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 Cine Ceará: começa a maratona

07/05/2003

 

 

 

O Homem do Ano, estréia em longa-metragem do cineasta José Henrique Fonseca, abre o 13º Cine Ceará - Festival Nacional de Cinema e Vídeo

 

O Homem do Ano, estréia em longa-metragem do cineasta José Henrique Fonseca, abre o 13º Cine Ceará - Festival Nacional de Cinema e Vídeo, evento que prossegue até terça-feira que vem. O Homem do Ano será exibido fora de competição e traz para as telas o livro O Matador, de Patrícia Melo

Patrícia Karam
da Redação

   O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca, é a principal atração da primeira noite do 13º Cine Ceará - Festival Nacional de Cinema e Vídeo, que será aberto hoje, às 20 horas, no Cine São Luiz Centro. O filme será exibido fora de competição. A solenidade de abertura contará ainda com a entrega do Troféu Eusélio Oliveira a Renzo Rossellini, filho de Roberto Rossellini. Ele está à frente da Fundação que leva o nome do pai e promove o resgate da obra do cineasta italiano. O Cine Ceará prossegue até a próxima terça-feira, ocupando diversos espaços da cidade - além do São Luiz, a programação se desloca ainda para o Espaço Unibanco Dragão do Mar, Cine Benjamin Abraão (Casa Amarela Eusélio Oliveira), Teatro do Centro Dragão do Mar e Hotel Ponta Mar.

   Na mostra competitiva, sete longas concorrem aos troféus de melhor filme, direção, fotografia, edição, roteiro, trilha sonora original, direção de arte, ator e atriz. O melhor filme receberá uma premiação de R$ 15 mil. Já a competição de cinema e vídeo em curta-metragem reúne 26 títulos nas categorias Ficção, Animação, Documentário e Vídeo Experimental. Os trabalhos disputam os títulos de melhor direção, fotografia, edição, roteiro, animação, trilha sonora original, direção de arte, ator e atriz, e ainda um troféu para vídeo experimental. A produção vencedora em cinema receberá R$ 5 mil. Para o vencedor em vídeo, o prêmio será de R$ 3 mil. A melhor produção cearense receberá também a quantia de R$ 5 mil.

   ''Quando você faz um filme, a primeira pessoa que você tem que agradar é você próprio. No fundo, não fiz o filme pensando muito em como ele será recebido, se ele terá uma boa bilheteria ou não. O importante foi que ficasse da forma como eu sempre imaginei''. O diretor José Henrique Fonseca desconversa quando fala da expectativa criada em torno de O Homem do Ano, que marca sua estréia em longa-metragem. Mas é inegável que a obra, na qual começou a trabalhar em 1997, é uma das produções nacionais mais esperadas deste ano. Os motivos são incontáveis. A começar pela assinatura no roteiro. O escritor Rubem Fonseca, pai de José Henrique, assume pela primeira vez a adaptação da obra literária de um outro autor. Antes, Rubem havia escrito apenas roteiros originais (Estelinha, A Extorsão) ou adaptado seus próprios romances e contos (A Grande Arte, Bufo & Spallanzani).

   O fato de ser uma adaptação também explica o interesse gerado em torno do longa. Afinal, a leva mais recente da cinematografia nacional tem essa característica em comum. Basta lembrar Cidade de Deus, O Invasor, Bellini e a Esfinge e Carandiru. No caso de O Homem do Ano, a fonte é O Matador, de Patrícia Melo. O best seller, lançado em 1995, foi publicado na França, Itália, Alemanha, Canadá, Inglaterra, Espanha, Holanda, Estados Unidos, Noruega e Portugal. Mas José Henrique descarta comparações, principalmente com Cidade de Deus e Carandiru no que diz respeito à abordagem social da violência. ''Meu filme é mais hermético'', garante.

   O Homem do Ano traz ainda consigo a boa repercussão no último Festival de Berlim, onde foi exibido na mostra Panorama da seleção oficial. A participação, sempre com sessões lotadas garantiu o convite para participar de outros festivais internacionais, entre eles o 46º Festival Internacional de Cinema de São Francisco, no qual o longa faturou o prêmio SKYY (nome da vodca que o patrocina), destinado a jovens cineastas. Mas a exibição no Cine Ceará será a primeira prova de fogo no Brasil, onde o filme permanece inédito, mesmo em festivais. A estréia comercial está marcada para 1º de agosto. O público cearense vai conferir em primeira mão a trajetória de Maiquél (Murilo Benício), um vendedor de carros usados desempregado que, após uma aposta perdida, vira assassino profissional e, finalmente, dono de uma empresa de segurança.

   Em conversa, por telefone do Rio de Janeiro, José Henrique Fonseca falou sobre a produção de O Homem do Ano e também sobre a polêmica envolvendo o cineasta Cacá Diegues, que acusou de ''dirigismo'' a nova política de concessão de patrocínios culturais das estatais, estabelecida pela Secretaria da Comunicação do governo (Secom).

O POVO - A exemplo de Cidade de Deus, O Homem do Ano chamou a atenção do público no Festival de Berlim por trazer as mazelas sociais do Brasil para as telas. Mas você tem dito que não quis fazer um filme sociológico e que a violência fica em segundo plano em seu filme.
José Henrique Fonseca - É, na verdade, ele é diferente. Cidade de Deus, como o próprio título diz, é um panorama sobre a violência carioca. O meu filme, também como o título indica, é sobre uma pessoa, um indivíduo. Realmente, é um filme oposto ao Cidade de Deus. É um filme mais hermético, mais fechado. Certamente, ele não terá um alcance tão amplo quanto o Cidade de Deus. O livro da Patrícia Melo é uma história de como o destino pode transformar sua vida por um simples detalhe. Na minha história, o cara perde uma aposta para um cabeleireiro e, a partir daí, sua vida muda completamente. Então, o que mais me agradou no livro da Patrícia foi exatamente esse aspecto do destino. É um vendedor de carros, desempregado, que tem uma vida tacanha e simples e que, a partir de alguns acontecimentos, cai no mundo do crime. E nesse mundo do crime, ele é considerado, ele é reconhecido, alcança a fama e a glória. Então, na verdade, não fiz um filme sobre violência. No filme, ela é um cenário. Ele é um filme com uma mistura de sentimentos. É difícil enquadrá-lo num gênero. Não é policial, não é um thriller, não é um suspense, não é um drama. É difícil classificá-lo. Meu filme não é sobre um matador. É o filme de alguém que se transforma num matador.

OP - Então, sua principal motivação para fazer O Homem do Ano foi trabalhar o perfil desse protagonista?
JHF - Foi. O principal era fazer um filme sobre esse personagem, sobre como sua vida está sujeita a mudar. Se você vai pegar um ônibus, você pode conhecer a mulher da sua vida nele. Mas se você perder esse ônibus - chegar atrasado no ponto -, a mulher da sua vida vai embora. Aí, você pega outro ônibus e ele é assaltado. Então, o que me interessou muito foi isso: como sua vida está sujeita a rumos distintos, dependendo de qual situação você se encontra.

OP - Você convidou seu pai, Rubem Fonseca, para adaptar o livro da Patrícia Melo. Geralmente, ele trabalha em roteiros originais ou adaptações de seus próprios livros. Como surgiu a idéia de envolvê-lo no projeto? E qual foi a participação da Patrícia no filme?
JHF - A Patrícia acompanhou um pouco a feitura do roteiro. Ela é muito amiga minha. A Patrícia, meu pai e eu nos conhecemos há muito tempo. Isso aí surgiu naturalmente. Sempre quis trabalhar com meu pai. Ele adora cinema, já tinha feito roteiros antes. Foi uma questão natural. Sempre que posso, troco figurinhas com ele.

OP - Quais as principais alterações do roteiro em relação ao livro?
JHF - Quando você adapta um livro para o cinema, tem que fazer escolhas. Mesmo um livro cinematográfico como é o da Patrícia Melo, você não consegue transpor inteiro para o filme. É preciso optar, escolher caminhos. O grande aspecto do roteiro em relação ao livro é que a gente buscou sempre enfatizar mais o lado de tragédia grega. Ir atrás do destino do Maiquél. De como aquele simples detalhe de uma aposta que ele perde, muda a vida dele completamente. A idéia não era fazer um filme sociológico como é o Carandiru. A gente quis ir na psiquê, na mente do personagem. Um homem que está dividido na dualidade de ser honesto ou ir para o mundo do crime, onde ele é laureado, considerado. Então o que aconteceu na transposição do livro para o roteiro foi que, de alguma forma, a gente reenfatizou esse aspecto que no livro está em segundo plano. A gente buscou humanizar mais o personagem, fazer com que esse personagem fosse mais compreendido pelo espectador.

OP - O Homem do Ano é mais uma adaptação que chega às telas. Essa é uma tendência do cinema nacional?
JHF - Não sei se é uma tendência adaptar obras literárias de sucesso. Acho que é uma coincidência, mas acho que a literatura de qualidade sempre será fonte de inspiração para o cinema não apenas no cinema brasileiro, mas também no cinema mundial. A literatura e o cinema estão andando de mãos dadas. Mas se existe uma carência de bons roteiros originais, isso eu não sei. É uma outra história.

OP - Como você vê as críticas de Cacá Diegues à política do governo para o setor cinematográfico?
JHF - Tudo o que o Cacá disse eu assino embaixo. Concordo com tudo que o Cacá disse na entrevista-manifesto. Aliás, todos nós do meio artístico concordamos. Seria até redundante repetir tudo o que ele disse, mas em nenhum momento, o governo pode estabelecer parâmetros, limites para a criação artística. Se ela não for livre, nós nunca vamos ter um cinema de verdade. A política cultural não deve criar barreiras.

(© O Povo/NoOlhar.com.br)


Ceará em quatro curtas

Quatro curtas cearenses participam da Mostra Competitiva do Cine Ceará - Parque de Diversões, Tambores de Corpos, Águas de Romanza e Rua da Escadinha, 162. A produção local selecionada será exibida na sexta e sábado no Cine São Luiz. A Mostra Olhar do Ceará exibe outras 25 produções no Teatro do Centro Dragão do Mar

Sílvia Bessa
da Redação

   O Ceará participa da Mostra Competitiva de Curtas-Metragens do Cine Ceará com quatro produções. São dois vídeos - Tambores de Corpos e Parque de Diversões. Dois filmes - Águas de Romanza e Rua da Escadinha, 162. Duas ficções e dois documentários. Três foram realizados com recursos do Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo. Outro com recursos do Ministério da Cultura e Fundo Estadual da Cultura. Três serão exibidos na próxima sexta-feira. Um será exibido no sábado.

   Águas de Romanza e Parque de Diversões têm uma história em comum que se passa fora da tela. A equipe é praticamente a mesma e os diretores se revezam nas funções. ''O dinheiro que a gente recebe nos prêmios não dá pra pagar o diretor. Assim, não recebi pelo meu filme mas trabalhei no outro e fui remunerado. Conseguimos viver de cinema durante seis meses'', explica Armando Praça, 24. Somaram experiência e diminuíram os custos. A produção conseguiu negociar preço de filme, por exemplo. E Parque de Diversões que seria todo em vídeo pôde ser captado em 16mm e finalizado em VHS.


   Márcio Câmara, diretor de Rua da Escadinha, 162, captou em 16 e ampliou para 35mm. ''Isso é caro. E eu já sabia. Mas queria contar a história do Christiano, do acervo que vi crescer e da casa que foi dos meus avós. O filme recebeu o Prêmio Ceará, mas foi recheado de patrocinadores, apoiadores, eu mesmo entrei com uma parte. Tinha que ser assim, ou não estaria pronto dentro da qualidade técnica que eu queria. Mas valeu à pena'', avalia.

   Tambores de Corpos, de Janaína Marques, é feito em vídeo e não teve problemas com orçamento. ''Por ser em VHS eu não me preocupei com o tempo. Pra documentário isso é fundamental. Captei 15 horas. E o dinheiro deu direitinho. Só agora é que estou investindo na divulgação'', observa a diretora, que participou de quase todas as fases do documentário: pesquisa, produção, montagem, edição. ''É bacana ver que depois do esforço o vídeo está dando tão certo'', comemora. De janeiro pra cá, já participou de mais de dez festivais.

   Rua da Escadinha participou da mostra de documentários É Tudo Verdade que acontece no Rio e São Paulo e acaba de receber quatro dos cinco prêmios do Cine PE. Levou melhor direção, roteiro, montagem e filme.

   Águas de Romanza está selecionado para vários festivais e também ganhou recentemente um dos prêmios em Pernambucano, o de melhor figurino que é concedido pela indústria têxtil. Parque de Diversões participou da Mostra do Filme Livre (RJ), Festival de Varginha, onde ganhou o prêmio de Melhor Atriz, do Festival do Mercosul e do Encontro de Cinema Latino Americano em Tolouse.

   Exibições à parte. A grande expectativa mesmo é ver o trabalho projetado no Cine São Luiz. Gláucia Soares explica que será a primeira vez que toda a equipe estará reunida para assistir a Águas... Os cinco pais de santo que participam do vídeo de Janaina Marques também estarão se vendo pela primeira vez na tela grande.

   Enquanto isso, Márcio Câmara tenta convencer Christiano, personagem central de seu documentário. ''Vivo agora a expectativa de mostrar o filme a ele. Estou insistindo para que vá ver. Acho que será muito bom. Quero levar também meu pai, meus irmãos. A história deles também passa por ali. Vai ser emocionante. Além de ser no São Luiz... Foi lá onde aprendi a ver filmes'', diz.

   Outras 25 produções cearenses fazem parte da Mostra Olhar do Ceará e podem ser conferidas nos dias 8, 9 e 10 no Teatro do Centro Dragão do Mar. São sete documentários, cinco animações, oito ficções e cinco vídeos experimentais.


O MELHOR DE HOJE

20h - Solenidade de Abertura. Entrega do Troféu Eusélio Oliveira ao homenageado Renzo Rossellini. Cine São Luiz - Centro.

21h - Exibição do longa-metragem O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca. Cine São Luiz - Centro.

(© O Povo/NoOlhar.com.br)

Novidade no audiovisual
 

Sabrina Lima
Especial para O POVO

   O edital do 3º Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo será lançado no encerramento do 13º Cine Ceará, próxima terça-feira. Foi o que anunciou ontem a secretária da Cultura e Desporto do Estado do Ceará, Cláudia Leitão. O prêmio terá seu período de inscrição de 14 de maio a 14 de julho e, desta vez, traz um diferencial fundamental: antes poderiam ser inscritos apenas projetos de diretores iniciantes; na edição de 2003, qualquer diretor cearense (ou residente no estado há três anos), pode inscrever seu trabalho, desde que dentro das condições citadas no regulamento.

   Serão escolhidos por uma comissão de técnicos convidados pela secretária 10 projetos de curtas em vídeo, cada um agraciado com R$ 15 mil; dois filmes de 35 mm na categoria documentário e dois na categoria animação, cada um deles recebendo R$ 50 mil; e dois filmes também de 35 mm na categoria ficção, sendo premiados com R$ 70 mil cada. Segundo Glauber Filho, cineasta, presidente da Funtelc e membro da Comissão do Audiovisual do Estado do Ceará, que é responsável pela elaboração do edital do Prêmio, o Ceará é o 3º estado que mais produz na área de audiovisual no Brasil e a intenção da Comissão é levar o estado ao topo desta lista. Isso porque a Comissão considera que as produções cearenses estão num ''estágio maduro'' de organização. Para Glauber, o intuito seria localizar o audiovisual cearense na política nacional, para facilitar a obtenção de verbas e da atenção de público e profissionais.

SERVIÇO
3º Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo, realizado pela Secretaria da Cultura e Desporto do Estado do Ceará, organizado pela Comissão de Audiovisual do Estado do Ceará. Inscrições: de 14 de maio a 14 de julho. Informações: www.secult.ce.gov.br


Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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