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 Grupo ligado ao Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua embarca em turnê para a Europa

18/05/2003

 

 

 

Naná Vasconcelos, com o cajado de ode, no encontro de maracatus no Recife

 

Tatiana Meira
Da equipe do DIARIO

   O sorriso estampado no rosto não nega que eles estão prestes a viver uma experiência única. A expectativa é enorme e os ensaios do Maracatu Nação Movimento foram intensificados para fazer bonito diante do exigente público do exterior. Neste sábado e domingo, os adolescentes do grupo ligado ao Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua estarão fazendo as últimas apresentações antes da primeira turnê internacional. Contando com apoio financeiro da Cáritas alemã, instituição ligada à Igreja Católica, os 11 integrantes, com idades entre 12 e 17 anos, viajam no próximo dia 26 para a Alemanha e já têm shows agendados também na Áustria.

   Com a oportunidade, eles deixam para trás a rotina mergulhada em situações de risco pessoal e social, para ampliar os horizontes profissionais e mostrar seu talento musical aos gringos. "A turnê é a continuação de um resgate da cidadania destes meninos através da cultura, um trabalho que vem sendo desenvolvido aqui em Pernambuco para elevar a auto-estima deles", contextualizaAdemar Marques, coordenador do Programa da Criança e do Adolescente da Regional 2 da Cáritas, que atua de Alagoas ao Rio Grande do Norte, dentro da Rede Tecendo Parcerias, formada entidades que assistem a crianças e adolescentes em situação de risco.

   Em solo europeu, o grupo lança o CD Movimento dos Ritmos, gravado nos últimos meses no estúdio Fábrica, com músicas entoadas pela coquista Dona Célia e participações especiais. Para cuidar da preparação musical dos meninos e deixá-los afinados para encarar a primeira gravação de um disco e os shows da turnê, o Movimento chamou a Ciranda Produções, a mesma que empresaria Lia de Itamaracá. A Ciranda, por sua vez, escalou o arranjador e diretor musical Tony Boy para tocar o disco. Os figurinos que serão usados pelos adolescentes estão sendo confeccionados pela Período Fértil, da estilista Márcia.

   Os meninos estão sendo acompanhados por psicólogas e na volta da turnê, em julho, já foram convidados para tocar em shows. "É um trabalho que abre novas perspectivas profissionais para eles. Investimos na capacidade criativa dos meninos para que vençam o estigma de que por serem pobres não poderiam se engajar num projeto de qualidade", argumenta Ademar.

   Os ensaios para a gravação do disco começaram em fevereiro deste ano. "Fiquei feliz com o resultado do disco. Antes, eles só entendiam o contexto do maracatu. A gente lapidou isso e ensinou a eles a tocar coco e ciranda, além de ensaiar as meninas para os vocais", conta Tony Boy. Serão prensadas duas mil cópias do disco, que será lançado no Brasil quando voltarem da turnê.

   O interesse e o desempenho individual nos ensaios foram os critérios usados para escolher o grupo que irá viajar entre os 32 adolescentes do maracatu. Dos 11 componentes, quatro meninas dançam e fazem backing vocal durante os shows.

   Além dos adolescentes, embarcam para a turnê as pessoas que estão mais ligadas ao grupo. Tonho das Olinda e Verônica Maria da Silva fazem parte da equipe. "A expectativa de mudança para eles é muito grande e quero contribuir para isso. Nada do que a gente faz é imposto, tomamos as decisões juntos, discutindo", reforça Verônica, que hoje coordena o grupo Sementes do Amanhã, mas antes de militar no Movimento era funcionária de uma creche.

   Os últimos ensaios abertos do Maracatu Nação Movimento acontecem hoje, às 19h, num espaço próximo ao terminal de ônibus do Alto do Sol Nascente e no domingo, às 17h, no coreto da Praça do Carmo, em Olinda. De lá, os meninos saem num cortejo, batucando pelas ladeiras da Cidade Alta, treinando para as evoluções pelas ruas européias. Dois momentos para conhecer o grupo que irá representar o Brasil no exterior.

(© Pernambuco.com)

Célia do Coco assina repertório

 

   Pegue as batidas do maracatu, acrescente pitadas de ciranda e a energia do coco. Foi com esta receita que se organizou o CD Movimento dos Ritmos. Com 11 músicas, a maioria pinçada do repertório da própria Célia do Coco, de 68 anos. Irmã de Dona Cila, que ficou conhecida depois de ganhar o prêmio para Talentos da Terceira Idade do Banco Real e de tocar com bandas experientes, como a Nação Zumbi, Célia se prepara para o primeiro vôo internacional. "Estou muito contente e se conseguir agradar, quero que me chamem de novo", adianta Dona Célia, que brinca coco desde os 11 anos. "O mais longe que fui para apresentações foi ao Rio e a São Paulo, com o conjunto de minha irmã. Deixei de tocar com ela faz somente um ano", acrescenta.

  No disco, que tem a participação da cantora Luciene Loyce, no maracatu, e de Dulce e Severina Baracho, na faixa de ciranda, Dona Célia comanda os vocais. Filha do coquista olindense Joaquim Marcolino de Oliveira, ela ficou triste quando o pai vendeu a zabumba. Ainda assim, seguiu a tradição da família, mesmo que precisasse desobedecer ao pai ou ao marido. "Ele me dizia que eu só podia ir para olhar, responder, pouco e tirar coco, nenhum", recorda Célia, contando que o esposo faleceu há três anos.

  Este é o primeiro disco efetivamente gravado por Célia, que tentou outro projeto que ficou pelo meio do caminho. "Tenho oito filhos e todos me apóiam e me dizem para aproveitar a oportunidade", se orgulha. Entre as músicas do disco estão Macumbeba, um coco mesclado com capoeira, que Célia fez para a filha Maria, que gostava de sair para vadiar na Sé. A letra alerta que o macumbeba é um bicho feio e perigoso e que pode pegá-la despervinida. No lamento Manuel Passarinho, Célia fala de um homem com este nome e avisa que quer encontrá-lo.

   Origem - Célia nasceu na Sé, em Olinda e tem fé de que o povo vai gostar de seu trabalho. "Quando nasci, vim ao mundo com dois dentes. Foi uma festa. Já cheguei mordendo", brinca. Ela faz questão de destacar que participa de rodas de coco "não é de agora" e quequer gravar outro CD quando voltar ao país. O disco Movimento de Ritmos foi gravado, mixado e masterizado no estúdio Fábrica, com concepção artística de Beto Hees, da Ciranda Produções. Na parte da percussão, os meninos tocam alfaia, caixa, pandeiro e abê.

(© Pernambuco.com)


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