer pressão política por um lugarzinho ao sol. Por eles, estariam em todos os festivais. Conclusão: cabe à imprensa apontar essas redundâncias e aos festivais zelar pela própria credibilidade e tentar se diferenciar uns dos outros. O que nem sempre conseguem.

   O diretor do Cine Ceará, Wolney Oliveira, defende a inclusão de Amarelo Manga: "É o único fora do eixo Rio-São Paulo na mostra competitiva, e muito esperado pelo público daqui", diz. "Além de ser um excelente filme, que tem sido badalado nos festivais internacionais, pesou na escolha o fato de ele ser nordestino", admite.

   Essa repetição de títulos pode causar problemas para o júri. Ficam algumas dúvidas: inéditos têm tratamento diferenciado em relação a filmes já premiados em outros eventos ou todos são tratados com igualdade? Qual a vantagem de um diretor de filme inédito expor-se na disputa com outro, já vencedor de festival importante? Em caso de impasse entre dois filmes, o ineditismo entra como critério de desempate? Wolney diz que o júri é soberano e caberá a ele escolher o melhor filme, simplesmente. Vale conferir.

   Mas enfim, deixando de lado a redundância de Amarelo Manga, o panorama apresentado pelo Cine Ceará deste ano pode ser bem estimulante. A começar pelo fato de que a mostra competitiva inclui dois documentários importantes, À Margem da Imagem e Meu Tempo É Outro. O diretor do festival considera fundamental não diferenciar filmes documentais e de ficção como fazem outros festivais, o de Gramado por exemplo. "No Ceará, ganha o melhor filme, independente do gênero", diz Wolney. E lembra que o vencedor do festival de 2001 foi um documentário, Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho.

   Os documentários competidores no Recife podem agradar ao público e ao júri por motivos distintos, talvez opostos. À Margem da Imagem faz um retrato rigoroso do cotidiano dos sem-teto paulistanos, procurando manter o foco sobre a utilização da imagem dos despossuídos pelo cinema e pela mídia.

   Questão premente, quando se leva em conta que uma das discussões recorrentes do cinema brasileiro gira em torno da maneira como a miséria é representada nas telas.

   Meu Mundo É Hoje faz um retrato amoroso de um príncipe brasileiro, o cantor, instrumentista e compositor Paulinho da Viola. O espectador é informado não apenas do lado mais público da vida de Paulinho, a sua atividade como músico, mas de seus hábitos de vida, manias, como a de restaurar carros antigos. Acima de tudo, Paulinho é uma filosofia de vida, de paz, de tranqüilidade, de gentileza - qualidades cada vez mais raras no competitivo mundo de hoje.

   Ficção - Dos cinco longas de ficção, um é absolutamente inédito, As Tranças de Maria. Quando chegar a Fortaleza, Narradores de Javé já terá concorrido no Recife, que começa nesta quinta-feira. Cama de Gato também participou de Brasília e ganhou um prêmio para ator coadjuvante. Seja o que Deus Quiser! só foi avaliado pelo júri popular do Festival do Rio.

   As Tranças de Maria e Narradores de Javé são incógnitas. Pode-se apostar, talvez, na experiência do diretor do primeiro, Pedro Rovai, e na criatividade da diretora do segundo, Eliane Caffé. O primeiro longa de Eliane, Kenoma, é interessante, recriando no mito do moto-contínuo no Vale do Jequitinhonha, mas lhe falta uma pitada de sal, um algo a mais para realmente ser notável. Talvez a cineasta tenha alcançado isso neste segundo trabalho em longa-metragem.

   Cama de Gato, de Alexandre Stockler, e Seja o que Deus Quiser!, de Murilo Salles, formarão bom par para discussão. Com estilos diferentes, os dois filmes falam em violência urbana e tentam retratar esse mundo caótico que está à nossa volta. Há a espontaneidade que deve ser destacada em um e o domínio da técnica em outro. A ousadia que muitas vezes apenas um primeiro trabalho apresenta é o ponto forte de Cama de Gato, compensado por outros tantos aspectos problemáticos. Seja o que Deus Quiser! parte de uma boa sacada inicial quando inverte os termos habituais da equação urbana e faz um favelado ser "seqüestrado" pela classe média. Outro bom estudo de Murilo sobre as (tensas) relações entre classes no País, tema já abordado em Como Nascem os Anjos.

   Na parte retrospectiva, o Cine Ceará homenageia o diretor italiano Roberto Rossellini (1906-1977), pai do neo-realismo. Apresenta quatro clássicos do cineasta: Roma - Cidade Aberta, Alemanha Ano Zero, Stromboli e De Crápula a Herói, filme que tem Vittorio De Sica como protagonista. Haverá também um debate com participação do filho do diretor, Renzo Rossellini, e especialistas sobre as relações entre o neo-realismo e o Cinema Novo brasileiro. Uma relação, como se sabe, cordial, vital, indispensável. Sem a influência dos cineastas italianos do após-guerra, o cinema brasileiro teria tomado rumo histórico diferente.

(© O Estado de S. Paulo)


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