A escritora
Ana Miranda apresenta, em conversa com o público, seu livro mais recente, Dias &
Dias, invenção sobre a real vida do poeta romântico Gonçalves Dias. A autora vem a
convite do projeto Literato, do Centro Cultural Banco do Nordeste. Amanhã, Ana Miranda
palestra no Museu da Imagem e do Som
Eleuda de Carvalho
da Redação
Felina. Esguia, olhos brilhando
sob a franja negra, uma morenice de malva. É Ana Miranda que, quando anda, desliza como
se pisasse nuvens. E, quando fala, são sons amornados de sol e de mar e de memória. A
escritora, que nasceu aqui, na Praia de Iracema, volta à cidade como convidada especial
do programa de debates Literato, promovido pelo Centro Cultural Banco do Nordeste. Ana
Miranda vem falar do seu livro lançado ano passado, Dias & Dias (Cia.
das Letras, 243 páginas, R$ 29,50), uma invenção sobre a vida do poeta maranhense
Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), que vem da bruma do fundo do mar através do chamado
de Feliciana.
Antes que vates do passado tomassem o fôlego de Ana Miranda, ela fazia
poemas, ela desenhava, cantava, era atriz de tevê e do cinema. Vidinha agitada, bordados
pelo avesso: todos os pontos de aparência desconexa dos delírios de sua juventude
começaram a tomar sentido pleno. Do lado de lá do bastidor e das linhas, um mergulho
audacioso no tempo em que respirou rimas e maldizeres o poeta Gregório de Matos e Guerra,
chamado o Boca do Inferno (e que virou título da sua estréia no romance histórico, em
89). O poeta barroco revive na Bahia do século 17 a par com outro gênio da língua, o
padre Antônio Vieira, cujos sermões inflamam este texto moderno da moça que beijava o
maldito compositor e cantor Jards Macalé, na capa do seu disco Contrastes.
Boca do Inferno, o livro, jogou Ana Miranda no céu
congestionado dos best sellers: ela não perdeu o rumo nem a prosa,
deixou-se impregnar de tantos universos, cenários, personagens, reais e inventados,
mediados pela escrita no papel. Em 95, foi a vez do atormentado e tortuoso poeta
paraibano, Augusto dos Anjos, no belo A Última Quimera. Ano seguinte, uma
novela, capaz de emaranhar em teias de afeto a figura trágica e linda, olhos oblíquos de
gata russa, de Clarice Lispector. E mais suaves maravilhas, O retrato do rei,
Desmundo, Amrik (este, situado no século 19, finalzinho dele,
e a saga dos libaneses em São Paulo). E o seu livro de sonhos, para o qual voltou a
desenhar.
E chegamos a Dias & Dias, a respeito do qual ela conversou
via e-mail, e falará ao vivo logo mais, para o público presente ao Centro Cultural Banco
do Nordeste. Animam o debate os escritores e professores Angela Gutiérrez (coordenadora
de Políticas do Livro e Acervos da Secult) e Batista de Lima (diretor do Centro de
Humanidades da Unifor). Mediando o encontro, o escritor, poeta e diretor do Museu da
Imagem e do Som (MIS-CE), Gylmar Chaves, que aproveitou a deixa e convidou Ana Miranda
para uma outra prosa, amanhã, no MIS, cujo tema é ''Uma Viagem Romântica pelo Ceará''.
O POVO - ''Sou alguém que ama em segredo'', diz Feliciana. Ana, quando
você pensou o livro sobre Gonçalves Dias, como foi se delineando a figura do personagem
narrador?
Ana Miranda - Havia anos e
anos que eu pensava nesse livro. Ele nasceu num dia quando li uma poesia do Rubem Fonseca.
A poesia se chamava maravilhosamente ''Dias após dias'', e falava na grande frustração
amorosa de Gonçalves Dias. Fui reler as poesias do Gonçalves Dias, e o livro nasceu de
um amor terno e maternal que me veio, compassivo, pois percebi o quanto ele sofria. Eles,
o livro e o poeta romântico, viveram dentro de mim nem sei como, engendrando-se em
pensamentos inconscientes, em sonhos, em tentativas de escrever o livro, mas nunca o
conseguindo. De repente, quase vinte anos depois, o livro surgiu com uma força imensa, e
derrubou todos os outros que estavam na frente, pedindo para ser escritos. Quem me deu a
solução do teorema, juntou todos os fios, mostrou a entrada do labirinto, foi a
Feliciana. Ela apareceu na minha cabeça, talvez criada por minha memória de menina
nordestina que come tapioca na casa da mãe, fininhas, e de minhas primas que sempre
visito aí em Fortaleza e reforçam esse meu lado. Uma menina obstinada. E dedicada ao
amor com toda essa obstinação. Ela representava, finalmente, tudo o que eu necessitava
para escrever o livro, fazia a conexão comigo, com meu passado, minhas origens, minhas
necessidades íntimas de expressão, e corporificava a minha presença diante de um
antecessor amado. Ela talvez devesse se chamar Luz.
OP - Por que Feliciana? Que arcanos você deslindou com este nome?
AM - Aí você entrou no cerne
da questão. O nome Feliciana, ao mesmo tempo que evoca o meu nome, Ana, traz em si o
dilema da personagem, ela queria ser infeliz, ou melhor, sombria, melancólica, pálida,
que era o ideal romântico, mas se via de repente cantando e dançando e girando na
cozinha, feliz da vida, como são as minhas primas e minha irmã, Marlui, e eu mesma, que
tenho dentro de mim uma imagem de escritora bem mais sóbria e taciturna do que posso ser,
sou romântica, e muitas vezes triste, mas gosto muito de rir, de brincar, como os
cearenses em geral, não é à toa que há tantos comediantes cearenses, e isso é porque
os cearenses são muito inteligentes, o humor está ligado à inteligência, ao
pensamento. Acho que minha expectativa se deve em parte à força da imagem da Clarice
(Lispector) na nossa literatura, ela talvez seja a esfinge, o arquétipo de nossa mulher
literária, vinda de tão longe, países de neve, e tão perturbada, tão sensível a
ponto de quase não poder sorrir. Um paradigma. Uma vez um leitor me escreveu uma carta,
perguntando meio indignado porque eu estava sorrindo na foto do livro. Seja feliz ou
infeliz, a Feliciana incorpora o sentimento romântico, da volúpia da saudade, o prazer
do amor impossível que, assim como todas as outras impossibilidades, nos inspiram e
movem.
OP - Lendo seu livro, senti um sopro das mulheres de Clarice Lispector, mas
pelo oposto: a felicidade de Feliciana não é clandestina, como possa parecer. Fale um
pouco da personalidade dessa mulher que consegue ir além da alegria banal e se joga, sem
medo, nos abismos.
AM - Essa pergunta é mágica,
mostra o quanto as coisas se ligam umas às outras. Acontece que eu estava há poucos
minutos relendo exatamente o Felicidade clandestina, o livro de contos da
Clarice. Você tem razão, não é clandestina, é secreta, o que é bem diferente, porque
a clandestinidade pressupõe a interdição e a rebeldia. E aqui no caso, o segredo não
vem de uma proibição, mas de uma necessidade de preservar o mundo interior, preservar os
sonhos, a fantasia, para mantê-la viva, até mesmo por um senso de ridículo. O problema
da Feliciana é querer fazer parte do mundo, não o real, mas o grande mundo da poesia,
dos livros, do mar, da partida, da liberdade, do sabiá que voa para onde o vento o leva,
para onde quer. A grande aventura da palavra. Por isso fica apaixonada por Gonçalves Dias
quando lê uma poesia dele escrita para ela, ao menos ela acha que foi escrita para ela,
mas não se sabe. Aquilo representa a saída para seus sonhos. Ela não quer ser uma musa,
quer ser a própria poesia, o próprio romantismo, o sentimento romântico, e em vez de
ficar pregada na terra como a palmeira, voar como o sabiá.
OP - Particularmente, gosto muito dos poetas românticos. O seu livro,
contemporâneo, atualíssimo, respira, ao mesmo tempo, outros ares já passados. Como
você se transporta no tempo e incorpora isto ao texto?
AM - Pela leitura. A leitura
vai estimulando a imaginação. A imaginação é uma viagem intensa, mais do que a
realidade. Leio tanto e imagino tanto e fico tão impregnada que o tempo a que me refiro
passa a ser uma verdade para mim, como se eu estivesse mesmo ali, com aquelas pessoas,
naqueles lugares. Se não for verdade, não fica bom o livro. Não é incorporado ao
texto, é o próprio texto, não há o perigo de eu parar para explicar o que é uma
tapioca, por exemplo, estou transportada, ali todo mundo sabe o que é tapioca, clavetina,
borracho, todo mundo sabe onde fica a Ponte ou onde passa o rio.
OP - Em outro livro seu, sobre os seus sonhos que você anotava e sobre os
quais criou ilustrações, você se viu como uma moça do século 18. O tempo é fluido
pra você, como transpõe estas fronteiras?
AM - Sonho muito, como todas
as pessoas, mas sempre me lembro de meus sonhos, o que é mais raro de acontecer. Acho que
porque eu sempre anotei os meus sonhos, isso me deixou atenta a esse mundo. O sonho
passado no século 18 foi quando eu estava passando um tempo em Paraty, uma cidade linda,
e muito preservada quando eu estava lá, em 1970. Foi a geografia, a arquitetura da cidade
colonial, e os fantasmas que provavelmente pairavam ali na casa onde eu estava morando, o
Valhacouto, e nas ruas, nas igrejas, nas canoas, nos olhos dos caiçaras. Em Paraty
ninguém falava de idade do ouro, trilha do ouro, nada disso, mas os sonhos captam as
comunicações misteriosas, e sonhei com isso.
OP - E aquele manuscrito, de Dias & Dias, que é coisa sua
também. Como lhe veio aquela caligrafia?
AM - Aquela é a minha letra.
Não foi sempre assim, sou uma pessoa muito mutável, uma mutante, como diria a Rita Lee,
e minha letrinha de menina, redondinha de colégio de freiras, foi ficando garranchosa.
Acho que por influência do meu desenho, desenho muito com uma pena que tenho,
maravilhosa, que comprei no Globe Theatre, em Londres, uma reconstrução do teatro onde
representavam as peças do Shakespeare, quando ele ainda era vivo, se é que ele existiu.
Uma pena shakespeariana, igual talvez à que ele usava para escrever suas peças. Linda,
azul-marinho com a ponta dourada. E o tinteiro também. Essa letra, então, devo ao
fantasma de Hamlet.
OP - Li contos, crônicas suas, na revista Caros Amigos, e
sempre havia gatos presentes. Este é um animal tutelar para você? (Gatos são
misteriosos, doces e intimamente periculosos, como as mulheres).
AM - A doutora Nise da
Silveira usava os gatos no tratamento dos loucos, e dizia que o gato representa a alma
feminina. Sempre tivemos gatos em nossa família, de muitas mulheres e apenas papai de
homem. Sempre gostei de gatos. Meus gatos foram muito fiéis e amigos, companheiros,
alguns sabiam abrir portas, conversar, esperar, rir. Acho que quem tem sensibilidade
estética se delicia com gatos, que são os bichos mais belos do mundo, em seus movimentos
perfeitos. O caminhar de um gato é uma obra de arte. E gosto da independência dos gatos,
quer dizer, da desobediência, não se pode amestrar um gato, são eles que nos amestram.
OP - Por fim, o que você anda escrevendo agora? Tem algo próximo de
lançamento? (Não nos deixe muito tempo sem novidades...).
AM - Ah, Eleuda, estou numa
guerra comigo mesma, escrevo e escrevo e começo mil livros mas nada vai em frente, estou
assim desde que entreguei o último livro, espero com certa impaciência, inexplicável
para alguém que já escreveu e publicou tanto, preciso apenas de paciência, o livro
certo virá, como sempre, na hora certa, a luta é vã.
SERVIÇO
Ana Miranda - A escritora participa do programa Literato, do Centro Cultural Banco
do Nordeste (CCBN), conversando sobre seu recente livro, Dias & Dias. Hoje,
às 19h, no CCBN (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro). Aberto ao público. Inf.: 488.4100.
Amanhã, a escritora faz palestra com o tema: ''Uma viagem ao Ceará Romântico''. A
partir das 19 horas, no Museu da Imagem e do Som (MIS) (Avenida Barão de Studart, 410).
Grátis.
(© O Povo-NoOlhar.com.br)