Compositor paraibano de 53 anos
revisita sua própria história através de diversos autores em "Estação
Brasil"
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL
É tempo de memória para os admiradores de
Zé Ramalho, mas também para ele próprio. Quase ao mesmo tempo em que a Sony lança uma
caixa com os 11 primeiros álbuns de sua carreira, Zé parte para uma revista na música
popular brasileira em seu novo disco, "Estação Brasil", pela BMG.
Em mais um projeto especial em CD duplo, o
cantor e compositor paraibano de 53 anos faz uma seleta de temas recolhidos de autores
tão diversos quanto Villa-Lobos, Tim Maia, Luiz Gonzaga, Erasmo Carlos, Jackson do
Pandeiro, Bezerra da Silva, Djavan etc. Adiciona a eles canções de sua própria obra que
não chegaram a se tornar sucessos.
O resultado é inconstante na medida em que
o repertório é inconstante, mas traz algo de inabitual em projetos desse tipo. O artista
não tenta se adaptar a seus estilos, pelo contrário. As canções é que são adequadas
a seus modos de rock-forró e martelo agalopado e ao canto-fala de profeta roqueiro de
raízes ultranordestinas.
Feitas as adaptações, sobressaem os
extremos, das canções que cabem direitinho dentro de sua voz (caso de
"Romaria", de Renato Teixeira, que ele canta com Fagner) às que precisam passar
por revolução para caírem em sua garganta ("Águas de Março", de Tom Jobim,
cantada em pique antibossa com Tetê Espíndola).
Outros extremos vão se somando. Percebe-se,
como por encanto, que "Planeta Água", de Guilherme Arantes, tem tudo a ver com
a retórica de Zé. Descobre-se que "Tempos Modernos", de Lulu Santos, de
formato bastante diverso, ganha ajuste de clique ao messianismo pop de Zé. O mesmo se dá
em "Bete Balanço", do Barão Vermelho, que se transforma num aboio, uma soturna
balada de fantasma -e funciona.
Se certa mansidão musical e a palidez da
voz agem contra a inteireza de "Estação Brasil", é hora de voltar à obra
original, para efeito de comparação, complementação ou pura saciação de saudade.
Na Sony, ex-CBS, Zé concebeu o crucial de sua obra, sobretudo os fundadores "Zé
Ramalho" (78) e "A Peleja do Diabo com o Dono do Céu" (79), dois dos mais
afiados produtos da primeira geração nordestina pós-tropicalista e pós-baiana da MPB,
liderada por ele, Belchior, Fagner, Alceu Valença e Geraldo Azevedo.
Com eles, ressurgia um ponto de vista mais
ácido do que era ser nordestino, expresso por Zé em peças-síntese como
"Avohai", "Chão de Giz" (78), "Beira-Mar" (79), "A
Terceira Lâmina" (81).
Eram, também, canções de marcado dom
messiânico -que as transformou em plenos sucessos e forjou a sina do Zé Ramalho dos anos
80, inebriado por êxito financeiro em galope, profusão de drogas, perda de identidade.
Os textos explicativos dos CDs relançados
encaram de frente os temas mais difíceis. Descrevem o plágio em parte involuntário em
"Força Verde" (82), as referências químicas crescentes de "Orquídea
Negra" (83) em diante, a submissão à gravadora no infeliz "De Gosto, de Água
e de Amigos" (85), as tentativas de recuperação.
Também se podem acompanhar, por som e
texto, certa descaracterização de sua musicalidade agreste pela associação com o
arranjador da moda Lincoln Olivetti, em 84, e brigas explosivas com a direção da CBS
conforme o retorno comercial ia murchando.
Formulando curva típica de ascensão e
queda, a caixa ainda assim só flagra um pedaço da história. Os anos CBS foram os
cruciais, mas, depois do digno "Frevoador" (92) e da saída definitiva,
começaria sua fase BMG, mais branda e menos bombástica.
Zé hoje se sintetiza no novo CD ao
transformar o pagode de Bezerra da Silva em rock-galope. Cantando as drogas quase como num
chiste, "Malandragem Dá um Tempo" ajeita Zé Ramalho a 2003 -nem fogo, nem
água.
Estação Brasil
Artista: Zé Ramalho
Lançamento: BMG
Quanto: R$ 50, em média
(© Folha de S.
Paulo)