Um dos inspiradores
do movimento, Rogério Duarte reúne escritos inéditos em livro
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL
"Eu sou o tropicalismo." A frase
vaidosa não é de Caetano Veloso nem de Gilberto Gil, mas do artista gráfico, poeta,
professor universitário e escritor também baiano Rogério Duarte, 64.
Nem é assim tão vaidosa. Se o tropicalismo
for de fato Rogério Duarte, será também a curva que marca sua própria história
pessoal. De ícone pop de sucesso como artista gráfico entre 63 e 68, passou a torturado
como agitador comunista pelo regime militar, banido nas "matas baianas" pelo
AI-5, esquizofrênico internado em hospícios nos 70, antiícone do ostracismo daí por
diante.
Citado por Elio Gaspari no livro "A
Ditadura Envergonhada" como co-protagonista de um dos episódios-símbolo que
conduziriam ao terror pós-AI-5, Duarte publica agora pela primeira vez testemunho de
punho próprio.
No livro "Tropicaos", reúne
fragmentos e reconstituições de uma extensa obra literária inédita em que, tomado de
medo da perseguição militar, ele ateou fogo no início dos anos 70.
Daquilo só restou o mais importante: um
depoimento sobre a prisão e a tortura escrito no calor da hora, que só sobreviveu à
fogueira porque havia sido antes confiado, sigilosamente, ao psicanalista Hélio
Pellegrino.
Colocando-se num meio de caminho entre os
tropicalistas mortos (Torquato Neto, Hélio Oiticica) e os "ricos" (Caetano e
Gil), Rogério Duarte defende poeticamente a tese de que o verdadeiro tropicalismo nem
chegou a acontecer, reprimido e assassinado que foi pelo AI-5. Leia a seguir trechos de
sua entrevista à Folha, por telefone, de Salvador.
Folha - Você teve que ser convencido a transformar
seus escritos num livro?
Rogério Duarte - É, para dizer a verdade acho aquilo tudo um monte de baboseira.
Não dou o menor valor àquilo. Tive uma obra literária à qual me dediquei profundamente
até uma certa época. Quando fui preso e obrigado, por medo da repressão, a queimar tudo
o que havia escrito, restaram apenas fragmentos. Aquilo é uma ruína (ri).
Folha - Por que você queimou?
Duarte - Foi uma espécie de repressão introjetada, não um medo direto de que os
militares descobrissem aquilo. Simplesmente fiz um círculo de pólvora e queimei tudo.
Foi um ato de automutilação, talvez determinado pela introjeção da própria ditadura.
Também minha obra gráfica é de fragmentos. Ela foi destruída nessa época, dessa vez
não por mim. Eu fazia todos os cartazes políticos da União Nacional dos Estudantes,
agitação e propaganda para jornais operários. Deixei tudo isso na mão de um parente
que nem quero mencionar. Achou que aquilo podia sujar a barra dele.
Com o AI-5 fui banido, vivi em completa clandestinidade na Bahia entre 68 e 70. Voltando
ao Rio, passei por internações em hospícios e uma porção de coisas que o livro narra.
Sou um cara destruído pela ditadura, mesmo, pelo menos em termos da minha obra.
(© Folha de S. Paulo)
Duarte define Caetano
e Gil como colegas "ricos"
A TROPICÁLIA REPRIMIDA
Ex-preso político, artista reflete sobre suposta
"cumplicidade" entre torturadores e torturados
DA REPORTAGEM LOCAL
A seguir, Rogério Duarte reflete sobre o
que define em "Tropicaos" como cumplicidade entre o torturador e o torturado. E
fala criticamente sobre Caetano e Gil, seus pares tropicalistas alçados ao centro do
poder musical e político. (PAS)
Folha - Que cumplicidade você atribui a torturado
e torturador?
Rogério Duarte - Não há senão torturados e torturadores. Todos nós somos
passíveis de sermos torturados na medida em que não somos inteiramente livres. Essa é a
tal cumplicidade entre o torturador e o torturado, a união promíscua entre a faca e a
ferida. É como no estupro, a mulher que fica com vergonha e não conta.
Folha - Mas a alternativa a isso não poderia
significar a morte?
Duarte - Exatamente, mas qual é a morte real? É a morte do corpo ou a morte da
alma? Ao escolher a sobrevivência, você perdeu o sentido da sua existência. Você não
morre, mas se torna o que Fernando Pessoa chama de um cadáver adiado, porque nega sua
alma.
Folha - Você se vê dessa forma? Que peso a
tortura teve para você?
Duarte - Aquele acontecimento foi deflagrador, 68 foi o ano da minha morte. Fui um
assassinado. Mas quando falo no livro de coisas anteriores, como as experiências de
tortura no colégio interno, quero mostrar que não é um incidente isolado que determina
tudo. Uma pessoa masoquista, digamos, constrói uma situação de abandono amoroso que
tende a se repetir ciclicamente.
Resignei-me ao ostracismo, mas agora assumo uma certa megalomania à qual havia
renunciado. Disse que não, que eu era o cocô da mula do bandido do tropicalismo. Mas o
que pensei e fiz tem um sentido, vamos reivindicar esse sentido. Muito calei por amor e
conveniência, mas resolvi não mais calar. Já não sou aquele bom amigo que aplaude
tudo.
Folha - Gil ser ministro da Cultura do Brasil
significa a tropicália no poder ou um desvirtuamento?
Duarte - Tentamos pôr nos ombros de Gil e Caetano uma série de desvios, mas hoje
vejo muito mais na minha própria omissão e na de tantos outros a causa real dos desvios.
Não posso cobrar deles o que eu próprio não os ajudei a fazer.
Por outro lado, pode ser inveja, mas ainda acho mais fácil um camelo passar pelo buraco
de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Se o cara virou glória nacional,
não é culpa dele. Mas não serei complacente com essa canonização que é meio uma
morte. Talvez Gil represente a possibilidade real, o que se pode fazer. Mas o que
queríamos não era estar no PT. Eu queria era estar no poder nosso, com nossa bandeira.
Queria uma outra vida, não apenas fazer parte desta.
Folha - Você era uma eminência parda do
tropicalismo?
Duarte - Não. Se havia algum poder em mim era exatamente pelo fato de não ter
poder. Mas, desculpe a imodéstia, acho que eu sou o tropicalismo. Minha vida foi a
encarnação do tropicalismo, que vivi como se fosse real, embora ele não tivesse
acontecido. Fui uma musa inspiradora, não uma eminência. Virei um dissidente, um
renunciado. Vivo com nada, não tenho dente nem roupa. Procuro viver de forma austera,
para não ter a fraqueza do conforto.
Folha - É renúncia, penitência?
Duarte - Não. Renuncio a quê? À burrice, ao desprazer, à aparência idiota.
Não renuncio à alegria. Continuo trabalhando, de forma menos espetacular, mais profunda,
mas com a mesma busca da realização dessa tropicália reprimida. Essa é a verdadeira
militância, não é fulano ficar toda hora querendo aparecer. A obra é que interessa,
não o fulano.
(© Folha de S. Paulo)
Dor e poesia sem pieguice dão tom do livro
DA REPORTAGEM LOCAL
"Tropicaos" acontece, enfim, para
enriquecer o conhecimento sobre o que foi mesmo o tropicalismo, movimento que até há
pouco só subsistia na versão vencedora de seus maiores cânones.
O ângulo radical de Rogério Duarte se soma
a outros -como os de Rogério Duprat e Tom Zé. Cada um em escala própria, todos se
opõem à idéia de genialidade e de santidade que ronda os inquestionáveis Caetano e Gil
-a oposição a ela compunha o programa tropicalista, afinal.
Difícil saber quem renunciou mais
dramaticamente, se os radicais ou os moderados. Juntos ou separados, ainda hoje só fazem
sentido amplo quando se integram numa única e contraditória geléia geral.
Rogério Duarte, inspirador da
"marginália" tropicalista, hoje oferece o brinde tardio de seu pensamento.
Desreprimindo-se a si, desreprime junto a velha e cansada tropicália. O melhor: sincero a
ponto de desconcertar, mas despojado de projeções piegas ou autopiedosas, se desvenda no
livro como poeta profundo, mesmo quando proseia sobre a dor culpada do torturado(r).
(PEDRO ALEXANDRE SANCHES)
Tropicaos
Autor: Rogério Duarte
Lançamento: editora Azougue
Quanto: R$ 39 (178 págs.)
(© Folha de S. Paulo)