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 Onde a Bahia esconde os seus tesouros

01/06/2003

 

 

 

Chapada Diamantina   Foto: Júlia Dias Carneiro

 

Chapada Diamantina, BAHIA
Especial para O GLOBO

   O ouro foi-se, os diamantes idem, mas o verdadeiro tesouro permanece. Ostentando uma beleza que faz pensar que a mãe natureza devia mesmo estar querendo esnobar quando a criou, a Chapada Diamantina justifica o título de coração da Bahia com argumentos capazes de convencer qualquer vivalma: chapadões imponentes, cachoeiras e cânions deslumbrantes, grutas esculpidas pelo tempo e orquídeas e bromélias por toda parte. Espalhados pelos 152 mil hectares do Parque Nacional da Chapada Diamantina, os tesouros não podem ser esgotados em uma, dez ou 20 viagens. Mas justificam cada uma delas, deixando sempre um gostinho de quero mais ao voltar para casa. O que não faltam são segredos a serem desvendados... E não há nada mais gostoso do que fazê-lo.

   A primeira parada mais natural para quem visita a Chapada Diamantina é Lençóis, cidade com a melhor infra-estrutura turística da região e também a de mais fácil acesso. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Lençóis tem em seu casario colonial a lembrança dos tempos em que era a capital do diamante, no século XIX. Seu nome é uma alusão às barracas de toldo que os garimpeiros montavam à beira do rio (hoje também Rio Lençóis) depois da descoberta de lavras diamantíferas em seu leito, em 1845, e que, à distância, mais pareciam lençóis estendidos.

   O grande trunfo da cidade, porém, é a sua localização privilegiada. Lençóis é ponto de partida para um sem-número de cachoeiras, grutas e morros, como o Morro do Pai Inácio. Lá de cima, tem-se uma vista de 360 graus para formações como o Morro do Camelo e os Três Irmãos, além de um pôr-do-sol cinematográfico.

   O nome do morro é um exemplo dos muitos causos que os escravos da região contavam. Reza a lenda que Pai Inácio era um escravo que havia se apaixonado pela filha de um coronel e, perseguido por seus jagunços, teria pulado do morro para escapar. Mas o final é feliz: Pai Inácio teria enganado os capangas e reencontrado sua amada (e ainda batizado o morro!).

   Apesar dos atrativos de Lençóis, vale a pena, e muito, passar por outras cidades da Chapada, menores e menos turísticas. Um desses lugares é o Vale do Capão, cuja pequena vila, Caeté-Açu (normalmente chamada de Capão mesmo), parece um mundo à parte (e com um quê esotérico). Pequeníssima, com uma rua principal e uma praça, é cercada por comunidades alternativas de hippies e esotéricos, que vendem suas bijuterias e artesanato na vila à noite.

   A exclusividade de Caeté-Açu está nos seus detalhes, como o fato de seus moradores fazerem coleta seletiva do lixo, de a maioria dos restaurantes não vender refrigerante, de a pizzaria da cidade ter em seu cardápio dois sabores de pizza — uma salgada e uma doce, sendo que a salgada é de cenoura! — e de a iguaria que mais faz sucesso na vila (não deixe de provar) ser o pastel de palmito de jaca. Uma delícia!

   Do Capão pode-se fazer passeios deslumbrantes, como o trekking para a Cachoeira da Fumaça e para o Morrão, como é conhecido o Monte Tabor. São 1.418 metros de altitude, 218 metros de altura e mais de três horas de uma caminhada bem cansativa. Mas a vista lá de cima compensa por cada passo dado e recarrega as energias rapidinho. A única ressalva é que talvez seja sábio optar por um programa mais light no dia seguinte...

   Para subir o Morrão ou fazer a maioria dos passeios da Chapada, é essencial contratar um guia. Achar um é fácil: basta perguntar na sua pousada, ir até a associação de condutores da cidade (toda cidade tem uma) ou procurar nas agências de viagens.

(© O Globo On Line)


A Chapada Diamantina tem quedas d‘água de todos os tipos

   Eu ainda acho que a Chapada guarda um tesouro muito grande escondido da gente’, diz o guia Herenilson dos Santos, o Gordo, com sua fala baiana gostosa, na volta da trilha para a Cachoeira da Fumaça. As palavras são sérias, teoria do guia que nasceu na Chapada Diamantina e lá viveu a vida toda. Mas, ditas assim, com o cenário do Vale do Capão logo abaixo e justo depois de ver uma das mais incríveis cachoeiras do Brasil, parecem brincadeira.

   A grandiosidade da Cachoeira da Fumaça faz jus ao título de A mais alta do Brasil. Do alto de seus 340 metros, ela explica a sua fama aos que caminharam a longa trilha para vê-la (são pelo menos duas horas e meia) e revela-se gloriosa, cercada por dois braços de chapadões e um vale bem verde logo abaixo. A vista é deslumbrante, mas assustadora de tão alta. Tão alta, aliás, que os guias só deixam os visitantes chegarem na beira da pedra engatinhando, para então apreciarem a vista deitados (o que não é naaada mal... vide a capa). E tão alta que, nas épocas em que o rio está menos volumoso, o vento não deixa a água cair. O efeito “fumaça” é mágico: as correntes de vento sopram a água na direção de quem avista a cachoeira de cima, numa chuva de gotículas que, com o reflexo do sol, brilham como cristais e formam arco-íris.

   A Fumaça pode ser vista também do lado de baixo, mas para isso deve-se fazer uma caminhada de dois a três dias que leva do Vale do Capão até Lençóis, ou vice-versa. Para os adeptos do trekking, aliás, a Chapada Diamantina é o paraíso. Um dos passeios mais bem-falados é o que atravessa o Vale do Pati, levando do Capão para Andaraí. O trajeto leva de três a cinco dias e exige um bom guia, equipamento para acampar e, sobretudo, muita disposição!

   Mais ao sul, abre-se outro capítulo do mapa de tesouros da Chapada. É que lá estão jóias como a Cachoeira do Buracão e o Poço Encantado, e cidades absolutamente fofas como Mucugê e Igatu. Os dois primeiros estão fora dos limites do Parque Nacional, criado por decreto em 1985 para proteger a serra do Sincorá e seus arredores.

   Oitenta quilômetros ao sul de Mucugê, Ibicoara tem como destaque suas belas cachoeiras. A sensação do momento é a Cachoeira do Buracão, mais uma prova de que a Chapada gosta de fazer surpresas: ela só revela a beleza da queda a quem passar por seu último desafio (apelidada carinhosamente pelos guias de poço dos frouxos): nado livre! Isso porque, depois de duas horas de caminhada, a trilha acaba num rio, e só chega até a cachoeira quem nadar os cerca de cem metros restantes em sua direção. É das experiências mais gratificantes que há: você nada por entre o cânion cavado pela cachoeira, avançando por um corredor de pedras cobertas pelo verde-amarelo do musgo e, no fim, está o poço do Buracão, logo abaixo da queda d’água de 85 metros.


A presença do tempo marca toda a Chapada

   Apesar das muitas atrações de Ibicoara, como o Buracão e a Cachoeira da Fumacinha, vale mais a pena para quem vai conhecer o sul da Chapada hospedar-se na simpática Mucugê, a cerca de uma hora de carro. Assim como em Lençóis, o casario da cidade, tombado pelo IPHAN, é uma herança da origem colonial da cidade, onde foram encontrados os primeiros diamantes da Chapada.

   Fundada em 1844, a cidade ganhou um de seus principais marcos já em 1855: o Cemitério Bizantino. Encravado no pé da serra do Cruzeiro e criado para evitar contaminações na cidade após um surto de cólera na região, é o único da América Latina em estilo bizantino, com criptas que imitam o formato de igrejas. De noite, os túmulos, tão brancos que chegam a ofuscar, ficam iluminados e podem ser visitados (por quem tiver coragem...). Já os que preferem passeios durante o dia podem visitar as atrações em volta da cidade, como a Cachoeira do Tiburtino e da Piabinha.

   Perto de Mucugê e logo ao lado do distrito de Andaraí está Igatu, apelidada de cidade das pedras. Visitar a antiga vila de Xique-Xique de Igatu é como fazer uma viagem no tempo — e chegar a um lugar onde ele parece não passar. As ruínas de casas de pedra, ao lado da vila, só reforçam essa impressão, e são mais uma herança do ciclo do diamante. Só que, neste caso, são fruto de sua decadência, simbolizando a debandada, no século XX, dos mesmos exploradores que, anos antes, chegaram esperançosos à região e construíram casas com o material mais abundante que havia: pedra.

   Hoje, com pouco mais de 400 habitantes (quatro orelhões, pouco mais de 60 casais e nenhuma farmácia...) a cidade sobrevive do turismo e beneficia-se do que tem a seu redor: atrações como o mirante da Rampa do Caim, de onde se vê o Vale do Pati e o cânion do Rio Paraguaçu.

   Fora da superfície, a Chapada também guarda seus segredos: são mais de cem grutas catalogadas, cada uma delas uma lembrança sólida da passagem do tempo e das marcas deixadas por ele. Esculpidas em milhares de anos por gotas que caíam dia sim, dia não (ou ano sim, ano não) e depositavam calcário nas pedras, estalactites e estalagmites enfeitam o chão e o teto de cavernas que, em alguns casos, têm ainda em suas paredes inscrições rupestres que datam de 18 mil a 30 mil anos.

   As cavernas da Chapada se concentram principalmente na região de Iraquara, mais ao norte, onde ficam as grutas da Lapa Doce, da Torrinha e da Pratinha. A Torrinha abriga formações raras, como estalactites com cristal transparente e flores de aragonita. Já na Pratinha, uma gruta de rochas claras inundada pelas águas cristalinas do rio Pratinha, é possível mergulhar por cerca de meia hora com o acompanhamento de um guia. Isso na gruta, porque no rio pode-se nadar à vontade e até saltar de tirolesa.

   A grande estrela entre as grutas é o Poço Encantado. O lago, de um azul desconcertante, fica dentro de uma caverna e recebe feixes de luz que incidem sobre sua superfície e revelam seu fundo transparente. Dá uma vontade louca de mergulhar, mas não pode. A solução é ir até o também lindo Poço Azul, a cerca de 35 quilômetros dali, e tomar um bom banho.

   Para visitar as grutas, não é preciso guias. A maioria fica em propriedade particular e tem estrutura de visitação e guias próprios, cobrando taxa que varia de R$ 3 a R$ 10 de entrada.

(© O Globo On Line)


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