Irmã do pianista e compositor
pernambucano não consegue apoio para gravar CD com obras dele
MARCOS TOLEDO
Se vivo, o pianista olindense Júlio Braga teria completado 85 anos de
idade no último dia 24. Próximo da passagem de seus dez anos de morte, em 10 de outubro,
sua irmã mais nova, Clara da Silva Braga Viana, preocupa-se com o esquecimento em que
caiu a obra do artista, expoente que levou a música brasileira para importantes casas de
concerto do mundo, como a Carnegie Hall, de Nova Iorque, e a Maison Gaveau, de Paris, em
meados do século passado.
Clara Viana é quem organiza o acervo deixado por Júlio Braga. Segundo
ela, o material envolve cerca de 160 partituras e algumas gravações. Também pianista,
Clara quer reconhecimento por meio da recuperação dos registros sonoros e da gravação
de um CD com obras inéditas do irmão famoso.
Essa preocupação de Clara para que as novas gerações tenham
conhecimento da obra do irmão se justifica na própria trajetória do artista. Nascido em
24 de abril de 1918, Júlio Faria da Silva Braga começou a estudar música quando
criança e, ainda aos oito anos de idade, compôs sua primeira peça.
Discípulo do pianista e professor Manoel Augusto dos Santos, estudou no
Conservatório Pernambucano de Música, apresentou-se pela primeira vez no Teatro Santa
Isabel antes dos dez anos e, já na década de 1930, realizava diversos concertos por todo
o País. Em depoimento datado de 1947, o dramaturgo Valdemar de Oliveira previa: Saúdo
em Júlio Braga o nosso maior valor pianístico e nele pressinto, para breve, um nome
nacional.
O talento de Júlio Braga garantiu-lhe o primeiro prêmio do Concurso
Philips do Brasil, em 1948. A premiação permitiu que o pianista viajasse para a Europa
onde participou de cursos e concertos. Holanda, França, Inglaterra foram os primeiros o
reconhecer como exímio solista. Depois, vieram Venezuela, Porto Rico, Trinidad e Estados
Unidos.
Pelo teor dos registros cuidadosamente guardados por Clara Viana, as
apresentações internacionais que marcaram decisivamente a carreira de Júlio Braga foram
as da França e dos EUA. Em 25 de novembro de 1948 Braga tocou na Salle des Quatuors da
Maison Gaveau, em Paris. No programa, os clássicos conhecidos de Bach, Brahms, Schümann,
Weber, Debussy, Prokofiev e Liapunov, além de uma peça do brasileiro Heitor Villa-Lobos.
O hábito de incluir sempre obras de compositores brasileiros ele estendeu
para suas próprias músicas. No concerto de 19 de julho de 1959, na Carnegie Hall, em
Nova Iorque, após interpretações de Bach, Stradal, Mozart, Chopin, Debussy, Sjogren e,
claro, Villa-Lobos, Braga mostrou seu Allegro appassionato.
A breve turnê pelos EUA, naquele ano, incluiu ainda concertos na Carl
Fischer Concert Hall e Steinway Hall (ambas em Nova Iorque), além de apresentações na
Flórida e em Washington D.C., com elogiosa repercussão na imprensa.
O reconhecimento internacional, que se seguiu ao longo dos anos, contudo,
contrasta com a realidade no Estado natal do artista. Ele nem sequer é mencionado em
obras de referência como a Enciclopédia de Música Brasileira ou o livro Compositores
Pernambucanos (1920-1995), de Renato Phaelante. E, em O Piano em Pernambuco
(Fundarpe, 1987), de Leonardo Dantas, é citado apenas en passant.
A irmã de Júlio Braga chegou a dar entrada no Sistema de Incentivo à
Cultura da Prefeitura do Recife com um projeto para gravar um CD com peças do músico
interpretadas por colegas como Elyanna Caldas, Marco Caneca e outros pianistas, mas o
mesmo não obteve aprovação. A música erudita não tem espaço, lamenta. No
entanto, ela ainda tem esperança de que alguém se interesse em editar a obra de Braga a
fim de disponibilizá-la para as novas gerações.
(© Jornal do
Commercio-PE)