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 Obra de Júlio Braga ainda relegada ao esquecimento

18/05/2003

 

 

 

 

 

Irmã do pianista e compositor pernambucano não consegue apoio para gravar CD com obras dele

MARCOS TOLEDO

   Se vivo, o pianista olindense Júlio Braga teria completado 85 anos de idade no último dia 24. Próximo da passagem de seus dez anos de morte, em 10 de outubro, sua irmã mais nova, Clara da Silva Braga Viana, preocupa-se com o esquecimento em que caiu a obra do artista, expoente que levou a música brasileira para importantes casas de concerto do mundo, como a Carnegie Hall, de Nova Iorque, e a Maison Gaveau, de Paris, em meados do século passado.

   Clara Viana é quem organiza o acervo deixado por Júlio Braga. Segundo ela, o material envolve cerca de 160 partituras e algumas gravações. Também pianista, Clara quer reconhecimento por meio da recuperação dos registros sonoros e da gravação de um CD com obras inéditas do irmão famoso.

   Essa preocupação de Clara para que as novas gerações tenham conhecimento da obra do irmão se justifica na própria trajetória do artista. Nascido em 24 de abril de 1918, Júlio Faria da Silva Braga começou a estudar música quando criança e, ainda aos oito anos de idade, compôs sua primeira peça.

   Discípulo do pianista e professor Manoel Augusto dos Santos, estudou no Conservatório Pernambucano de Música, apresentou-se pela primeira vez no Teatro Santa Isabel antes dos dez anos e, já na década de 1930, realizava diversos concertos por todo o País. Em depoimento datado de 1947, o dramaturgo Valdemar de Oliveira previa: “Saúdo em Júlio Braga o nosso maior valor pianístico e nele pressinto, para breve, um nome nacional.”

   O talento de Júlio Braga garantiu-lhe o primeiro prêmio do Concurso Philips do Brasil, em 1948. A premiação permitiu que o pianista viajasse para a Europa onde participou de cursos e concertos. Holanda, França, Inglaterra foram os primeiros o reconhecer como exímio solista. Depois, vieram Venezuela, Porto Rico, Trinidad e Estados Unidos.

   Pelo teor dos registros cuidadosamente guardados por Clara Viana, as apresentações internacionais que marcaram decisivamente a carreira de Júlio Braga foram as da França e dos EUA. Em 25 de novembro de 1948 Braga tocou na Salle des Quatuors da Maison Gaveau, em Paris. No programa, os clássicos conhecidos de Bach, Brahms, Schümann, Weber, Debussy, Prokofiev e Liapunov, além de uma peça do brasileiro Heitor Villa-Lobos.

   O hábito de incluir sempre obras de compositores brasileiros ele estendeu para suas próprias músicas. No concerto de 19 de julho de 1959, na Carnegie Hall, em Nova Iorque, após interpretações de Bach, Stradal, Mozart, Chopin, Debussy, Sjogren e, claro, Villa-Lobos, Braga mostrou seu Allegro appassionato.

   A breve turnê pelos EUA, naquele ano, incluiu ainda concertos na Carl Fischer Concert Hall e Steinway Hall (ambas em Nova Iorque), além de apresentações na Flórida e em Washington D.C., com elogiosa repercussão na imprensa.

   O reconhecimento internacional, que se seguiu ao longo dos anos, contudo, contrasta com a realidade no Estado natal do artista. Ele nem sequer é mencionado em obras de referência como a Enciclopédia de Música Brasileira ou o livro Compositores Pernambucanos (1920-1995), de Renato Phaelante. E, em O Piano em Pernambuco (Fundarpe, 1987), de Leonardo Dantas, é citado apenas en passant.

   A irmã de Júlio Braga chegou a dar entrada no Sistema de Incentivo à Cultura da Prefeitura do Recife com um projeto para gravar um CD com peças do músico interpretadas por colegas como Elyanna Caldas, Marco Caneca e outros pianistas, mas o mesmo não obteve aprovação. “A música erudita não tem espaço”, lamenta. No entanto, ela ainda tem esperança de que alguém se interesse em editar a obra de Braga a fim de disponibilizá-la para as novas gerações.

(© Jornal do Commercio-PE)


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