Chapada Diamantina, BAHIA
Especial para O GLOBO
O ouro foi-se, os diamantes idem, mas o
verdadeiro tesouro permanece. Ostentando uma beleza que faz pensar que a mãe natureza
devia mesmo estar querendo esnobar quando a criou, a Chapada Diamantina justifica o
título de coração da Bahia com argumentos capazes de convencer qualquer vivalma:
chapadões imponentes, cachoeiras e cânions deslumbrantes, grutas esculpidas pelo tempo e
orquídeas e bromélias por toda parte. Espalhados pelos 152 mil hectares do Parque
Nacional da Chapada Diamantina, os tesouros não podem ser esgotados em uma, dez ou 20
viagens. Mas justificam cada uma delas, deixando sempre um gostinho de quero mais ao
voltar para casa. O que não faltam são segredos a serem desvendados... E não há nada
mais gostoso do que fazê-lo.
A primeira parada mais natural para quem visita a Chapada Diamantina é
Lençóis, cidade com a melhor infra-estrutura turística da região e também a de mais
fácil acesso. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN), Lençóis tem em seu casario colonial a lembrança dos tempos em que era a
capital do diamante, no século XIX. Seu nome é uma alusão às barracas de toldo que os
garimpeiros montavam à beira do rio (hoje também Rio Lençóis) depois da descoberta de
lavras diamantíferas em seu leito, em 1845, e que, à distância, mais pareciam lençóis
estendidos.
O grande trunfo da cidade, porém, é a sua localização privilegiada.
Lençóis é ponto de partida para um sem-número de cachoeiras, grutas e morros, como o
Morro do Pai Inácio. Lá de cima, tem-se uma vista de 360 graus para formações como o
Morro do Camelo e os Três Irmãos, além de um pôr-do-sol cinematográfico.
O nome do morro é um exemplo dos muitos causos que os escravos da região
contavam. Reza a lenda que Pai Inácio era um escravo que havia se apaixonado pela filha
de um coronel e, perseguido por seus jagunços, teria pulado do morro para escapar. Mas o
final é feliz: Pai Inácio teria enganado os capangas e reencontrado sua amada (e ainda
batizado o morro!).
Apesar dos atrativos de Lençóis, vale a pena, e muito, passar por outras
cidades da Chapada, menores e menos turísticas. Um desses lugares é o Vale do Capão,
cuja pequena vila, Caeté-Açu (normalmente chamada de Capão mesmo), parece um mundo à
parte (e com um quê esotérico). Pequeníssima, com uma rua principal e uma praça, é
cercada por comunidades alternativas de hippies e esotéricos, que vendem suas bijuterias
e artesanato na vila à noite.
A exclusividade de Caeté-Açu está nos seus detalhes, como o fato de seus
moradores fazerem coleta seletiva do lixo, de a maioria dos restaurantes não vender
refrigerante, de a pizzaria da cidade ter em seu cardápio dois sabores de pizza
uma salgada e uma doce, sendo que a salgada é de cenoura! e de a iguaria que mais
faz sucesso na vila (não deixe de provar) ser o pastel de palmito de jaca. Uma delícia!
Do Capão pode-se fazer passeios deslumbrantes, como o trekking para a
Cachoeira da Fumaça e para o Morrão, como é conhecido o Monte Tabor. São 1.418 metros
de altitude, 218 metros de altura e mais de três horas de uma caminhada bem cansativa.
Mas a vista lá de cima compensa por cada passo dado e recarrega as energias rapidinho. A
única ressalva é que talvez seja sábio optar por um programa mais light no dia
seguinte...
Para subir o Morrão ou fazer a maioria dos passeios da Chapada, é essencial
contratar um guia. Achar um é fácil: basta perguntar na sua pousada, ir até a
associação de condutores da cidade (toda cidade tem uma) ou procurar nas agências de
viagens.
(© O Globo On Line)
A Chapada Diamantina tem quedas dágua de
todos os tipos
Eu ainda acho que a Chapada guarda um
tesouro muito grande escondido da gente, diz o guia Herenilson dos Santos, o Gordo,
com sua fala baiana gostosa, na volta da trilha para a Cachoeira da Fumaça. As palavras
são sérias, teoria do guia que nasceu na Chapada Diamantina e lá viveu a vida toda.
Mas, ditas assim, com o cenário do Vale do Capão logo abaixo e justo depois de ver uma
das mais incríveis cachoeiras do Brasil, parecem brincadeira.
A grandiosidade da Cachoeira da Fumaça faz jus ao título de A mais alta do
Brasil. Do alto de seus 340 metros, ela explica a sua fama aos que caminharam a longa
trilha para vê-la (são pelo menos duas horas e meia) e revela-se gloriosa, cercada por
dois braços de chapadões e um vale bem verde logo abaixo. A vista é deslumbrante, mas
assustadora de tão alta. Tão alta, aliás, que os guias só deixam os visitantes
chegarem na beira da pedra engatinhando, para então apreciarem a vista deitados (o que
não é naaada mal... vide a capa). E tão alta que, nas épocas em que o rio está menos
volumoso, o vento não deixa a água cair. O efeito fumaça é mágico: as
correntes de vento sopram a água na direção de quem avista a cachoeira de cima, numa
chuva de gotículas que, com o reflexo do sol, brilham como cristais e formam arco-íris.
A Fumaça pode ser vista também do lado de baixo, mas para isso deve-se
fazer uma caminhada de dois a três dias que leva do Vale do Capão até Lençóis, ou
vice-versa. Para os adeptos do trekking, aliás, a Chapada Diamantina é o paraíso. Um
dos passeios mais bem-falados é o que atravessa o Vale do Pati, levando do Capão para
Andaraí. O trajeto leva de três a cinco dias e exige um bom guia, equipamento para
acampar e, sobretudo, muita disposição!
Mais ao sul, abre-se outro capítulo do mapa de tesouros da Chapada. É que
lá estão jóias como a Cachoeira do Buracão e o Poço Encantado, e cidades
absolutamente fofas como Mucugê e Igatu. Os dois primeiros estão fora dos limites do
Parque Nacional, criado por decreto em 1985 para proteger a serra do Sincorá e seus
arredores.
Oitenta quilômetros ao sul de Mucugê, Ibicoara tem como destaque suas belas
cachoeiras. A sensação do momento é a Cachoeira do Buracão, mais uma prova de que a
Chapada gosta de fazer surpresas: ela só revela a beleza da queda a quem passar por seu
último desafio (apelidada carinhosamente pelos guias de poço dos frouxos): nado livre!
Isso porque, depois de duas horas de caminhada, a trilha acaba num rio, e só chega até a
cachoeira quem nadar os cerca de cem metros restantes em sua direção. É das
experiências mais gratificantes que há: você nada por entre o cânion cavado pela
cachoeira, avançando por um corredor de pedras cobertas pelo verde-amarelo do musgo e, no
fim, está o poço do Buracão, logo abaixo da queda dágua de 85 metros.
A presença do tempo marca toda a Chapada
Apesar das muitas atrações de Ibicoara,
como o Buracão e a Cachoeira da Fumacinha, vale mais a pena para quem vai conhecer o sul
da Chapada hospedar-se na simpática Mucugê, a cerca de uma hora de carro. Assim como em
Lençóis, o casario da cidade, tombado pelo IPHAN, é uma herança da origem colonial da
cidade, onde foram encontrados os primeiros diamantes da Chapada.
Fundada em 1844, a cidade ganhou um de seus principais marcos já em 1855: o
Cemitério Bizantino. Encravado no pé da serra do Cruzeiro e criado para evitar
contaminações na cidade após um surto de cólera na região, é o único da América
Latina em estilo bizantino, com criptas que imitam o formato de igrejas. De noite, os
túmulos, tão brancos que chegam a ofuscar, ficam iluminados e podem ser visitados (por
quem tiver coragem...). Já os que preferem passeios durante o dia podem visitar as
atrações em volta da cidade, como a Cachoeira do Tiburtino e da Piabinha.
Perto de Mucugê e logo ao lado do distrito de Andaraí está Igatu,
apelidada de cidade das pedras. Visitar a antiga vila de Xique-Xique de Igatu é como
fazer uma viagem no tempo e chegar a um lugar onde ele parece não passar. As
ruínas de casas de pedra, ao lado da vila, só reforçam essa impressão, e são mais uma
herança do ciclo do diamante. Só que, neste caso, são fruto de sua decadência,
simbolizando a debandada, no século XX, dos mesmos exploradores que, anos antes, chegaram
esperançosos à região e construíram casas com o material mais abundante que havia:
pedra.
Hoje, com pouco mais de 400 habitantes (quatro orelhões, pouco mais de 60
casais e nenhuma farmácia...) a cidade sobrevive do turismo e beneficia-se do que tem a
seu redor: atrações como o mirante da Rampa do Caim, de onde se vê o Vale do Pati e o
cânion do Rio Paraguaçu.
Fora da superfície, a Chapada também guarda seus segredos: são mais de cem
grutas catalogadas, cada uma delas uma lembrança sólida da passagem do tempo e das
marcas deixadas por ele. Esculpidas em milhares de anos por gotas que caíam dia sim, dia
não (ou ano sim, ano não) e depositavam calcário nas pedras, estalactites e
estalagmites enfeitam o chão e o teto de cavernas que, em alguns casos, têm ainda em
suas paredes inscrições rupestres que datam de 18 mil a 30 mil anos.
As cavernas da Chapada se concentram principalmente na região de Iraquara,
mais ao norte, onde ficam as grutas da Lapa Doce, da Torrinha e da Pratinha. A Torrinha
abriga formações raras, como estalactites com cristal transparente e flores de
aragonita. Já na Pratinha, uma gruta de rochas claras inundada pelas águas cristalinas
do rio Pratinha, é possível mergulhar por cerca de meia hora com o acompanhamento de um
guia. Isso na gruta, porque no rio pode-se nadar à vontade e até saltar de tirolesa.
A grande estrela entre as grutas é o Poço Encantado. O lago, de um azul
desconcertante, fica dentro de uma caverna e recebe feixes de luz que incidem sobre sua
superfície e revelam seu fundo transparente. Dá uma vontade louca de mergulhar, mas não
pode. A solução é ir até o também lindo Poço Azul, a cerca de 35 quilômetros dali,
e tomar um bom banho.
Para visitar as grutas, não é preciso guias. A maioria fica em propriedade
particular e tem estrutura de visitação e guias próprios, cobrando taxa que varia de R$
3 a R$ 10 de entrada.
(© O Globo On Line)