O festival, que ocorre de 7 a 13 de maio
em Fortaleza, terá sete filmes em disputa, sendo dois documentários e mais três fora de
concurso
LUIZ
ZANIN ORICCHIO
Sete longas-metragens disputam os prêmios
principais do 13º Cine Ceará: Amarelo Manga, de Claudio Assis (PE), À Margem da Imagem,
de Evaldo Mocarzel (SP), As Tranças de Maria, de Pedro Rovai (RJ), Cama de Gato, de
Alexandre Stockler (SP), Meu Tempo É Hoje - Paulinho da Viola, de Izabel Jaguaribe (RJ),
Narradores de Javé, de Eliane Caffé (SP) e Seja o que Deus Quiser!, de Murillo Salles
(RJ).
Além deles, outros três longas serão
apresentados no festival, que acontece em Fortaleza de 7 a 13 de maio. O Homem do Ano, de
José Henrique Fonseca, abre o evento no dia 7 e O Prisioneiro da Grade de Ferro,
documentário de Paulo Sacramento sobre o Carandiru, o encerra. Lua Cambará - nas
Escadarias do Palácio, de Rosemberg Cariry, será apresentado ao longo do festival.
Acaba sendo uma boa seleção, sempre
difícil dada a desproporção entre a oferta de filmes e a procura deles pelos festivais,
cada vez mais numerosos no País. Boa seleção, mas que contém alguns problemas, sendo o
primeiro deles a presença de Amarelo Manga, grande vencedor do Festival de Brasília,
entre os competidores.
Nada contra o filme, muito pelo contrário -
é um dos melhores já produzidos nos últimos anos e deve causar impacto quando for
lançado em circuito comercial. Mas, se foi consagrado em novembro do ano passado, no
Festival de Brasília, o mais importante evento do gênero no País, por que voltar a
concorrer agora em Fortaleza? Será que festivais não são mais o foro privilegiado de
lançamento e discussão de filmes novos? Bem, essa é uma discussão interminável. Os
organizadores de festival justificam-se dizendo que não têm como arranjar títulos
inéditos de boa qualidade e em número suficiente. Diretores e produtores adoram disputar
prêmios. Não sentem o menor pudor em exercer pressão política por um lugarzinho ao
sol. Por eles, estariam em todos os festivais. Conclusão: cabe à imprensa apontar essas
redundâncias e aos festivais zelar pela própria credibilidade e tentar se diferenciar
uns dos outros. O que nem sempre conseguem.
O diretor do Cine Ceará, Wolney Oliveira,
defende a inclusão de Amarelo Manga: "É o único fora do eixo Rio-São Paulo na
mostra competitiva, e muito esperado pelo público daqui", diz. "Além de ser um
excelente filme, que tem sido badalado nos festivais internacionais, pesou na escolha o
fato de ele ser nordestino", admite.
Essa repetição de títulos pode causar
problemas para o júri. Ficam algumas dúvidas: inéditos têm tratamento diferenciado em
relação a filmes já premiados em outros eventos ou todos são tratados com igualdade?
Qual a vantagem de um diretor de filme inédito expor-se na disputa com outro, já
vencedor de festival importante? Em caso de impasse entre dois filmes, o ineditismo entra
como critério de desempate? Wolney diz que o júri é soberano e caberá a ele escolher o
melhor filme, simplesmente. Vale conferir.
Mas enfim, deixando de lado a redundância
de Amarelo Manga, o panorama apresentado pelo Cine Ceará deste ano pode ser bem
estimulante. A começar pelo fato de que a mostra competitiva inclui dois documentários
importantes, À Margem da Imagem e Meu Tempo É Outro. O diretor do festival considera
fundamental não diferenciar filmes documentais e de ficção como fazem outros festivais,
o de Gramado por exemplo. "No Ceará, ganha o melhor filme, independente do
gênero", diz Wolney. E lembra que o vencedor do festival de 2001 foi um
documentário, Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho.
Os documentários competidores no Recife
podem agradar ao público e ao júri por motivos distintos, talvez opostos. À Margem da
Imagem faz um retrato rigoroso do cotidiano dos sem-teto paulistanos, procurando manter o
foco sobre a utilização da imagem dos despossuídos pelo cinema e pela mídia.
Questão premente, quando se leva em conta
que uma das discussões recorrentes do cinema brasileiro gira em torno da maneira como a
miséria é representada nas telas.
Meu Mundo É Hoje faz um retrato amoroso de
um príncipe brasileiro, o cantor, instrumentista e compositor Paulinho da Viola. O
espectador é informado não apenas do lado mais público da vida de Paulinho, a sua
atividade como músico, mas de seus hábitos de vida, manias, como a de restaurar carros
antigos. Acima de tudo, Paulinho é uma filosofia de vida, de paz, de tranqüilidade, de
gentileza - qualidades cada vez mais raras no competitivo mundo de hoje.
Ficção - Dos cinco longas de
ficção, um é absolutamente inédito, As Tranças de Maria. Quando chegar a Fortaleza,
Narradores de Javé já terá concorrido no Recife, que começa nesta quinta-feira. Cama
de Gato também participou de Brasília e ganhou um prêmio para ator coadjuvante. Seja o
que Deus Quiser! só foi avaliado pelo júri popular do Festival do Rio.
As Tranças de Maria e Narradores de Javé
são incógnitas. Pode-se apostar, talvez, na experiência do diretor do primeiro, Pedro
Rovai, e na criatividade da diretora do segundo, Eliane Caffé. O primeiro longa de
Eliane, Kenoma, é interessante, recriando no mito do moto-contínuo no Vale do
Jequitinhonha, mas lhe falta uma pitada de sal, um algo a mais para realmente ser
notável. Talvez a cineasta tenha alcançado isso neste segundo trabalho em
longa-metragem.
Cama de Gato, de Alexandre Stockler, e Seja
o que Deus Quiser!, de Murilo Salles, formarão bom par para discussão. Com estilos
diferentes, os dois filmes falam em violência urbana e tentam retratar esse mundo
caótico que está à nossa volta. Há a espontaneidade que deve ser destacada em um e o
domínio da técnica em outro. A ousadia que muitas vezes apenas um primeiro trabalho
apresenta é o ponto forte de Cama de Gato, compensado por outros tantos aspectos
problemáticos. Seja o que Deus Quiser! parte de uma boa sacada inicial quando inverte os
termos habituais da equação urbana e faz um favelado ser "seqüestrado" pela
classe média. Outro bom estudo de Murilo sobre as (tensas) relações entre classes no
País, tema já abordado em Como Nascem os Anjos.
Na parte retrospectiva, o Cine Ceará
homenageia o diretor italiano Roberto Rossellini (1906-1977), pai do neo-realismo.
Apresenta quatro clássicos do cineasta: Roma - Cidade Aberta, Alemanha Ano Zero,
Stromboli e De Crápula a Herói, filme que tem Vittorio De Sica como protagonista.
Haverá também um debate com participação do filho do diretor, Renzo Rossellini, e
especialistas sobre as relações entre o neo-realismo e o Cinema Novo brasileiro. Uma
relação, como se sabe, cordial, vital, indispensável. Sem a influência dos cineastas
italianos do após-guerra, o cinema brasileiro teria tomado rumo histórico diferente.
(© O Estado de S.
Paulo)