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 Pernambuco, uma terra de muitos ritmos..

24/05/2003

 

 

 

 

Letícia Lins RECIFE

   Com duas grandes festas populares — carnaval e São João —- Recife vive o ano inteiro sem perder o ritmo. Boa parte das manifestações que pipocam em fevereiro e junho movimentam durante o resto do ano praias, praças, pátios e salões. Elas se espalham não só pelo centro da capital como também por seus subúrbios.

   Quem está de viagem marcada para Pernambuco e sonha vivenciar o diversificado caldeirão musical do estado não precisa ir muito longe. Entre Recife e Olinda, o turista pode escolher entre mergulhar nos batuques dos maracatus e afoxés, cair em uma roda de ciranda, dançar ao som do manguebeat ou do coco, curtir o melhor forró pé-de-serra do país e até mesmo conhecer o rock pernambucano. Só é preciso ficar de olho na programação das duas cidades, porque algumas manifestações acontecem em datas fixas, mas outras são móveis.

(© O Globo On Line)


Boa música e muita diversão durante todos os dias da semana

   A primeira sugestão para os visitantes é prestar atenção, no Centro de Recife, à programação do Pátio de São Pedro, que fica no bairro de São José e que movimenta sempre a cena musical pernambucana. Todas as semanas há a chamada “Terça Negra”, quando manifestações como afoxés, maracatus, coco e rodas de capoeira movimentam o local, sempre a partir das 20h. O acesso é gratuito, e a cada semana há pelo menos três grupos se apresentando.

   A programação de junho ainda não está fechada, mas até o final de maio terão passado pelo pátio o grupo de coco Raízes de Arcoverde, o afoxé Alafin Oyó, o grupo de capoeira Abadá, o Coco Bongar, o Afoxê Omim Sabá, o grupo Afromangue e a banda Estado Civil, além de maracatus de baque virado, como o Leão Coroado e o Nação Peixinhos. Isso somente nas terças-feiras!

   A agitação que começa no início da semana atinge o auge às sextas-feiras, também a partir das 20h, quando a animação do espaço sempre fica por conta de um grupo local. O ritmo pode variar da seresta ao forró, da MPB a orquestras da capital ou do interior. Bom para dançar!

   Quem acha que é só isso engana-se. O sábado também é de badalação, mas em ritmo de manguebeat. O pátio é invadido por jovens em busca das últimas novidades de bandas que rezam pela cartilha do ídolo Chico Science, o guru que morreu há seis anos em um acidente de carro. É nesse dia que lá se apresentam as bandas em início de carreira, como a Pindorama, e também artistas já consagrados, que sobem no palco para uma canjinha, como fez há alguns dias na bateria o Canibal, vocalista da banda Devotos.

   Ainda no Pátio, outra recomendação para apreciar o que há de melhor na música pernambucana é não deixar de dar uma passadinha no Bar Instinto. Funcionando há apenas dois anos, ele abre seu espaço às sextas-feiras e sábados para bandas inéditas como Astronautas, Parafusa, A Roda, Fav Five, Catarse, Mulamanca e Marisabel. A entrada varia entre R$ 2 e R$ 5, dependendo do evento e da banda convidada, segundo informam as simpáticas donas do espaço, Ceiça Chagas e Goretti Perrier. Detalhe: não adianta chegar antes da meia-noite.

   Ainda no Centro de Recife, os domingos são da Feira de Artesanato que acontece na Rua do Bom Jesus, onde há sempre um grupo se apresentando no fim da tarde. Pode ser um maracatu, um bloco de frevo, um grupo indígena ou afro. Aos domingos também, a partir das 16h, o turista pode se deparar na Rua da Guia com o grupo Cabra Alada, que faz ensaios gratuitos. São 30 tambores, alfaias, xerequês e ganzás que executam não só maracatus, como baião, xaxado e coco estilizado.

   Circulando pelos subúrbios da capital ou de outras cidades da região metropolitana, o turista acaba descobrindo gratas surpresas. Se a data da chegada não coincide com a “Terça Negra” do Pátio de São Pedro, em Recife, não é preciso desanimar. Os mais diversos ritmos tomam conta de Pernambuco a semana toda. Às quinta-feiras, a partir das 20h, por exemplo, o ponto de encontro é no Mercado Eufrásio Barbosa, no Varadouro, em Olinda, onde o programa é soltar o corpo nas “Quintas Negras”.

   Também no Mercado Eufrásio Barbosa, aos domingos, alfaias, tambores, atabaques, agogôs, abês e timbaus movimentam a cena. A cada domingo, grupos de origem afro se revezam no local. O valor do ingresso é bem acessível: R$ 3. A partir de junho, sempre no primeiro domingo de cada mês, o espaço será ocupado pelo maracatu Nação Pernambuco, um dos mais conhecidos de todo o estado.

   O segundo domingo do mês no mercado é destinado ao Projeto Batuques de Maracatus, com apresentação de grupos como Maracatudo Camaleão, Maracatu Leão Negro e o afoxé Oxum-Pandá.

   Achou pouco? Pois ainda tem muito mais à disposição do turista no mercado. No quarto domingo de cada mês, acontece o Projeto Acerto de Tambores, com participação de maracatus ortodoxos, que seguem religiosamente os rituais africanos, como o Leão Coroado. O início das apresentações está marcado para 17h, mas o turista não precisa ter pressa. Somente por volta das 18h30m é que os tambores “pegam fogo”.

(© O Globo On Line)


O autêntico forró pernambucano reúne multidões em casas simples

   Ritmo pernambucano que faz sucesso em todo o Brasil, o forró também marca presença nas noites e finais de tarde em todo o estado. O forró, tal como acontece nas cidades do sertão, não é executado com luxo e atrai verdadeiras multidões.

   As casas que adotam o ritmo geralmente são muito populares e mantidas por pessoas do interior ou por forrozeiros tradicionais. O mais conhecido é o Forró do Arlindo. Por Arlindo, aliás, leia-se Arlindo dos Oito Baixos, o mais conhecido sanfoneiro do estado, e que durante 25 anos acompanhou Luiz Gonzaga em suas andanças pelo país.

   Seu forró começou como uma brincadeira de amigos no fundo do seu quintal, no bairro Dois Unidos, zona norte de Recife. A freqüência começou a crescer de forma assustadora, Arlindo derrubou coqueiros e jambeiros, construiu um galpão e o local virou uma festa só desde então.

   Aos domingos, Arlindo recebe de 800 a mil pessoas para o legítimo forró pé-de-serra. O melhor é que forrozeiros tradicionais, como Maciel Melo, Santana, Alcimar Monteiro, Dominguinhos e Marinês costumam passar lá para se divertir e terminam, quase sempre, dando uma canja para os visitantes.

   — A procura é tanta que a gente é obrigado a fechar as portas para não ficar desconfortável — explica Arlindo, sem esconder a satisfação.

   A festa no Forró do Arlindo acontece todos os domingos, sempre às 18h, e a entrada custa apenas R$ 5.

   Menos concorrido, mas igualmente divertido é o Forró do Mestre Salu, na Casa da Rabeca, no bairro Cidade Tabajara, na histórica Olinda. Lá, o forró é de graça, e o convidado só precisa pagar o que consumir no bar.

   No palco improvisado, o grupo Pé na Estrada comanda a festa: Expedito (sanfona), Pinguim da Zabumba (zabumba e vocal), Serginho (triângulo), Pelé (pandeiro) e Godé (mineiro). De quebra, Mestre Salu brinda os presentes com sua famosa e já internacional rabeca. Se o turista chegar um pouco mais cedo, por volta das 15h ou 16h, ainda pode assistir, de quebra, a uma peleja entre o próprio Salu e o cantor e instrumentista Publius, um dos novos valores da terra.

   Outra casa bem conhecida no circuito festivo de Recife é a Sala de Reboco, que fica no bairro Cordeiro. Fiel ao legítimo forró pé-de-serra, a casa abre de quinta-feira a sábado, sempre a partir das 22h, e é um programa imperdível para quem gosta de dançar forró, baião e xaxado.

   Já no sofisticado Clube Internacional, no bairro Benfica, acontece o Circuito do Forró, entre os meses de abril e maio. As festas tomam conta do espaço às sextas-feiras e sábados, a partir das 22h. São cerca de seis mil pessoas por noite, para dançar forró tradicional (70% dos grupos que se apresentam) ou eletrônico (30%).

   Cada festa é dedicada a uma cidade sertaneja, com a participação de músicos daquelas cidades. Os próximos municípios convidados serão Cabrobó, Tacaratu, Arcoverde e Sertânia. O ingresso custa R$ 10, em média, e o local também é conhecido como ponto de azaração. Ao final do circuito, 15 cidades terão apresentado seus artistas.

   Na Ilha de Itamaracá, a 45 quilômetros de Recife, o comando da festa fica por conta de Lia, a cirandeira mais famosa do Brasil. Mas por pelo menos quatro meses, a famosa artista popular não vai se apresentar. Ela botou o pé na estrada, está visitando vários estados e só volta em setembro, quando começa o verão, para voltar a formar suas rodas de ciranda na beira da Praia de Jaguaribe. Lia virou tema de música. Quem não conhece os versos “essa ciranda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá”? Ela é uma lenda viva e tem porte de rainha. Na ciranda, não tem igual.

(© O Globo On Line)


Para recarregar as baterias, não há melhor acompanhamento do que as iguarias típicas da região

   De carne macia e com teor de gordura muito menor do que a de porco ou de boi, mas exigindo um preparo cheio de segredos, truques e alquimias, o bode é o prato preferido dos sertanejos e o mais freqüente nas casas que cultivam o forró.

   No do Arlindo, o bode sai com macaxeira (aipim), com farofa de cuscuz ou mesmo acompanhando um arrumadinho (feijão verde, farofa e temperos verdes misturados com carne picadinha). Dependendo da quantidade, o preço pode chegar a R$ 10.

   Na Sala de Reboco e no Circuito do Forró, o bode também domina o cardápio. Ele pode ser servido frito, assado ou guisado. O caldinho também é bastante solicitado, assim como a lingüiça de bode (bem mais leve que as outras). A carne-de-sol também é de bode, é claro, e os acompanhamentos podem ser tanto a farinha de milho (em vez da de mandioca) quanto o feijão verde, muito apreciado no sertão. No Clube Internacional, o tira-gosto mais solicitado é o churrasco de bode.

   Na Casa da Rabeca, os tira-gostos são diferentes das demais casas de forró. E o preço é para lá de acessível. Tudo custa R$ 1, seja a fatia de bolo de milho, do Souza Leão (bolo pernambucano, delicioso) ou de aipim. Para quem gosta de pratos salgados, uma fatia da torta de bacalhau é imperdível. A tapioca também é muito solicitada (recheio tradicional, de coco ralado). Tem, ainda, canjica (R$ 0,70) e pamonha (R$ 1).

   No roteiro do forró, do maracatu, do manguebeat, do coco ou da ciranda também se acha sempre o que comprar. Na feirinha dominical da Rua do Bom Jesus, no Recife Antigo, o visitante encontra desde roupas pintadas à mão, passando por artesanato indígena, até bijuterias de prata. Há, também, peças de gosto duvidoso, mas com paciência o turista acaba garimpando objetos que valem a pena, como roupas bordadas, peças em renda renascença e curiosas bolsas artesanais.

   No Pátio de São Pedro, o visitante pode encontrar no bar Terra Brasil o que melhor existe no artesanato não só nordestino, mas do país inteiro. E o que é melhor: além do extremo bom gosto das peças expostas, há todo tipo de preço. Nos bares mais alternativos do Pátio —- como o do Rogê — o turista encontra, também, produção alternativa de fotografias, bolsas e tecidos pintados à mão.

   Mas a oferta mais curiosa mesmo está na Casa da Rabeca do Mestre Salu. Na galeria, o visitante pode escolher entre ganzás, maracás, flautas indígenas, paus-de-chuva, calimbas, bexigas, recos e rabecas. Os instrumentos têm preços que variam entre R$ 15 e R$ 600. Aquelas golas maravilhosas e calidoscópicas usadas pelos caboclos de lança do maracatu rural “Piaba de Ouro”, do Mestre Salu, também estão à venda por R$ 2 mil. São tão bonitas que já não servem apenas como fantasia. Cada dia é maior o número de pessoas que as utilizam como peças de decoração em suas casas, como, aliás, já fez o escritor Ariano Suassuna.

(© O Globo On Line)


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